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domingo, 31 de julho de 2016

O REFLEXO DE PALMIRA


A Palmira era uma de tantas mulheres cuja autoestima, simplesmente, não existia. Acabava de sair de um relacionamento com um macho machíssimo que desde o início foi minando os sentimentos positivos que a mulher tinha acerca de si própria. Chegaram dez anos para que ele se desfizesse dela como se atira um lenço de papel usado ao lixeiro. Depois daquilo, chegaram as intermináveis sessões do psicólogo, que teve que ir reconstruindo aquela mulher rota em pedaços. A base da terapia era algo que de fora podia semelhar incompreensível ou até arrogante, mas o psicólogo ordenou à Palmira que cada vez que estivesse perante um espelho, por acaso, sem querer ou porque sim, se repetisse ante o seu reflexo: 

— És uma mulher muito linda.

A Palmira levava-o tão a sério que até esperava que qualquer dia a imagem cobrasse vida própria e lhe dissesse:

— Obrigada. Eu sou mesmo linda.

Se a sua imagem tivesse vida própria, já devia estar convicta que era mesmo linda depois de um ano de lho repetir várias vezes por dia. Porém, naquele dia não foi a sua imagem que falou frente ao vidro da montra onde ela se refletia, mas um miúdo de cerca de quatro ou cinco anos que se colocou ao seu lado, com um gelado numa mão, que olhou para o reflexo e depois para ela e disse-lhe:

— Tu és mais linda do que a outra mulher.

— Que mulher?

— Essa — e a criança acenou para o reflexo da Patrícia.

A Palmira sorriu. Sentiu-se feliz por fim em muitos anos. O miúdo voltou a sorrir e depois correu para onde estava o pai, que já chamava por ele.

© Frantz Ferentz, 2016

sábado, 30 de julho de 2016

PORQUE CHORAM OS CIGARROS

Nunca entendi porque a Isabel, embora tivesse aquele grave problema com as cordas vocais (e do qual já fora operada), continuava a fumar assim. 

— Não estás ciente do mal que te faz? —preguntei-lhe muitas vezes. 

— Estou —dizia ela, mas continuava a fumar— Porém, há um motivo que tu nunca entenderás —adicionou. 

Até o dia em que teve que ser operada de urgência, quase a vida ou morte, com um cancro de garganta. Quando fui vê-la, logicamente não falava. Só pude pegar-lhe na mão e desejar-lhe o melhor. Ela agradeceu com um sorriso.

Quando voltei a encontrá-la três meses depois, vi-a com um cigarro na mão. 

—Mas, Isabel... —comecei a dizer. 

Ela levou o cigarro à boca e escreveu numa caderneta: «Não me digas nada... mas agora vou dizer-te a razão. Embora eu quisesse deixar de fumar, não posso. Eu sou uma mãe para estes pequeninos. Enquanto eu os fumar, eles serão felizes porque vivem. Tenho que fumá-los um trás outro». 

Eu olhei então para o cigarro que então sustinha na mão e disse para ele:

— Cumprimenta todos os teus irmãos e preparem-se, porque vão ficar órfãos em breve. 

Então, uma voz aguda surgiu do cigarro na mão e disse-me: 

— Senhor, não lhe diga isso, não lhe diga isso, nós amamos a Isabel! O que seria de nós sem ela? O quê?

Nesse momento entendi tudo. Maldisse as multinacionais do tabaco por terem inventado o cigarro com sentimentos para assim enganchar mais ainda os fumadores ao vício.

© Frantz Ferentz, 2016

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A NOTÍCIA


A notícia chegou diretamente do gabinete do primeiro ministro para os faxes das redações. Devia ser emitida tal como vinha redigida, sem modificar nem uma vírgula. Na estação da televisão Razão TV, a mais fiel ao regime, limitaram-se a seguir o protocolo. Assim que a notícia saiu do fax num longuísimo rolo de papel, foi caindo no molde em cima da cadeira, até que tomou forma humana. Depois, puseram-lhe uns óculos e uma perruca. A seguir, a câmara foi ligada e a notícia, sob aparência de um locutor, leu-se a si própria, com total normalidade, fiel à voz do seu amo, para todo o país.

© Frantz Ferentz, 2016

sábado, 23 de julho de 2016

BODAS DE OURO


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Celebravam os cinquenta anos de matrimónio do casal. Ele era mestre e ela era consumidora compulsiva de programas de televendas. Ninguém entendia como ele ainda amava profundamente aquela mulher tão ignorante e consumidora, mas o segredo era bem simples: vocação. Sim, enquanto ela ainda escrevesse com tantos erros ortográficos, ele ainda teria motivos para corrigi-la e, portanto, para amá-la. As gralhas dela eram, sim, a razão da sua vida.


© Frantz Ferentz, 2016

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O FIM DO MUNDO APROXIMA-SE

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   — Olha esta notícia. Aqui diz que uma associação católica anuncia o fim do mundo para 29 de julho —disse ele—. Aliás pedem para as pessoas darem todo o seu dinheiro para a associação.
   Ela terminou de se limpar a boca com o guardanapos. Deu uma vista de olhos para a notícia e disse:
   — Já nos foderam. Assim não vamos poder fazer a viagem que tinhamos prevista à Irlanda no início de agosto —comentou ela e deu um novo bocado à maçã que tinha na mão.
   — Pois é, mas sê positiva. Se não fizermos a viagem, poupamos muito dinheiro.
   — Certo. É só vermos a parte positiva das cousas... Olha, teríamos que dar um curso de positividade perante o fim do mundo aos da associação.
   — De graça?
   — Evidentemente não...

© Frantz Ferentz, 2016