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domingo, 24 de maio de 2015

O QUE NÃO TEM DE SER MAS É

Resultado de imagen de minho galiza portugal━  O galego e o português... claro que são duas línguas diferentes. Por isso, neste livro eu não podo ler os poemas que estão em português. ━ dizia o poeta antes de iniciarem a leitura pública da antologia.
━  Como quiseres, mas tu já sabes português, porque sabes galego ━ dixo o editor ━. Daquela, podes escolher um dos poemas do livro e lê-lo como lês sempre, no teu falar galego. Escolhe um dos poetas galegos que escreve em reintegrado e simplesmente lê nele.
━  Bom, podo fazer a prova, só por experimentar, quase como chança. A ver, por acaso, esta rapariga que sai aqui...
E o poeta leu todo o poema escrito em português com a sua voz galega. Leu sem problemas, leu sem tropeçar, porque na sua cabeça era quem de transformar uma grafia alheia noutra familiar.
━  Mas isto é porque esta autora é galega ━ quiso ainda insistir o poeta.
━  Não, olha, esta autora é portuguesa. 
O poeta mordeu os beiços. Ao cabo acabavam de lhe demostrar que se pode ler em galego um texto escrito em português. Raios. Toda a sua teima de defender que galego e português eram realidades distintas ia esbroar. Não podia consenti-lo.
━  Galegos e portugueses falam diferente ━ teimou o poeta ao final da leitura.
━  E logo? ━ inquiriu o editor.
━  Porque os galegos falam galego e os portugueses falam português.
━  Concordo ━ dixo o editor.
━  Que concordas? ━ ficou o poeta estranhado.
━  Claro, os galegos falam galego e os portugueses falam português, mas ambos falam a mesma língua. E tu acabas de o demostrar depois de leres uma poeta portuguesa em galego. 
Aí o poeta calou, mas de repente tevo uma inspiração de seu:
━ Sabes quê? Talvez sejam a mesma língua, mas ficam em dimensões diferentes, em multiversos paralelos, por isso não dão confluído, já sabes... E falando de versos, vou assinar o livro, que para isso vim.

Frantz Ferentz, 2015