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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

POEMAS DE AMOR VIAJANDO NUMA GARRAFA

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O Carlos conheceu a Micaela em Madrid. Ele era apenas um camareiro, ela... ela podia ser qualquer coisa, talvez um astro do céu aos olhos dele. Bastaram uns sorrisos e umas ligeiras gargalhadas, bem como uma roçadura leve da mão dela na dele ao deixar uma gorjeta.

Quando ela saiu pela porta, o Carlos decidiu que ganharia o coração daquela mulher para sempre. Embora ela morasse em Lisboa e ele em Madrid, enviar-lhe-ia poemas de amor dentro de uma garrafa pelo Tejo abaixo. Ele pediu aos santos, ao seu deus, ou a quem for, que aquela garrafa chegasse até a Micaela. E assim, lançou a garrafa ao Tejo em Aranjuez, com o nome e os apelidos dela bem à vista na garrafa. Antes de a lançar ao rio, beijou-a e disse-lhe: "Chega".

O Carlos deixou a garrafa na água e sentiu que chegaria, apesar de todos os obstáculos, até o Estuário do Tejo, que nem as barragens nem qualquer outro bançado impediriam que alcançasse Lisboa. Acertou, a garrafa com os poemas salvou todas as barreiras, todas, porque o destino tinha decidido conseguir que ela alcançasse Lisboa, Assim, três meses depois, a garrafa flutuava no beira do Mar da Palha, ao pé do cais da Praça do Comércio.

E porque o destino assim o quis, naquela tarde de sábado, a Carolina viu a garrafa flutuar. Logo pôde ler o seu nome nela. Tirou o calçado e meteu-se na água até as canelas para recolhê-la. O destino satisfizera os desejos do Carlos até o final. Ela retirou a rolha. Os poemas, dentro, estavam intactos. Ficou a contemplar aquela garrafa onde ia o seu nome escrito por dentro. Era um milagre. Sim, era um milagre. Recolheu os poemas, fez uma bola com eles e atirou-os para o mar, onde afundiram lentamente. Depois, com um sorriso nos olhos, regressou com a garrafa na mão para a ribeira. Sentia-se feliz, acabava de encontrar por acaso uma garrafa de um raro vinho cujo preço para um colecionista podia ascender a vários milhares de euros. Por algum capricho do destino, aquela garrafa chegara até às suas mãos, até às suas mãos de diretora de uma casa de leilões.

Frantz Ferentz, 2015

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