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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

POESIA E NICOTINA

Combinara com o poeta Fourrier num café de Atocha. De entrada já me pareceu um cretino que só sabia sair a cada cinco minutos à rua para fumar. Durante a escassa meia hora que passei com ele, apenas falou de si, de si, de si e ainda de si. Nada de estranho, era um tipo de pessoeiro que já tinha topado muitas vezes durante a minha carreira de crítico literário para jornais e revistas que pagavam uma miséria por compridas entrevistas aos divos do momento. O poeta Fourrier, como eu tinha que o chamar por ordem da minha editora, era um mais daqueles. Entrevistá-lo tranquilamente naquele café de Atocha era uma tarefa impossível, porque, como digo, a cada cinco minutos saía à rua para fumar. Não quisem saber como faria quando estavisse a fazer amor, talvez na altura fumava entre movimentos pélvicos ou, simplesmente, nem precisava de ter sexo. Quando ao cabo dei feito a entrevista, tivem ademais que tirar várias fotos dele. Quiso que fossem com a estação dos comboios ao fundo. Em todas as fotos levava um cigarro na mão. A mim não me pagavam por discutir. Fizem-lhe as fotos com o cigarro, embora eu o considerasse de mau gosto.

Voltei a coincidir com o poeta Fourrier num recital coletivo em Valência. A minha revista pedira-me que interrompesse uma fim de semana livre para escrever um texto sobre o recital, aproveitando que já estava naquela cidade, centrado na figura do poeta Furriel, que era a paixão da minha editora. Quando fum cumprimentá-lo antes da leitura, ele logicamente não se lembrava de mim, mas sim da entrevista que lhe fizera. Por cima, botava o fumo do cigarro no meu rostro enquanto olhava para mim com ares de superioridade. Aí, já não resisti mais. Fora de mim, agarrei-lhe o cigarro e botei-o para o chão furioso. Ademais, quitei-lhe o pacote de cigarros da mão e aventei-o pola janela aberta. Ele não dava creto ao meu comportamento, mas nesse instante chamaram-no para recitar. Ele acudiu ao palco como um morto-vivente, com o olhar perdido. Chantou-se diante do microfone e começou a chorar como um miúdo, salouco a salouco, com chios de rata polo méio. 

Para minha surpresa, o público aplaudiu aquele pranto. Consideraram-no um pranto poético, uma nova manifestação de saloucos em verso, com ritmo e até... mensagem. A gente pensou que se tratava de um pranto pola morte de um ser querido e que o poeta Fourrier, incapaz de ler poesia, chorava poesia. Foi tudo um sucesso para ele. Eu pensei em escrever sobre aquele fenómeno e dizer que o pranto do poeta Fourrier era apenas um pranto de síndrome de abstinência polo tabaco, mas depois refleti e cheguei à conclusão que era melhor calar, pois não ia acabar com a minha escassa reputação de crítico, porque ninguém me acreditaria. Talvez, pensei, teria valido a pena ter feito aquela entrevista em Atocha aos cigarros em vez de ao poeta Fourrier, talvez, sim.


Frantz Ferentz, 2015