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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A VERDADE ACERCA DOS REIS MAGOS

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— Hei de te confessar algo: os Reis Magos são os pais —disse ela.
Ele ficou confuso. Não podia acreditar. Por isso perguntou:
— E então, quem trouxe os presentes do Natal para as minhas filhas durante os últimos doze anos?

© Frantz Ferentz, 2016

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

PARRICÍDIO

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O jovem matou a mãe asfixiando-a com uma almofada enquanto dormia e depois entregou-se à polícia. Depois daquilo, foi imposta ao jovem uma ordem de afastamento judicial das almofadas.

© Frantz Ferentz, 2016

sábado, 19 de novembro de 2016

MUDANÇA CLIMÁTICA

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Naquele 15 de janeiro, numa base aérea em Alaska, rodeado de aviões de combate, o presidente perguntou ao público se alguém ainda acreditava nessa estupidez da mudança climática, pedindo para as pessoas levantarem a mão. Ninguém levantou. Entretanto, uma mosca brasileira pousou na ponta do nariz do presidente na procura de um lugar fresco e húmido onde se recuperar do calor.

© Frantz Ferentz, 2016

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

REFUGIADOS

Resultado de imagen de refugeesOs refugiados saíram do seu país a fugir da guerra. Quando os países vizinhos ficaram repletos de refugiados, começaram a fugir para outros continentes, sempre a evitarem a guerra. Porém, quando já a guerra se estendeu também para outros continentes e foram expulsos daqueles onde ainda não havia guerra, tentaram fugir para outro planeta, mas não havia hipótese. Felizmente, alguém em segredo descobriu que o modo de escaparem era irem todos para um universo paralelo. E para lá foram todos os refugiados... até que na nova dimensão se montou uma nova guerra, porque os humanos não ficam a saber que levam a guerra consigo.


Frantz Ferentz, 2016 

MAIS DO QUE UM ESPELHO

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Quando lhe perguntavam porque sempre levava um espelho na mão, no qual contemplava o seu próprio reflexo todo o tempo e falava com ele, explicava que não era uma questão de narcisismo, mas, simplesmente, que ele apenas falava com o seu melhor amigo. Todos então achavam que ele se referia ao seu próprio reflexo, mas não, decerto falava do espelho... aquele que herdara da trisavó da sua trisavó, uma velha vendedora de maçãs que morrera perseguida por uma conja de anões furiosos.



© Frantz Ferentz, 2016

terça-feira, 8 de novembro de 2016

TUDO ESTÁ NOS LIVROS

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O seu professor era o seu pior pesadelo. Sempre a humilhá-lo, sempre a fazer chanças com ele para os companheiros da turma rirem dele. Era incompreensível aquela obsessão. Mas o Manel calava a não dizia nada em casa; porém, a Olívia, a sua companheira de mesa, sabia e sofria pelo Manel.
   Por isso, um dia a menina levou o Manel para a sua casa. Não deu qualquer explicação. Simplesmente meteu-o o miúdo na imensa livraria herdada dos avós.
   A única explicação que ela deu para ele foi:
   — Tudo está nos livros. Não saias até encontrares a resposta.
   Quarenta e quatro horas mais tarde, o Manel batia esgotado na porta da biblioteca. A Olívia abriu.
   — Encontraste?
   — Encontrei.
   No dia seguinte, na sala de aulas, o professor quis rir novamente do Manel. Naquela altura por vir à escola com um grosso casaco apesar do calor. Mas o Manel não escutava. Estava ausente. A crueldade do professor não alcançava o seu alvo. Perdeu os nervos. Agitou o rapaz pela lapela enquanto lhe gritava:
   — Estás a escutar?
   E então a cabeça do Manuel caiu na mesa. Rodou. O professor esvaeceu. O resto de companheiros ficaram paralisados. Apenas a Olívia perguntou àquele corpo sem cabeça:
   — A lenda de Sleepy Hollow?
   — Exato —disse a voz do Manel por baixo do casaco.
   — Boa escolha.

© Frantz Ferentz, 2016

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O FIM DA MAGIA

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Deixou de acreditar na magia pouco depois de casar. Bastou-lhe começar a dormir todas as noites ao lado de uma bruxa.
© Frantz Ferentz, 2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

terça-feira, 25 de outubro de 2016

PODER DE CONVICÇÃO

Resultado de imagen de sleepy hollowDurante algum tempo, mantivera correspondência com aquele colega centro-europeu por questões académicas. Desde o início, ele manifestou-se como um grande defensor do Estruturalismo. Afirmava que qualquer outra teoria não tinha base, porque só o Estruturalismo dava resposta às perguntas do ser humano, porque ele achava que tudo é questão de estrutura, desde as moléculas até o pensamento. Foram meses de interessantes discussões, mas afinal, o meu colegar mostrou-se inclusive fanático na sua defesa do Estruturalismo. Eu ia desmontando os seus argumentos um a um, intelectualmente, mas ele não se rendia.
   Então, um dia, pediu-me para falarmos por videoconferência. Nunca lhe tinha visto o rosto até aquela altura. Quando nos ligamos, encontrei um tipo magro, alto e perfeitamente barbeado, com óculos quadrados. Sempre tínhamos trocado as nossas impressões através do correio eletrónico, mas na altura ele me tinha garantido que me ia convencer de que o Estruturalismo era a única teoria verdadeira para explicar o conhecimiento.
   — As partes, ao se unirem, formam estruturas começou ele a dizer.
   — Caro colega, já lhe disse que isso é uma simplificação repliquei eu.
   — Ah, sim? Isso acha? —disse ele—. Então permita-me que lhe mostre porque é que eu tenho razão".
   Eu achei que ele me mostraria algum gráfico ou alguma coisa assim, mas não, o que ele fez na altura foi remover um braço, colocá-lo no seu lugar depois, repetir a mesma operação com o outro braço e, finalmente, remover a cabeça com o pescoço. Colocou a seguir a cabeça na mesa e esta falou sozinha:
   — Se as partes não formarem uma estrutura, eu não seria eu, não concorda?
   Eu fiquei sem palavras. O que é que eu pedia dizer? Estava paralisado. O gajo falava -o mais bem a sua cabeça falava-, enquanto as mãos gesticulavam. Assim, como eu não podia responder, ele aproveitou para concluir:
   Prezado colega —disse-me, vejo que não tem nada que me replicar. Portanto, entendo que me dá razão...

Frantz Ferentz, 2016

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

QUANDO A PÁTRIA COMEÇA E TERMINA NA MESMA ESQUINA

Resultado de imagen de good luck chinese catO líder patriota ajustou a gravata. Acudiria, como todos os anos, ao desfile da Pátria na capital por motivo da Festa Nacional. Orgulho de pátria, sim, orgulho. Mas para a pátria ser digna, era preciso limpá-la de escória que luxava o brilho dela, como por exemplo os bazares chineses, que não fechavam nem durante a Festa Nacional. Todo bom patriota fechava os negócios durante a Festa Nacional, mas os porcos chineses não, esses abriam todos os dias, sem se importarem se era a data mais importante do calendário, a data da Pátria.
   O líder patriota pegou no telemóvel e ligou para um dos seus fieis, o Barreiros:
  — Leva os teus rapazes para o chinês que há na esquina de minha casa e queimem a loja.
   Orgulhoso de si próprio, o líder patriota foi para o quarto mostrar a gravata e o uniforme quase militar à esposa para receber as louvanças dela:
    — Gostas? — preguntou ele.
   — Gosto — disse ela sem sequer olhar para ele . Oi, faz favor, preciso de pensos, sal e papel higiénico. É tudo urgente.
   — E onde achas que vou encontrar tudo isso? — preguntou ele. Hoje é a festa nacional e está tudo encerrado.
   — O bazar chinês tem aberto — disse ela enquanto se colocava um brinco em frente do espelho.
   O líder patriótico saiu do quarto, pegou no telemóvel e ligou para o Barreiros.
   — Suspendam a operação, repito, suspendam a operação.
   O Barreiros, como bom soldado, nunca pedia explicações. Por isso, simplesmente ficou diante da loja do chinês com os camaradas e com os fachos prendidos, à espera de novos comandos. Uns minutos depois, reconheceu o seu chefe entrando na loja chinesa a tentar esconder o rosto trás as lapelas do casaco, mas era um casaco cheio de insígnias patrióticas.

© Frantz Ferentz, 2016

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A VENDA MAIS DIFÍCIL


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A Carmo era a melhor televendedora de pacotes de televisão por cabo da sua divisão. O seu recorde de vendas era inigualável. Durante vários meses consecutivos, ninguém a tinha superado e este mês ia ganhar novamente se conseguia mais un cliente.

C: Bom dia, sou a Carmo Fernandes. Ligo para si para lhe fazer uma oferta de televisão por cabo junto com a sua linha telefónica que não vai poder recusar. Com quem tenho o prazer de falar?

J: João. 

C: Um prazer, João. O que diria se lhe ofereço o pacote completo de futebol nacional e europeu por cinco euros mensais durante o primeiro mês?

A Carmo arriscava muito com aquela oferta, mas tinha que ganhar aquele último cliente.

J: Eu não gosto de sentar a ver futebol. Parece-me uma coisa doida.

Um desafio. Encontrara um desses homens que não gosta de futebol. São apenas 5% da população.

C: Está bem: corridas de carros? Touradas?

J: Não, não me interessa, obrigado. 

Mais complicado. Teria que recorrer aos paquetes complementares.

C: Temos todas as séries na moda e filmes de estreia, só por oito euros...

J: Senhorita. Gosto de cinema, mas nada pode mudar uma sessão num velho cinema na parte antiga de uma cidade pequena, com umas pipocas e sair da sala a falar com um desconhecido do filme. Isso pode oferecer-me?

C: Não...

Era já uma questão de orgulho. Ela era a melhor televendedora. Ofereceu documentários da natureza e da ciência, programas de debate político, televisão por cabo do Japão... Depois achou que, se calhar, era homossexual e deveria oferecer pacotes para homossexuais, mas não, não parecia ser homossexual. Era, simplesmente, diferente. Mas tudo foi inútil. Aquele homem não era como o resto.

C: Desculpe. O senhor que gosta de ver na televisão?

J: Não tenho televisão. Tenho um telemóvel porque gosto de saber dos meus amigos, mas não gosto de televisão... Gosto de fotografar as paisagens ao redor da minha casa. Gosto de comer o que me oferece a natureza, sou um bocadinho selvagem, reconheço. Eu vivo a mais de dois metros de altura. Gosto de olhar para as estrelas na noite. Você vê as estrelas desde sua casa lá na cidade?

C: Não.

A Carmo perdeu o cliente. Naquele mês não foi a melhor vendedora da seção. Três dias depois abandonou o trabalho e tomou um autocarro para as montanhas. Depois de tanto a falar com homens, por fim conhecera um totalmente diferente, um que ficava completamente fora das estatísticas. Esse seria o seu escolheito. Finalmente encontrou o João. Era, sim, um homem diferente, invendível. Ficou com ele. 

Só uma semana depois descobriu o que é que fazia do João um homem fora das estatísticas. Era a sua dieta, mas já era tarde, porque ela, a Carmo, já estava para perder a consciência abrasada naquele caldeirão em que buliam, junto com ela, batatas e cenouras...

© Frantz Ferentz, 2016

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O FIM DE UM VEGANO

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Frédéric fora educado como vegano. Cresceu vegano convencido e praticou o veganismo até os dezanove anos, mas o seu veganismo terminou de repente naquele dia em que provou a carne por primeira vez enquanto praticava sexo oral.

© Frantz Ferentz, 2016

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

AMADA AMANTE


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Desde que o Michel baixava os calções até que ejaculava não costumava decorrer mais de meio minuto. Ele estava ciente que assim nunca ia reter com ele uma amante, porque todas ficavam insatisfeitas, como aquela loura espetacular com nome escandinavo que começara a cavalgar em cima dele, mas que de repente ficara frustrada porque ele já tinha chegado.

— Já chegaste? —perguntou ela, sem poder ocultar a sua expressão de deceção, falando de repente no idioma dele, embora ela até então não fizera qualquer tentativa de se expressar na língua do Michel.

— Já...

Ela retirou-se e foi embora. O quarto ficou novamente escuro. O Michel, mais uma vez, repetiu-se que deveria visitar um especialista que o ajudasse a resolver o seu problema de ejaculação precoce durante a masturbação, porque cada vez lhe era mais difícil encontrar mulheres imaginárias para as suas fantasias sexuais. Correra a voz do seu problema e nenhuma queria repetir o sexo imaginário com ele.

© Frantz Ferentz, 2016

terça-feira, 30 de agosto de 2016

DIGNIDADE CANINA

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Ninguém compreendeu porque a cadela Lua se suicidara depois de o livro de poemas que o seu amo lhe dedicara ser publicado. Simplesmente, lançara-se para a rua de um quinto andar, numa noite sem lua.

— Ela era muito inteligente, entendia o que eu lhe escrevia —disse o seu amo com os olhos cheio de lágrimas.

Pois, a Lua era não só inteligente, mas também era sensível e tinha bom gosto literário, por isso, ela, a cadela, não quis chegar a ver os rostos dos leitores daquele poemário quando lessem versos a ela direcionados como aqueles que diziam:

Ves aquele pau ali plantado, Lua?
É un dedo que acena à lua,
a lua é como tu, Lua,
brincalhona e ladradora,
minha cara Lua,
astro com patas e olhada crua.

O animalzinho não pôde resistir tanta vergonha.

© Frantz Ferentz, 2016

domingo, 21 de agosto de 2016

CUMPRE O TEU SONHO, POETA


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A responsável pelos recursos humanos examinava os currícula das pessoas que procuravam emprego. Para além da documentação entregada, a mulher olhava também para o perfil nas redes sociais dos candidatos. Desde havia vários dias, muitos deles, nos seus perfis, diziam que a sua profissão era poeta. A mulher não pôde evitar sorrir. Decerto tinha um trabalho para todos eles, para aqueles quatro que escreveram que a sua profissão era "poeta".

*  *  *

Os quatro estranhos coincidiram na terminal internacional do aeroporto. Os quatro tinham como destino uma capital latinoamericana. Para os quatro, a agência de emprego procurara o mesmo trabalho. Só durante a viagem foi que os quatro, dois homens e duas mulheres, começaram a falar e a comprovar que a aparente casualidade não era tal. Todos receberam, aliás, uma pasta com documentação onde se lhes explicava que para poderem trabalhar na profissão dos seus sonhos, deviam primeiro fazer um curso prático de formação num país sul-americano

*  *  *

Treze horas mais tarde, os quatro indivíduos aterravam naquele aeroporto andino. Um homem estava à espera deles na saída da zona de viageiros. Sem qualquer explicação, conduziu os quatro estrangeiros para uma ruela do bairro colonial. Amavelmente pediu-lhes para descerem da furgoneta e passarem para a sua sala de aula. Os quatro estranhos ficaram sós na entrada de uma rua cheia de artesanos locais. Mas o primeiro de todos eles era um velhote sem dentes mas com gravata que sorria para eles enquanto acenava para o seu próprio cartaz, no qual dizia: Poemas variados, temas românticos, folclóricos, para crianças, festivos, sonetos, a 2 X 5 dólares.

— Bom dia, amigos. Eu serei o vosso tutor de viver da poesia... — disse-lhes então o velhote com o seu sorriso sem dentes — . Coloquem-se por esta rua e as vizinhas, escrevam um cartaz como este e comecem a viver da poesia... Ah, e não se esqueçam da gravata!


© Frantz Ferentz, 2016