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terça-feira, 25 de outubro de 2016

PODER DE CONVICÇÃO

Resultado de imagen de sleepy hollowDurante algum tempo, mantivera correspondência com aquele colega centro-europeu por questões académicas. Desde o início, ele manifestou-se como um grande defensor do Estruturalismo. Afirmava que qualquer outra teoria não tinha base, porque só o Estruturalismo dava resposta às perguntas do ser humano, porque ele achava que tudo é questão de estrutura, desde as moléculas até o pensamento. Foram meses de interessantes discussões, mas afinal, o meu colegar mostrou-se inclusive fanático na sua defesa do Estruturalismo. Eu ia desmontando os seus argumentos um a um, intelectualmente, mas ele não se rendia.
   Então, um dia, pediu-me para falarmos por videoconferência. Nunca lhe tinha visto o rosto até aquela altura. Quando nos ligamos, encontrei um tipo magro, alto e perfeitamente barbeado, com óculos quadrados. Sempre tínhamos trocado as nossas impressões através do correio eletrónico, mas na altura ele me tinha garantido que me ia convencer de que o Estruturalismo era a única teoria verdadeira para explicar o conhecimiento.
   — As partes, ao se unirem, formam estruturas começou ele a dizer.
   — Caro colega, já lhe disse que isso é uma simplificação repliquei eu.
   — Ah, sim? Isso acha? —disse ele—. Então permita-me que lhe mostre porque é que eu tenho razão".
   Eu achei que ele me mostraria algum gráfico ou alguma coisa assim, mas não, o que ele fez na altura foi remover um braço, colocá-lo no seu lugar depois, repetir a mesma operação com o outro braço e, finalmente, remover a cabeça com o pescoço. Colocou a seguir a cabeça na mesa e esta falou sozinha:
   — Se as partes não formarem uma estrutura, eu não seria eu, não concorda?
   Eu fiquei sem palavras. O que é que eu pedia dizer? Estava paralisado. O gajo falava -o mais bem a sua cabeça falava-, enquanto as mãos gesticulavam. Assim, como eu não podia responder, ele aproveitou para concluir:
   Prezado colega —disse-me, vejo que não tem nada que me replicar. Portanto, entendo que me dá razão...

Frantz Ferentz, 2016

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

QUANDO A PÁTRIA COMEÇA E TERMINA NA MESMA ESQUINA

Resultado de imagen de good luck chinese catO líder patriota ajustou a gravata. Acudiria, como todos os anos, ao desfile da Pátria na capital por motivo da Festa Nacional. Orgulho de pátria, sim, orgulho. Mas para a pátria ser digna, era preciso limpá-la de escória que luxava o brilho dela, como por exemplo os bazares chineses, que não fechavam nem durante a Festa Nacional. Todo bom patriota fechava os negócios durante a Festa Nacional, mas os porcos chineses não, esses abriam todos os dias, sem se importarem se era a data mais importante do calendário, a data da Pátria.
   O líder patriota pegou no telemóvel e ligou para um dos seus fieis, o Barreiros:
  — Leva os teus rapazes para o chinês que há na esquina de minha casa e queimem a loja.
   Orgulhoso de si próprio, o líder patriota foi para o quarto mostrar a gravata e o uniforme quase militar à esposa para receber as louvanças dela:
    — Gostas? — preguntou ele.
   — Gosto — disse ela sem sequer olhar para ele . Oi, faz favor, preciso de pensos, sal e papel higiénico. É tudo urgente.
   — E onde achas que vou encontrar tudo isso? — preguntou ele. Hoje é a festa nacional e está tudo encerrado.
   — O bazar chinês tem aberto — disse ela enquanto se colocava um brinco em frente do espelho.
   O líder patriótico saiu do quarto, pegou no telemóvel e ligou para o Barreiros.
   — Suspendam a operação, repito, suspendam a operação.
   O Barreiros, como bom soldado, nunca pedia explicações. Por isso, simplesmente ficou diante da loja do chinês com os camaradas e com os fachos prendidos, à espera de novos comandos. Uns minutos depois, reconheceu o seu chefe entrando na loja chinesa a tentar esconder o rosto trás as lapelas do casaco, mas era um casaco cheio de insígnias patrióticas.

© Frantz Ferentz, 2016

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A VENDA MAIS DIFÍCIL


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A Carmo era a melhor televendedora de pacotes de televisão por cabo da sua divisão. O seu recorde de vendas era inigualável. Durante vários meses consecutivos, ninguém a tinha superado e este mês ia ganhar novamente se conseguia mais un cliente.

C: Bom dia, sou a Carmo Fernandes. Ligo para si para lhe fazer uma oferta de televisão por cabo junto com a sua linha telefónica que não vai poder recusar. Com quem tenho o prazer de falar?

J: João. 

C: Um prazer, João. O que diria se lhe ofereço o pacote completo de futebol nacional e europeu por cinco euros mensais durante o primeiro mês?

A Carmo arriscava muito com aquela oferta, mas tinha que ganhar aquele último cliente.

J: Eu não gosto de sentar a ver futebol. Parece-me uma coisa doida.

Um desafio. Encontrara um desses homens que não gosta de futebol. São apenas 5% da população.

C: Está bem: corridas de carros? Touradas?

J: Não, não me interessa, obrigado. 

Mais complicado. Teria que recorrer aos paquetes complementares.

C: Temos todas as séries na moda e filmes de estreia, só por oito euros...

J: Senhorita. Gosto de cinema, mas nada pode mudar uma sessão num velho cinema na parte antiga de uma cidade pequena, com umas pipocas e sair da sala a falar com um desconhecido do filme. Isso pode oferecer-me?

C: Não...

Era já uma questão de orgulho. Ela era a melhor televendedora. Ofereceu documentários da natureza e da ciência, programas de debate político, televisão por cabo do Japão... Depois achou que, se calhar, era homossexual e deveria oferecer pacotes para homossexuais, mas não, não parecia ser homossexual. Era, simplesmente, diferente. Mas tudo foi inútil. Aquele homem não era como o resto.

C: Desculpe. O senhor que gosta de ver na televisão?

J: Não tenho televisão. Tenho um telemóvel porque gosto de saber dos meus amigos, mas não gosto de televisão... Gosto de fotografar as paisagens ao redor da minha casa. Gosto de comer o que me oferece a natureza, sou um bocadinho selvagem, reconheço. Eu vivo a mais de dois metros de altura. Gosto de olhar para as estrelas na noite. Você vê as estrelas desde sua casa lá na cidade?

C: Não.

A Carmo perdeu o cliente. Naquele mês não foi a melhor vendedora da seção. Três dias depois abandonou o trabalho e tomou um autocarro para as montanhas. Depois de tanto a falar com homens, por fim conhecera um totalmente diferente, um que ficava completamente fora das estatísticas. Esse seria o seu escolheito. Finalmente encontrou o João. Era, sim, um homem diferente, invendível. Ficou com ele. 

Só uma semana depois descobriu o que é que fazia do João um homem fora das estatísticas. Era a sua dieta, mas já era tarde, porque ela, a Carmo, já estava para perder a consciência abrasada naquele caldeirão em que buliam, junto com ela, batatas e cenouras...

© Frantz Ferentz, 2016