Páginas

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

AS RAZÕES DA NATUREZA



Resultado de imagen de natural catastrophes

   — Então, padre, acha que a virgem nos castiga quando nos comportamos mal?
   — Castiga.
   — E as pessoas que fazem mal como recebem o castigo?
   — Bom, a santa virgem, que é muito sábia, faz de muitas maneiras. Pode enviar chuva e inundar uma cidade, pode fazer inclusivamente o contrário: impedir que chova durante meses; e até pode fazer que as pessoas iniciem uma guerra entre elas para se matarem e se castigarem assim.
   — Então a representação do teatro na praça que ficou suspendida ontem por causa da  chuva  foi porque a virgem estava zangada connosco?
   — Não, filha, isso foi a natureza. Choveu porque tinha que chover, nós somos pessoas muito crentes e a virgem não nos castiga... 
   — Mas a chuva ontem derrubou árvores...
   — Sim, mas não foi para nos castigar. Foi a natureza, que por causa da mudança climática anda muito alterada... Mas o que estás a fazer? Por que te pões de joelhos?
   — Estou a rezar à natureza. É tão vingativa como a virgem. Decerto algo fizemos mal e estou a pedir que nos perdoe.
   — Filha, tu não entendes nada!
   — É você que não entende, padre, porque a natureza se comporta como a virgem e também castiga. Portanto, eu peço perdão à natureza, porque decerto algo fizemos mal.
   — És uma pagã! Não entendeste nada! A santa virgem não é vingativa, mas é justa.
   — Exato, como a natureza, mas a natureza não é tão caprichosa como a virgem, acho eu...
   

Frantz Ferentz, 2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A PRÉDICA DO PASTOR

   O pastor Josué defendeu veementemente que os videojogos eram produto do diabo, que todos os miúdos que jogavam com eles perdiam a alma para sempre e iam todos direito para o inferno.
   O público facilmente influenciável, assim que saiu da sala, lançou-se para as ruas para entrar nos negócios e destruir todos os cartuchos, discos e aparelhos de videojogos, e queimarem as lojas e até aforcarem alguns comerciantes no nome do deus.
   Enquanto o pastor contemplava satisfeito as colunas de fumo e os gritos por toda a cidade desde a porta da sua igreja, um desconhecido achegou-se dele e disse-lhe:
   — Parabéns, pastor, nunca esta cidade foi submetida a um caos assim.
   — É para afastar o diabo —disse o pastor.
  — Acredite-me. Eu sou o próprio Satão e nunca consegui infiltrar-me nas mentes de criadores de videojogos, já gostaria eu... E menos ainda tenho conseguido destruir uma cidade em menos de uma hora como você. Com mais pessoas como você, eu ficaria decerto sem trabalho.


Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

POR FALAR DE SOGRAS



━ A minha sogra tem um talento único.
━ Qual?
━ Ela é capaz de falar durante quatro horas seguidas sem qualquer tema.
━ Ha, ha, ha, que engraçado. E o que faz quando acaba se não pode mudar de tema?
━ Muito simples: volta a começar...

Frantz Ferentz, 2015

O MECÂNICO DE ALMAS

O Jaime Jesus não percebia por que recebia tantas visitas na sua página sem qualquer relação com o seu negócio. Ele montara o seu sítio para se anunciar como reparador de motores, mas lá todas as pessoas ligavam para que se lhes reparasse a alma. Não entendia nada. Homens e mulheres com imensos problemas, de muitas partes do mundo, pediam orações, mas o único que ele oferecia era reparações de motores, a domicílio, sim, mas apenas isso. E por cima escreviam-lhe em francês na maioria dos casos.
   ━ Não percebo por que querem que lhes repara a alma e não um motor ━lamentava-se um dia cheio de pesar o Jaime Jesus entre os seus amigo da taverna, enquanto lhes mostrava no tablet algumas das mensagens.
   Os outros só assentiam erguendo a caneca de cerveja solidariamente. Infelizmente nenhum deles sabia francês. Por isso, não percebiam que www.jaimejesus.com em francês era como se o nome do sítio fosse www.euamojesus.com em português.

Frantz Ferentz, 2015

terça-feira, 18 de agosto de 2015

DEPOIS DOUTRO ABRAÇO

A Diana beijava todos na bochecha, sempre tinha um sorriso para cada pessoa que se aproximava dela. Parecia radiante, todos celebravam o seu sucesso naquela festa e ela pegava nas mãos de todos e agradecia tanto interesse por ela. 
    Conseguiu ir para a casa de banho. Fechou-se numa cabine e começou a chorar. Uns instantes depois, alguém bateu na porta e uma voz entre sussurros perguntou:
    ━ Está bem?
  Ela não podia permitir-se que qualquer invitado a visse chorar. Inventaria uma estória, pois em definitiva isso era o que melhor sabia fazer, inventar estórias, esse era o seu talento, por isso a admiravam todos, até o ponto de a sua vida ter-se tornado também uma grande estória.
    A Diana abriu a porta. Lá havia um homem que a olhava com olhos preocupados. Não fingia.
    ━ Aconteceu-me que tive que tirar umas pestanas postiças e a dor...
    O homem pôs-lhe um dedo nos lábios para a fazr calar. O rímel caía-lhe pelas bochechas em rios de lágrimas. O homem abraçou a Diana e ela sentiu ainda mais vontade de chorar. E chorou. Nem soube o tempo que assim decorreu, mas durante o abraço pareceu que o tempo se detivera, ou, pelo menos, se alentecesse. Depois o homem separou-se suavemente, deu-lhe um lenço para enxugar as lágrimas e disse.
    ━ Eu só sou um dos camareiros daqui. Não entendo de estórias, apenas de pessoas, mas se depois se sentir mal, venha a procurar-me para que a abrace outra vez.
    E o camareiro saiu da casa de banho. A Diana ficou em pé, olhando-se no espelho, enquanto pensava que talvez já tivesse chegado a hora de saber acabar com dignidade aquela sua estória e começar a escrever a sua vida... se calhar, depois doutro abraço.

Frantz Ferentz, 2015 

O UNDÉCIMO MANDAMENTO

Resultado de imagen de catechese
Durante a o jantar da catequese, para evitar a indisciplina dos rapazes, o padre avisara num tom apocalíptico que havia um undécimo mandamento que só era desvelado em ocasiões especiais como aquela: não levantar-se da mesa até o prato estar vazio. No coração do João ficaram aquelas palavras bem gravadas.

Estando o rapaz já em casa de volta, à mãe escorregou-lhe o telemóvel para o prato dele. O João engoliu-o dum só bocado envolvido em molho carbonara para assim evitar cair em pecado.

E a seguir, ergueu-se e orou para não escutar mais os gritos de desespero da mãe, pois esses não eram senão gritos satánicos.

Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A POMBA TOXICODEPENDENTE



Os guardas interceptaram a pomba no pátio da prisão. Levava atado à sua patinha um saquinho de coiro com várias gramas de cocaína e de maconha. Os guardas imediatamente suspeitaram que a pomba estava treinada como meio de transporte da droga para algum dos presos. Levaram o pássaro para o gabinete do diretor, iam começar as pesquisas, mas de repente a pomba aproximou-se do teclado do computador do diretor e com a patinha começou a escrever sem erros e respeitando a pontuação: «A droga é minha, é para o meu consumo pessoal. Devolvam-me o saquinho».


Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

ESTRANGEIROS

Resultado de imagen de marián magát
Marián Magát, o líder racista eslovaco, tomou a palavra no palco montado no centro de Praga, com um cartaz por diante que dizia: STOP IMIGRACI. Falou para um par de dúzias de racistas checos como ele:
    ━ Fechem as fronteiras. Eliminem toda pegada do estrangeiro. Eu reconheço que sou racista. Abaixo o estrangeiro!
    E os incondicionais gritavam:
    ━ Acabemos com tudo o estrangeiro, acabemos, fechemos as fronteiras!!
    No dia seguinte, o cartaz do palco apareceu em branco. E nem só isso, nos dicionários havia milhares de espaços em branco deixados pelas palavras estrangeiras desparecidas em checo por serem estrangeiras. E então uma das senhoras que apoiaram mais fanaticamente o discurso perguntou ao líder eslovaco ao ouvido:
    ━ E então, como diremos agora Stop Imigraci sem usarmos palavras estrangeiras?

Frantz Ferentz, 2015

OXALÁ FOSSES



Sempre desejei ter-te. Passo tantas horas à tua beira, mas não me cansam nunca as tuas conversas nem os teus silêncios. Não cansas, não cansas, não me cansas. Fecho os olhos e vejo-te entreaberta, noto como vibras por mim; paixão não te falta, mas poderias matar-me só com me falares como tu sabes. Não posso viver sem ti, por isso ouves que à noite atravesso a morada, penetro nos sonhos e venho a visitar-te. Oxalá pudesse passar todo o meu tempo a acariciar-te. Quando te toco, sei que apenas preciso de ti, adoro passear-te, imaginar o transcurso das tuas pisadas, o trajeto dos teus sussurros. Aprecio tanto a tua fidelidade, é a maior que me professaram nunca, sempre quando chego estás aí, à minha espera, a me pedires que te tome. Oxalá fosses mulher, mas entendo que sempre serás telemóvel.


Frantz Ferentz, 2015

domingo, 9 de agosto de 2015

AS INFIÉIS GOVERNARÃO A TERRA

━ Professora, quero que saiba que minha filha não vai ler este conto que você ordenou para eles comprarem, porque fala de coisas que proíbe a minha religião e, aliás, porque é mau para a sua formação ━disse o pai da pequena Samira, a qual olhava para o chão. 
    A mãe da Samira estava ao lado da menina e quis dizer algo, mas o homem dela, o Ali, adiantou-se e cuspiu-lhe:
    ━ Tu cala mulher, que já falo eu. Respeita o teu esposo, como diz o livro sagrado.
    ━ E por que aqui se contam coisas que vão contra a sua religião? ━perguntou a professora.
    ━ Você não vai entender ━largou o Ali cheio de desdém━. E eu não quero falar consigo. Onde está o chefe de estudos?
    ━ Primeira porta à direita quando sair daqui.
    O homem foi para lá direto. A porta estava aberta.
    ━ Boa tarde... ━começou a dizer ele, mas parou. Lá havia outra mulher, mudou de intenção, falaria com alguém por cima, que tinha que ser um homem━. O diretor?
    ━ Três portas para a esquerda pelo corredor ━disse a chefe de estudos sorrindo.
    O homem foi para lá. Bateu na porta. Ouviu uma voz masculina que dizia: "Entre". Lá havia, sim, um homem sentado diante do computador.
    ━ Boa tarde, venho para me queixar da leitura que impuseram à minha filha...
    O homem sentado diante do computador fez um gesto com a mão:
    ━ A mim não me conte. Fale com a diretora, que está lá ━e acenou para um recanto onde uma mulher em pé consultava um livro━. Eu sou apenas o técnico informático.
    O Ali, cheio de raiva, saiu do gabinete lançando imprecações contra os infiéis que permitiam que as mulheres ocupassem todos os postos de responsabilidade naquela escola. Tanta era a sua fúria que sofreu um infarto ali mesmo e caiu no chão. Quando abriu os olhos, o primeiro que viu foi uma outra mulher com bata branca que lhe dizia:
    ━ Diga-me como se chama.
    ━ Ao demónio convosco, infiéis. Quero que me atenda um homem!
    Mas por alguma razão inexplicável, o Ali caiu num sono muito agradável. Quando acordou, três dias depois, já sim a sua mulher e a sua filha estavam ao seu lado no quarto do hospital, ela coberta por todo o corpo, apenas se lhe viam os olhos, como a uma mulher decente.
    ━ O que me aconteceu? ━perguntou o Ali com um fio de voz.
    ━ Primeiro tiveste um infarto, Ali, e depois um icto. Isso foi o que explicou a doutora. Tiveram que te operar de emergência.
    ━ Um icto? 
    Tocou-se com a mão todo o crânio, mas lá não tinha qualquer ferida. Não entendia nada. Mas então começou a sentir uma dor que até aquela altura fora acalmada pela anestesia. Doiam-lhe os genitais. Para lá levou a mão e notou que não tinha nada, nem pênis nem testículos, só um tubinho lhe permitia evacuar. Nada, tudo estava extirpado. Nesse momento entrou a doutora toda sorridente. Deu conta logo que o homem acabava de descobrir que tinha ficado sem os seus atributos masculinos.
    ━ Uma lástima, senhor Ali, uma lástima. Mas o seu icto foi tão grave, tão grave, que tivemos que extirpar-lhe o seu cérebro pequeno, o dali embaixo ━ disse a doutora acenando para o lugar em que antes estavam os genitais dele, e depois, sem qualquer pudor, alçou os lençóis e deixou à vista da mãe e da filha aquela feia cicatriz que recordaria àquele homem para sempre que as infiéis algum dia dominariam a terra. 
    Mas o pior foi que a sua própria esposa, por debaixo do velo, também sorria.

Frantz Ferentz, 2015

RELAÇÕES VIRTUAIS

Resultado de imagen de batepapoDespois de três semanas de conversas íntimas pelo bate-papo, a relação entre e ela e ele estourou. A maneira de ela tratá-lo nos últimos tempos foi algo que ele não conseguiu compreender, porque era praticamente o oposto dos primeiros momentos.
   Na despedida, ela disse-lhe durante uma conversa de voz:
   ━ Esta relação já não pode continuar. Tu não me entendes e ainda não me conheces depois de tantas semanas de bate-papo.
   Ele não quis contrariá-la. A relação, com efeito, estava estragada. Nisso ele também concordava.
   ━ Talvez seja porque foi uma relação virtual ━ainda disse ela━ e tu não tens nem um bocadinho de psicologia, enganas-te com tudo e não sabes como tratar as mulheres nem permites que eu te ensine a fazere-lo. E o pior é que não queres mudar.
   Aí já o homem não conseguiu calar e replicou:
   ━ Ou talvez fracassasse porque tu vinhas sem manual de instruções. 

Frantz Ferentz, 2015

sábado, 8 de agosto de 2015

A PEQUENA EDID E OS MONSTROS DA CASA


A pequena Edid disse à sua mãe:

━ Mamã, já descobri que os monstros que vêm ao meu quarto saem pela sanita da casa de banho.

━ Claro, filha ━respondeu automaticamente a mãe enquanto folheava uma revista.

━ Durante meses estivem a espiá-los, até que os vi sair por aí.

━ Claro, filha.

━ Mas já não vão sair mais 

━ Claro, filhinha.

━ Já ontem à noite fiz algo e não saiu mais nenhum e dormi muito bem.

━ Claro, claro... Maldição, duas páginas ficaram apegadas.

━ Oi, mamá, podes comprar mais pílulas para dormir das tuas? É que as que havia atirei-as todas ontem pela sanita e já não ficam. Se não compramos mais, esta noite os monstros acordarão e voltarão ao meu quarto.

━ Claro, filhota...

Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

LER ENTRE LINHAS



Na mensagem dizia:

«Meu filho não irá às aulas esta semana. Motivos familiares».

A professora sustinha aquele pedaço de papel na mão com uma só linha escrita, quando o pai foi pedir explicações por o filho ter chumbado no exame.

━ Eu passei o exame ao seu filho durante o período letivo ━disse a professora━. Não ia esperar mais uma semana só por ele.

━ Mas a senhora não percebeu o significado da minha mensagem? A senhora não sabe ler entre linhas? ━arguíu o pai sorrindo torpemente.

Aí a professora sorriu também e disse:

━ Para poder ler entre linhas, tem que haver pelo menos duas linhas e na sua mensagem só havia uma, portanto, o seu filho continua chumbado.

Frantz Ferentz, 2015

A MÉDIUM



A médium, com os olhos fechados, disse à viúva:

━ O seu homem diz que está bem e que cuida de si.

━ Oh, ━emocionou-se ela━. Pergunte-lhe onde deixou o cartão do banco para levantar o dinheiro da conta.

A médium aí abriu os olhos minimamente e leu a mensagem que lhe acabava de chegar polo telemóvel em vibração por debaixo da mesa e que mantinha no colo. A seguir disse à viuva:

━ O cartão está no casaco verde num bolso do interior, no armário do quarto dos invitados...

Uns minutos depois, quando a cliente já fora embora, a filha da médium entrou no quarto e perguntou à mãe:

━ Então, mamã, quando é que vais confessar aos clientes que tu te comunicas mesmo com os mortos pelo telemóvel?

━ Nunca, filha, nunca. Se eles mal acreditam que eu falo com os mortos, imagina se eu lhes disser que o fago através do telemóvel.


Frantz Ferentz, 2015

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A ESTAGIÁRIA

Resultado de imagen de estagiariaNo jornal em que estava como estagiária pediram-me que fizesse uma entrevista ao poeta Vítor Canal. O facto de eu ser mulher e nova pensaram que permitiria que eu passasse facilmente um dia na sua companhia. E não se enganaram. Assim que me viu e me apresentei, ele olhou para as minhas pernas e a seguir para a minha câmara de fotos e disse-me:

━ Tira-me as fotos pelo meu perfil bom, que é o direito.

A primeira atividade que tinha programada para esse dia era uma visita a um liceu. Ali permitiu que os estudantes lhe formulassem todo tipo de perguntas, mas ele conseguia sempre responder falando da sua poesia. E sempre transmitia a mesma mensagem patriótica: o galego é uma língua independente, não tem nada a ver com o português.

Almoçámos juntos e ele quis saber tudo acerca da minha vida. Bem percebi que deveria acostumar-me a ser o alvo de interesse masculino se queria continuar com a carreira de jornalista. E quando estávamos na sobremesa, recebeu um telefonema.

━ Olá, dom João de Guimarães, o melhor poeta e editor em língua portuguesa ━começou ele a tentar falar em português mas sem abandonar o seu sotaque galego━ para além de grande amigo.

━ (...)

━ Que me queres incluir numa antologia de poetas da Lusofonia? Claro, ho, conta comigo, já sabes que a Lusofonia atravessa o Minho para cima e para baixo, ha ha ha...

━ (...)

━ Sim, caro amigo, pronto, eu participo, sabes que te quero bem. Grande abraço e cumprimentos à tua mulher.

Embora eu fosse apenas uma estagiária, não pude deixar de observar a incoerência do seu discurso. No liceu defendera a independência do galego como língua, mas com aquele poeta e editor, fosse quem for, acabava de dizer que galego e português tudo era uma mesma língua. Fiz-lhe notar a incoerência.

Ele sorriu, pôs a sua mão na minha coxa e disse-me:

━ Mas não, linda menina, é algo que já está explicado na Física.

━ Na Física?

━ Sim, na Física, a que se estuda na Universidade.

━ Não percebo.

Ele ainda apertou com os seus dedos a minha coxa e disse:

━ Vê-se que ainda não conheces a Teoria da Relatividade do Einstein. Lê-a, bonitinha, lê-a.

Frantz Ferentz, 2015

NEM TUDO QUE BRILHA É INVEJA


Quando eu abri o meu perfil nas redes sociais, ele criticou-me dizendo que nunca se prostituiria assim publicamente; hoje ele tem o seu perfil cuidadíssimo, lar bucólico do seu superego.

Quando eu fui convidado a participar numa antologia poética virtual, ele disse que jamais participaria dessas manifestações folclóricas que degradam a poesia; hoje, ele também está nessa antologia onde se manifesta como o poeta vivo mais importante da sua geração.

Quando eu me doutorei, ele disse que ele não precisava ser doutor para aparecer nos manuais e passar à história da literatura; hoje ele é doutor e o semeia aos quatro ventos, tanto que as pessoas acham que é doutor em egologia.

Quando eu comprei um cão e disse que ganhara o melhor amigo do mundo, ele disse que quem tem um animal de estimação é porque se projeta nele; hoje, ele é um lobisomem graças a que pagou por ser mordido por um, e todos as noites de lua cheia se transforma e diz que ele mesmo é o seu melhor amigo.

Frantz Ferentz, 2015