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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

DESTRADUZINDO


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A tradutora aceitou a tradução daquele livro porque sabia que seria o trabalho da sua vida. Desde havia anos, esperava por uma oportunidade assim, pois sabia que a tradução daquele livro tão importante, o romance dum ganhador do prémio Nobel, faria dela a tradutora mais procurada do país.


Começou o seu trabalho com entusiasmo, mas quando chegou ao capítulo 3, descobriu que o capítulo 1 voltou a aparecer na língua original no seu computador. Achou que talvez fosse uma falha informática. Deixou estar a coisa e prosseguiu. Quando chegou ao capítulo 6, descobriu que o capítulo 2 também se tinha destraduzido. Voltou para trás. Se fosse um problema informático, ela não sabia como resolver. Voltou a traduzir os capítulos 1 e 2, mas então descobriu com horror que o 4 e o 5 também se destraduziram.

Desde então, por cada dois capítulos que traduzia, outros dois se destraduziam. A tradução do romance não avançava, a tradutora chorava desesperada. Aquele era o trabalho mais importante que ia receber em toda a sua carreira e não avançava. Chorando, ligou para um colega e contou-lhe:

— Oi, a cada dois capítulos que traduzo, outros dois destraduzem-se. O que achas?

— Acho que é normal —respondeu ele—. És tu mesma que os destraduzes, porque de facto não queres que essa tradução acabe, queres que dure para sempre.

— Mas que estás a dizer, Ulisses?

— Estou a dizer a verdade, Penélope...

Frantz Ferentz, 2015

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