Páginas

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O DOM DE VLADIMIR


Conhecim o Vladimir por acaso num parque, sentado num banco à sombra dum plátano centenário, nos jardins do Príncipe de Aranjuez. Vestia miseravelmente, como um vagamundo. Ao lado dele havia uma mochila onde intuím que levava todas os seus pertences nesta vida. Nom sei por que me sentim atraído por ele, pola sua forma de olhar para o rio na distância, como se o seu espírito confluísse com ele, a caminho de Lisboa. A nossa conversa começou quando, depois de eu sentar ao seu lado, abrim um paquetinho de bolachas de manteiga e ele, imediatamente virou os seus olhos para mim e lim claramente no seu rostro a palavra "fame". Ofrecim-lhe uma bolacha que ele colheu ansiosamente e comeu antes quase de a ter recolhido da minha mão. E vista a situação, fum-lhe oferecendo bolachas uma trás outra, de maneira que o paquete comeu praticamente ele só.

Depois daquilo ele sorriu-me. Queria falar comigo, mas era evidente que não falava espanhol. Provei com o inglês. Algo falava, o suficiente para me contar que se chamava Vladimir e que se fora do seu país porque estava a morrer de fame, visto que com o que ele chamava o seu "dom da palavra" não conseguia trabalho nenhum. A cada vez eu sentia-me mais curioso, tanto que lhe perguntei em que consistia o seu "dom da palavra". E ele, sem o pensar duas vezes, quitou da sua mochila um velho livro, ou mais bem uma série de folhas mal unidas, no limite para deixarem de ser consideradas um livro e serem consideradas um objeto digno de ser reciclado, abriu uma página e leu, pondo-se em pé sobre o banco, com o livro na mão direita e com a esquerda movendo-a como se nadasse durante a leitura.

Eram uns versos dum poeta clássico checo. Os passeantes polo parque àquela hora quedaram abraiados com aquele espetáculo, tanto que alguns até se achegaram e lhe botaram algumas moedas e aplaudírom, mesmo sem perceberem nada do poema. Mas o que me pareceu incompreensível é que ele tivesse problemas no seu país por ler poesia em alto. Eu também aplaudim. Quisem dar-lhe o endereço de um amigo que montava espetáculos teatrais, porque talvez ele poderia ajudá-lo, visto o seu talento. Apanhei o primeiro fólio que encontrei na carteira e apontei o número de telefone do meu amigo. Ele colheu o papel, despregou-no e começou a ler o que punha pola traseira daquele fólio, do qual eu nem me decatara, mas leu à checa, com entoaçom, ritmo, pausas… leu como leria um autêntico rapsodo:


duas garrafas de água
meio quilo d'ervílha… não congelada… não
quarto de polo, quarto de polo
mistos, biscoitos com manteiga
café descafeinado café
pagar com visa pagar, ervilhas, polo
com visa pagar
garrafas de água não congelada  
café
visa
pagar
quarto de ervilha
polo com manteiga
... duas garrafas


Era uma minha velha lista das compras o que acabava de recitar.

━ Rapsodo, o senhor é um rapsodo ━ dixem-lhe aplaudindo.

Ao final, o Vladimir não chamou o meu amigo. Não lhe fezo falta. Sei que ganha a vida por Aranjuez fazendo o rapsodo de qualquer cousa que lhe pedem, de uma multa de trânsito, de uma mensagem estúpida nas redes sociais, de uma publicidade do governo… A todo é capaz de lhe quitar a poesia. E ele é feliz assim, porque é verdade que é o único que saber fazer, mas fai-o francamente bem, embora ele sempre o leia em checo, como lhe soa. 


Frantz Ferentz, 2015