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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

AÇÃO POÉTICA ALTERNATIVA


O Mingo era um idealista que cria que a poesia podia mudar o mundo, nele ressoava aquele verso que dizia que "a poesia é uma arma carregada de futuro", embora não soubesse exatamente quem a pronunciara. Por isso, naquela manhã entrou no banco ateigado de pessoas. Levava o casaco na mão e em baixo escondia uma pistola. Quando esteve no centro do local tirou a arma e disparou duas vezes para o ar. As trinta e tal pessoas que lá havia ficaram paralisadas, a maioria deitaram-se para o chão. E então o Mingo sentou-se tranquilamente numa cadeira que lá estava, sem soltar a arma e tirou uns papeis que levava no bolso. A seguir leu um longuíssimo texto em que intencionava declarar o seu amor à lua. Era um texto muito chato, do qual mal se entendiam algumas palavras, pois o Mingo não vocalizava. E continuou a ler, entusiasmado, a vibrar com cada sílaba mal pronunciada que emergia dos seus lábios, enquanto o resto das pessoas presas naquela sala não entendiam nada e oscilavam entre o terror, o tédio e o furor. Quando afim concluiu a sua leitura, vinte minutos depois, com uma declaração de amor para a lua, o Mingo disparou novamente duas vezes para ar e gritou:

— Obrigado pela vossa atenção. Isto é cortesia da Poética Universal para Tempos Alternativos

E foi embora. Perderam a pista do Mingo, até dois meses depois, quando apareceu toda um cargamento de bacalhau num contentor, onde cinco mil peças de peixe tinham cada uma um frasquinho no estômago e, dentro de cada recipiente, um poema diferente do Mingo perfeitamente enrolado, mas todos os poemas iam escritos para a lua, a sua paixão incomensurável. Como sinatura, para além do seu nome, novamente aparecia Poética Universal  para Tempos Alternativos.

Porém, apesar de tanta atividade poética, o Mingo nunca percebeu porque o seu partido Poética Universal para Tempos Alternativos nunca conseguiu mais de dois votos nas eleições para a autarquia. Um era sempre o seu, o outro... o outro talvez fosse da lua, mas isso ele nunca saberia. Contudo, o facto de as siglas do partido serem PUTA, também não ajudava muito.

Frantz Ferentz, 2015

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