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sábado, 18 de junho de 2016

GOLPE DE ESTADO NA ACADEMIA DA LÍNGUA



   Durante a reunião ordinária dos excelentíssimos académicos da língua, um grupo de pessoas cobertas com passa-montanhas sequestraram os ilustres membros da instituição. Não pediram resgates, apenas compreensão.
   Três horas mais tarde, a solene instituição declarava a liberdade absoluta de escrever como cada um quiser, sem regras de acentuação nem utilização das vírgulas.
   A resolução foi acolhida com uivos de alegria pelos estudantes. Infelizmente, mais de quinhentos professores foram executados por se terem declarado insubmissos à anarquia ortográfica.

© Frantz Ferentz, 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

TODA A VIDA NOS LIVROS

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— Não entendo como podes ter tanto livro em casa. Vão ocupar todo o teu espaço vital.
— Os livros são a minha vida, já deverias saber.
— Está bem, mas pelo menos podias desfazer-te daqueles que já leste, certo?
— Bom, de alguns já me desfiz. E nem compro mais livros.
— Não posso acreditar. Cada vez que venho por aqui, encontro que tens mais livros. Alguns muito pequeninos. Parece que se reproduzem.
— É que se reproduzem...
— Estás de brincadeira. Como vão reproduzir-se os teus livros. Nem que tivesses sexo com eles.
— Eeehhh... Isto... um cafetinho?

© Frantz Ferentz, 2016

A PROFISSÃO MAIS ESTRANHA DO MUNDO

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   Estava farto de receber convites de amizade através das redes sociais. Desde que me deram um prémio literário de segunda categoria, dúzias de pessoas procuravam a minha amizade e todos eles, sem exceção, punham como profissão nos perfiles deles: poeta. Nunca logrei perceber como poeta fosse uma profissão, mas a minha experiência é que as pessoas que catalogam assim o seu modo de ganharem o pão têm uma porta dimensional na cabeça. 
   Por isso, quando cheguei ao vigéssimo pedido de amizade do género, chateei-me e resolvi fazer algo. Assim, mudei o meu status nas redes sociais e eu também pus qual a minha profissão: o melhor poeta do mundo (sem discussão).
   A partir daquele momento deixei de receber pedidos de amizade. Pelo menos de gente cuja profissão era poeta. Foi mesmo um alívio.

© Frantz Ferentz, 2016

sábado, 11 de junho de 2016

OS OLHOS SÃO A VIDA DO CORRETOR. CAMPANHA PARA A PREVENÇÃO DA ORTOGRAFIA

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Esta manhã acordei com uma irritação terrível nos olhos. Estavam imensamente vermelhos, portanto fui para as emergências do hospital. Lá o doutor que me atendeu examinou os meus olhos com muita atenção. Finalmente perguntou-me:

"Teve uma maratona de televisão ou de computador?"

"Não, doutor. O único que tenho feito durante esta semana é corrigir e corrigir exames..."

Lá o doutor reagiu de outra maneira. Pegou numa lupa e começou a examinar com mais calma os meus olhos. Cabo de um bocadinho, disse-me:

"Em todos os anos de carreira, e são muitos, nunca vi tal coisa".

"O quê, doutor?"

"Os seus olhos estão cheios de vírgulas".

Então compreendi. Compreendi qual a razão da minha irritação ocular. Depois de uma semana a ler textos tão horríveis, cheios de vírgulas mal colocadas, aquelas vírgulas acabaram saltando para os meus olhos, porque uma vírgula entre sujeito e verbo vai contra natura. E lá foram todas aquelas vírgulas sem qualquer critério ortográfico, para os meus olhos, para lá foram as malditas.

© Frantz Ferentz, 2016