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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O BEIJO DE BOA NOITE

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— Vê esse miúdo que vai lá? — comentou uma mãe que acabava de deixar o filho na cancela de entrada à escola—, dá-me muita pena.
— Por quê? — perguntou outra mãe que estava ao seu lado.
— Porque diz que sua mãe lhe dá um beijo todas as noites antes de ele adormecer.
— E tem isso algo de especial?
— Tem, porque a mãe morreu há já três anos.
A segunda mulher sorriu e apenas disse:
— Mas ele bem sabe que eu estou morta.

Frantz Ferentz, 2015

FRASES BONITAS


A Andrea L.B.

«Fica com aquele
que te olhe quando voas
que te deixe voar
que te encoraje a voar
que te alcance no voo»

Ele sentiu que lhe caía uma lágrima de emoção ao ler o texto no ecrã dela. Disse então passando a mão com sangue pelo queixo:

— Puseste tu isto no teu muro da rede social, certo? É que eu sou mesmo assim.

Ela, deitada no chão, cheia de hematomas, com um lábio roto, ainda murmurou um triste sim.

Frantz Ferentz, 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

POEMAS DE AMOR VIAJANDO NUMA GARRAFA

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O Carlos conheceu a Micaela em Madrid. Ele era apenas um camareiro, ela... ela podia ser qualquer coisa, talvez um astro do céu aos olhos dele. Bastaram uns sorrisos e umas ligeiras gargalhadas, bem como uma roçadura leve da mão dela na dele ao deixar uma gorjeta.

Quando ela saiu pela porta, o Carlos decidiu que ganharia o coração daquela mulher para sempre. Embora ela morasse em Lisboa e ele em Madrid, enviar-lhe-ia poemas de amor dentro de uma garrafa pelo Tejo abaixo. Ele pediu aos santos, ao seu deus, ou a quem for, que aquela garrafa chegasse até a Micaela. E assim, lançou a garrafa ao Tejo em Aranjuez, com o nome e os apelidos dela bem à vista na garrafa. Antes de a lançar ao rio, beijou-a e disse-lhe: "Chega".

O Carlos deixou a garrafa na água e sentiu que chegaria, apesar de todos os obstáculos, até o Estuário do Tejo, que nem as barragens nem qualquer outro bançado impediriam que alcançasse Lisboa. Acertou, a garrafa com os poemas salvou todas as barreiras, todas, porque o destino tinha decidido conseguir que ela alcançasse Lisboa, Assim, três meses depois, a garrafa flutuava no beira do Mar da Palha, ao pé do cais da Praça do Comércio.

E porque o destino assim o quis, naquela tarde de sábado, a Carolina viu a garrafa flutuar. Logo pôde ler o seu nome nela. Tirou o calçado e meteu-se na água até as canelas para recolhê-la. O destino satisfizera os desejos do Carlos até o final. Ela retirou a rolha. Os poemas, dentro, estavam intactos. Ficou a contemplar aquela garrafa onde ia o seu nome escrito por dentro. Era um milagre. Sim, era um milagre. Recolheu os poemas, fez uma bola com eles e atirou-os para o mar, onde afundiram lentamente. Depois, com um sorriso nos olhos, regressou com a garrafa na mão para a ribeira. Sentia-se feliz, acabava de encontrar por acaso uma garrafa de um raro vinho cujo preço para um colecionista podia ascender a vários milhares de euros. Por algum capricho do destino, aquela garrafa chegara até às suas mãos, até às suas mãos de diretora de uma casa de leilões.

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

AÇÃO POÉTICA ALTERNATIVA


O Mingo era um idealista que cria que a poesia podia mudar o mundo, nele ressoava aquele verso que dizia que "a poesia é uma arma carregada de futuro", embora não soubesse exatamente quem a pronunciara. Por isso, naquela manhã entrou no banco ateigado de pessoas. Levava o casaco na mão e em baixo escondia uma pistola. Quando esteve no centro do local tirou a arma e disparou duas vezes para o ar. As trinta e tal pessoas que lá havia ficaram paralisadas, a maioria deitaram-se para o chão. E então o Mingo sentou-se tranquilamente numa cadeira que lá estava, sem soltar a arma e tirou uns papeis que levava no bolso. A seguir leu um longuíssimo texto em que intencionava declarar o seu amor à lua. Era um texto muito chato, do qual mal se entendiam algumas palavras, pois o Mingo não vocalizava. E continuou a ler, entusiasmado, a vibrar com cada sílaba mal pronunciada que emergia dos seus lábios, enquanto o resto das pessoas presas naquela sala não entendiam nada e oscilavam entre o terror, o tédio e o furor. Quando afim concluiu a sua leitura, vinte minutos depois, com uma declaração de amor para a lua, o Mingo disparou novamente duas vezes para ar e gritou:

— Obrigado pela vossa atenção. Isto é cortesia da Poética Universal para Tempos Alternativos

E foi embora. Perderam a pista do Mingo, até dois meses depois, quando apareceu toda um cargamento de bacalhau num contentor, onde cinco mil peças de peixe tinham cada uma um frasquinho no estômago e, dentro de cada recipiente, um poema diferente do Mingo perfeitamente enrolado, mas todos os poemas iam escritos para a lua, a sua paixão incomensurável. Como sinatura, para além do seu nome, novamente aparecia Poética Universal  para Tempos Alternativos.

Porém, apesar de tanta atividade poética, o Mingo nunca percebeu porque o seu partido Poética Universal para Tempos Alternativos nunca conseguiu mais de dois votos nas eleições para a autarquia. Um era sempre o seu, o outro... o outro talvez fosse da lua, mas isso ele nunca saberia. Contudo, o facto de as siglas do partido serem PUTA, também não ajudava muito.

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

OS FALSOS AMIGOS

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Depois de muito tempo sem se encontrar, os dois colegas tradutores, o Jan e o Hans, tomavam juntos um café ao pé dum canal de Amsterdame.

— E como te vai a vida, Jan?

— Poderia ir melhor, mas não tenho mais que problemas com os falsos amigos.

— Faz favor, usa a expressão correta: diz-se 'cognado'. Mas conta, talvez eu te possa ajudar.

— Está bem, há um certo cognado, como tu dizes, que abusou da minha confiança e fez-me acreditar que era um verdadeiro amigo, mas afinal... oi, existe alguma outra palavra para "verdadeiro amigo"?

Frantz Ferentz, 2015

sábado, 17 de outubro de 2015

O HOMEM SENSÍVEL

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Ele sempre afirmava que sob aquela pele de sábio, de catedrático, de intelectual, havia um homem imensamente sensível, mas ninguém lhe dava ouvidos. Para todos, ele era só conhecimento, aquele que demonstrava nos seus livros, palestras, intervenções, até aquele dia, quando já farto, diante do público despiu-se, tirou a pele toda como se fosse uma banana e deixou à vista o homem sensível que ele realmente era. Porém, todos fugiram, porque apenas viam nele músculos, tendões e sangue, mas não aquela sua imensa sensibilidade.
Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A MALDIÇÃO DO SIGNO DE ESCORPIÃO

Resultado de imagen de scorpioO Fitz nasceu marcado por uma maldição. Todas as mulheres por que se apaixonasse tinham de ter nascido sob o signo de escorpião.

A primeira vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Ivana, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Ivana Ruz disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ela tinha medo.

A segunda vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Johanna, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Johanna Fallen disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ele ainda não fizera bastante por ela.

A terceira vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Katařina, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Katařina Nováková disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ele a amava demais.

A última vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Christina, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Mas como a Christina Rossetti era uma poeta morta em 1894, o Fritz foi feliz até o fim dos seus dias lendo os poemas dela em voz alta à lua. E nunca lhe ouviu dizer que o seu amor não tivesse futuro.

Frantz Ferentz, 2015

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O DIA EM QUE ELE CORTOU AS UNHAS


   Ela encontrou-o como sempre em frente do televisor, comodamente sentado no sofá e com os pés apoiados na banqueta, como sempre, com a cerveja ao lado. Porém, ao observá-lo, ela detetou algo diferente, algo que a encheu de alegria.
    — Por fim cortaste as unhas dos pés!
   Sim, depois de tantos meses, ele só chegara à conclusão que tinha de cortar as unhas sem ela lho repetir mil vezes. E é que as unhas deles eram quilométricas.
    Ele, sem se imutar, disse:
    —  Claro, como não estou cómodo sem poder ver a televisão com os pés em alto e não posso ter uma banqueta mais baixa, as unhas eram longas demais e me ocultavam ver o ecrã. Por isso cortei-as... Foi um trabalhão, que o saibas...

Frantz Ferentz, 2015