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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

MÃE

— E cada vez que não consigo o meu propósito, ressoa essa voz na minha cabeça que me diz que sou um fracasso, uma desilusão —explicou a Carolina.

— Essa é a voz do seu subconsciente —explicou a psiquiatra—. Mas sabe uma coisa? Depois de tanto tempo, já sei a quem pertence essa voz.

— A quem, doutor?

— A sua mãe. Ela é uma mulher dominante, sempre influiu na sua vida. Eu sei que você ama sua mãe, mas tem que apreender a dizer «não», rotundamente. Entendeu?

— Entendi.

No dia seguinte, a Carolina ficou subcampeã no campeonato de provas matemáticas da região. Bem logo, a voz da mãe berrou na sua mente: «Estou desiludida contigo...». Porém, a Carolina não deixou acabar a voz da cabeça e disse-lhe: «Cala a boca!!». A voz calou-se.

Por primeira vez, em muito tempo, a Carolina dormiu muito tranquila naquela noite. Sim, tinha razão o psiquiatra, ela amava a sua mãe, mas tinha que quebrar as cadeias de dependência que tinha com ela. Talvez de manhã ligaria para ela e dir-lhe-ia que a amava, mas nada de vozes na sua cabeça, isso não.

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Quando às cinco da madrugada, a Carolina acordou porque tinha vontade de ir à casa de banho, demorou uns segundos a perceber que ao pé da sua cama havia uma figura humana. Reparou melhor e viu uma mulher idosa ensopada pela chuva do exterior e com uma mala de rodas ao seu lado. Tudo indicava que acabava de chegar. A Carolina perguntou:

— Mãe?

E a mãe simplesmente disse em tom de reprimenda, em quanto a água da chuva ainda lhe caia pelo rosto:

— Tu a mim não me mandas calar a boca na vida, entendeste?

© Frantz Ferentz, 2020

domingo, 1 de novembro de 2020

DESILUDIDA

 


— Martinha, quero divorciar-me do meu homem —disse a Francisca à sua amiga.

— Como assim? perguntou a amiga enquanto dava um s​orvo ao chá.

— Eu apaixonei-me do poeta, daquela figura que escrevia os melhores versos que tenho lido disse ela.

— E então? quis saber a Martinha.

— Então, descobri o homem, que não escreve num recinto idílico, não tem um espaço onde se recolher para criar, não. Passa o dia com o telemóvel a escrever nele deitado na cama. É lá que ele compõe.

— Interessante comentou a amiga cheia de compreensão. Eu sempre pensei que os grandes poetas têm uma espécie de lugar místico e solitário onde são visitados pelas musas.

— De certo sim tem esse lugar e é onde ele escreve os seus melhores poemas, embora seja com o telemóvel exprimiu ela.

— E que lugar é esse? Um quarto secreto, uma varanda, uma sala cheia de livros até ao teto? quis saber a Martinha.

A Francisca largou um longo suspiro e respondeu:

— Não, é a casa de banho.

©​ Frantz Ferentz, 2020​

NOITE DE BRUXAS

 


Todos sabiam que naquela noite de bruxas, haveria uma autêntica noite de bruxas. Não seria uma celebração infantil, não, seriam autênticas bruxas num aquelarre fora da povoação, com fogueira incluída.

Ninguém teria a coragem de ir até lá e impedir o encontro. Ninguém exceto o agente Félix, ​fulano rude e sem sentimentos, uma máquina d​ e fazer cumprir ​a lei.

O agente Félix mostrou às bruxas uma foto do líder do Partido Patriota, familiar direto de Torquemada, a tentar queimar feministas no século XXI.

As bruxas riram​ e criaram um círculo ameaçante ao redor dele, com aqueles cabelos compridos e despenteados​. Era​-lhes​ tão engraçado aquele Rambinho. Pela primeira vez na sua vida,​ o agente Félix​ teve medo, muito medo.

— Antes de morreres disse a chefa do aquelarre— diz porque vieste.

Então ele disse tremendo:

Á, minhas senhoras, é que estamos no estado de emergência. É proibido reunirem-se mais de seis pessoas e mais ainda depois do toque de recolher. Isso diz a lei.

E por que não começaste por lá, cachorrinho do poder? perguntou a chefa bruxa. Nós respeitamos a lei.

E antes de o agente Félix voltar a pestanejar, as bruxas já foram embora, nas suas vassouras, naturalmente.

©​ Frantz Ferentz, 2020​

MALDIÇÕES DA LUA CHEIA

 


— Á, mamã, porque sempre passamos as noites de lua cheia nesta cova angosta, fria e escura perguntou o miúdo a tremer.

— Porque todas as noites de lua cheia nos transformamos, já ťo disse mil vezes. E logo querem matar-nos exprimiu a mãe.

— Então, nós somos lobisomes e os humanos querem acabar connosco? continuou o pequeno. Isso foi o que ouvi dizer por lá, que os humanos acabam com os lobisomes.

— Ai, filho, não entendes nada. Nós somos homilobos, não lobisomes. São os lobos que acabam connosco en noites como esta por parecermos humanos, pois para os humanos somos tão feios e sem pelo como eles. Mas no resto das noites, somos caçados pelos humanos por sermos lobos.

O pequeno, faminto, aproveitou aquela noite para se consolar da sua vida de merda comendo uma cenoura que deixara ao seu lado, pois ao menos, uma vez por mês, o seu estômago digeria vegetais.

©​ Frantz Ferentz, 2020​




SEM PERGUNTAS


Quando ele foi escutar as mensagens no atendedor, encontrou uma gravação brevíssima dela que dizia entre sussurros:

«Se me amas, só vem e abraça-me. Não perguntes nada».

Ele foi e obedeceu. Ela foi depois encontrada abrasada em gasolina a abraçar o vazio.

© Frantz Ferentz​, 2020​

​O VENDEDOR DE CÉREBROS RECICLADOS

 


​​Soou a campainha. Fui abrir. Era um vendedor. Eu pensava que já não havia vendedores a domicílio. Enganava-me.

— Bom dia. Olhe que ocasião disse um homem de idade imprecisa, que logo abriu uma caixa ante os meus olhos. Nela havia um cérebro, aparentemente humano. Cérebros reciclados para trazer a felicidade. Sem operações, introduzidos pela orelha, com anestesia local.

Eu já ia fechar a porta nos narizes do vendedor, quando o meu cão saiu de embaixo das minhas pernas e saltou para a caixa. O cérebro rodou pelo chão. O meu cão não hesitou. Comeu o cérebro num só bocado e uns segundos depois sentou no chão e disse para mim:

— A ver se agora por fim tu e mais eu temos ​de vez ​uma conversa séria...

© Frantz Ferentz​, 2020​

ATAQUE DE REBELDIA

 


De repente, tive um forte impulso de sair para a rua. Eram mais das onze da noite. O toque de recolher já estava vigorizado. Disse-me que queria ser rebelde, que ia desafiar as autoridades, eu que sempre sou tão bonzinho. Tencionava quebrar as regras, eu que sempre as cuido e até as mimo. 

Saí, logo. Fiquei uns instantes cabo da porta. Silêncio. Uma gata às janeiras miulava ao longe. A lua cheia produzia um luar impressionante. Logo fiquei a pensar que naquela aldeia manchega não havia agentes da lei que obrigassem a guardar o toque de recolher. De repente, ouvi a voz de minha mãe na minha cabeça: «Como é que sais para a rua sem pôres um casaco? Vais pilhar uma constipação, filho». Não fez falta polícia nenhuma, chegou com a vozinha da minha mãe na consciência. Entrei em casa sem ​replicar e creio que não voltarei a arriscar com o toque de recolher, pois temo que acorde outra vez essa voz na minha cabeça.

© Frantz Ferentz, 2020

terça-feira, 21 de julho de 2020

GRANDILOQUÊNCIA

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A  Joaninha postou a frase ideal do Paulo Coelho nas suas redes sociais. Era perfeita, transmitia perfeitamente a imagem que de si própria ela queria transmitir. Começou a copiá-la:

“Em toda relação humana, a coisa mais importante é a conversa; mas as pessoas já não fazem mais isso - sentar-se para falar e para escutar os outros.

Recebeu uma mensagem do Zico. Mal viu o seu nome no ecrã, deitou o telemóvel na cama. Continuou a escrever:

Se quisermos mudar o mundo, temos que voltar para a época em que os guerreiros se reuniam em torno da fogueira e contavam histórias.”

A Joaninha recuperou o telemóvel, apagou a mensagem e bloqueou o Zico. Que obsessão do gajo de conversarem sobre porquê ela decidiu quebrar o relacionamento com ele sem qualquer explicação.

© Frantz Ferentz, 2020


quinta-feira, 2 de julho de 2020

PEAGADÊ

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Quando me foi apresentado, disseram-me que se chamava Peagadê Arnaldo. Parecia-me um nome muito estranho, mas não quis julgar os critérios dos seus pais. Porém, a cada vez que coincidia com ele em atos públicos, quem o apresentava sempre incluía os dois nomes e, quando falavam com ele, continuavam a chamá-lo apenas Peagadê. Ele parecia adorar esse nome. Até uma vez em que tive que apresentá-lo eu e aliás tive de escrever o seu nome num cartazinho informativo. Escrevi: Peagadê Arnaldo Campo. Quando ele viu aquilo, cuspiu-me no rosto com raiva e disse-me: "Invejoso" e lançou-me um seu cartão de apresentação. Só então percebi. Lá dizia: PhD Arnaldo Campo.

© Frantz Ferentz, 2020 

CORONAVÍRUS

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O Donald saiu da UCI depois de curar da covid. Cem mil dólares. Essa foi a fatura que lhe chegou a casa quando recuperou a saúde. Ele não dispunha daquela quantidade. Era a sua ruína. Teria que se suicidar, mas não tinha a coragem de o fazer. Portanto, foi para o hospital onde fora tratado com a fatura na mão. Pediu para se entrevistar com o administrador. Lançou-lhe a fatura ao rosto enquanto lhe dizia: "Eu não disponho dessa quantidade, portanto, devolvam-me o coronavírus".

© Frantz Ferentz, 2020

SOLIDÃO DURANTE A QUARENTENA

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Quando decretaram o estado de alarma e a população foi submetida a quarentena nos seus lares, o João creu que atolaria por ter de ficar sozinho inúmeras semanas. Mas bem logo ficou a saber que a coisa não seria tão terrível quando descobriu que podia manter bons debates e até discussões com o Mário, a sua outra personalidade.

© Frantz Ferentz, 2020

PUBLICIDADE NAS REDES SOCIAIS

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Durante a pandemia, passei ainda mais tempo nas redes sociais. A maldita publicidade  era insistente demais. Não havia dia em que não lhe saísse aquele anúncio de óculos de sol. E ele, dia após dia, cancelava e pedia para não receber mais aquela publicidade. E a rede social sempre perguntava porquê. E ele sempre respondia a mesma coisa: "Porque sou cego".

© Frantz Ferentz, 2020


domingo, 7 de junho de 2020

QUANDO LUDWIG MOND DAVA LIÇÕES DE COMO SE VENDER A SI PRÓPRIO

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Ludwig Mond chegou cinco minutos atrasado. 
 Desculpa lá. Estava a impulsionar a minha carreira literária disse-me enquanto sentava e pedia um gintónico.
Depois, olhou para mim com um sorriso iluminado e me lançava a sua horrível halitose. 
 Sabes? O teu problema como poeta é que não te sabes vender adicionou enquanto retirava um cabelo púbico da boca e dava um bom gole do gintónico para matar o sabor a sémen. 

© Frantz Ferentz, 2020

sexta-feira, 15 de maio de 2020

MENSAGENS NAS REDES SOCIAIS

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   Na rede social, ela escreveu uma mensagem para todos os seus contatos, que, por acaso, chegou até ele:
   «Escreve cá qual é a melhor lembrança que tens de mim».
   Ele nem hesitou. Escreveu:
   « A melhor lembrança que tenho de si foi esquecê-la»

© Frantz Ferentz, 2020

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O MACACO POETA

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Latakunga era um bonobo, muito inteligente, talvez demasiado. É impossível dizer onde nascera exatamente, mas sim que a sua mãe fora capturada por caçadores furtivos. 
Ele ia ser vendido em qualquer mercado da África, mas felizmente uma ONG resgatou-o e levou-o para um santuário de primatas na Europa. 
Logo que ele cresceu um pouco, os seus cuidadores comprovaram que a sua inteligência salientava por cima do resto de animais do santuário. Ensinaram-lhe a linguagem gestual. Os resultados foram inesperados. Em poucas semanas, era capaz de se comunicar com os humanos por gestos, entendia muito bem e até era capaz de expressar ironia. 
Latakunga começou a ter uma relação mais especial com o Donaldo, que não era nem cientista nem cuidador, mas apenas um dos guardas do santuário. Nas noites em que ele fazia as guardas, gostava de conversar com o Latakunga. Ele conhecia a linguagem gestual porque na sua família havia duas pessoas surdas e, portanto, precisou sempre de se comunicar com elas através das mãos.  
Durante as noites que o Donaldo passou com o Latakunga, comprovou que as habilidades do macaco eram maiores do que qualquer um pensaria. Tinha mesmo um talento poético. Sim, era capaz de expressar poesia com os seus gestos. 
 Estou apaixonado –confessou um dia o Donaldo ao macaco–. Ela chama-se Eleonora. Oxalá eu soubesse expressar-me como tu. Acho que com poesia conquistaria o seu coração. 
Latakunga, para além de fazer gestos, chiou. Estava pronto a dar uma ajuda ao seu amigo humano. Assim, gestualmente, foi expressando poemas de amor. O Donaldo limitava-se a os transcrever. 
Graças àqueles poemas, o Donaldo ganhou o coração da Eleonor. Se ela tivesse sabido que aqueles versos saíram da mente de um macaco… mas felizmente ela ignoraria tal coisa. 
No entanto, o Donaldo achou que o talento poético do símio poderia ser aproveitado ainda mais. Pediu para ele lhe dizer mais poemas. O macaco passava as noites a gesticular poemas, mas cansava-se, era muito chato ter que expressar tanto amor com gestos. Por acaso o humano queria apaixonar todas as mulheres da cidade? 
 Mais poemas… mais amor… –exigia o Donaldo. 
Coitado macaco. Afinal, quando o Donaldo conseguiu reunir duzentos poemas, apresentou-os a um concurso literário. Tinha certeza que ganharia o primeiro prémio e que ninguém saberia que aqueles poemas eram obra de um macaco. 
Mas o Donaldo não ganhou. E ainda mais, recebeu uma denúncia de um Piero dell’Acqua por lhe ter plagiado os poemas e tê-los apresentado a um concurso onde ele próprio era membro do júri. 

© Frantz Ferentz, 2020