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terça-feira, 30 de agosto de 2016

DIGNIDADE CANINA

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Ninguém compreendeu porque a cadela Lua se suicidara depois de o livro de poemas que o seu amo lhe dedicara ser publicado. Simplesmente, lançara-se para a rua de um quinto andar, numa noite sem lua.

— Ela era muito inteligente, entendia o que eu lhe escrevia —disse o seu amo com os olhos cheio de lágrimas.

Pois, a Lua era não só inteligente, mas também era sensível e tinha bom gosto literário, por isso, ela, a cadela, não quis chegar a ver os rostos dos leitores daquele poemário quando lessem versos a ela direcionados como aqueles que diziam:

Ves aquele pau ali plantado, Lua?
É un dedo que acena à lua,
a lua é como tu, Lua,
brincalhona e ladradora,
minha cara Lua,
astro com patas e olhada crua.

O animalzinho não pôde resistir tanta vergonha.

© Frantz Ferentz, 2016

domingo, 21 de agosto de 2016

CUMPRE O TEU SONHO, POETA


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A responsável pelos recursos humanos examinava os currícula das pessoas que procuravam emprego. Para além da documentação entregada, a mulher olhava também para o perfil nas redes sociais dos candidatos. Desde havia vários dias, muitos deles, nos seus perfis, diziam que a sua profissão era poeta. A mulher não pôde evitar sorrir. Decerto tinha um trabalho para todos eles, para aqueles quatro que escreveram que a sua profissão era "poeta".

*  *  *

Os quatro estranhos coincidiram na terminal internacional do aeroporto. Os quatro tinham como destino uma capital latinoamericana. Para os quatro, a agência de emprego procurara o mesmo trabalho. Só durante a viagem foi que os quatro, dois homens e duas mulheres, começaram a falar e a comprovar que a aparente casualidade não era tal. Todos receberam, aliás, uma pasta com documentação onde se lhes explicava que para poderem trabalhar na profissão dos seus sonhos, deviam primeiro fazer um curso prático de formação num país sul-americano

*  *  *

Treze horas mais tarde, os quatro indivíduos aterravam naquele aeroporto andino. Um homem estava à espera deles na saída da zona de viageiros. Sem qualquer explicação, conduziu os quatro estrangeiros para uma ruela do bairro colonial. Amavelmente pediu-lhes para descerem da furgoneta e passarem para a sua sala de aula. Os quatro estranhos ficaram sós na entrada de uma rua cheia de artesanos locais. Mas o primeiro de todos eles era um velhote sem dentes mas com gravata que sorria para eles enquanto acenava para o seu próprio cartaz, no qual dizia: Poemas variados, temas românticos, folclóricos, para crianças, festivos, sonetos, a 2 X 5 dólares.

— Bom dia, amigos. Eu serei o vosso tutor de viver da poesia... — disse-lhes então o velhote com o seu sorriso sem dentes — . Coloquem-se por esta rua e as vizinhas, escrevam um cartaz como este e comecem a viver da poesia... Ah, e não se esqueçam da gravata!


© Frantz Ferentz, 2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

TOMAR O PARTIDO

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— Não quero que te zangues contigo mesma —disse ele.
— Que bonzinho és —respondeu ela—. É porque não queres que sofra?
— Não, é porque não sei por qual das tuas duas partes tomar o partido...

© Frantz Ferentz, 2106

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

VOCÊ NÃO SABE QUEM SOU EU


O tipo com óculos de sol, fato e gravata apesar do calor, disse-me enfastiado:
— Você não sabe quem sou eu.
Eu, certamente, não sabia quem era ele. Por isso disse-lhe:
— Se for importante para si, diga, e logo conseguirei esquecer-me de si em três segundos, nunca armazeno informação inútil na minha memória.
— Como se atreve?
— Mas de que se queixa? Assim poderá dizer-me até vinte vezes por minuto quem é você, e vinte vezes por minuto eu esquecerei quem é você.
— Mas você não sabe com quem está a falar!!
— Só me deu dois segundos, assim é impossível esquecer quem é você. Prove outra vez depois de eu contar até três...

© Frantz Ferentz, 2016