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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

OLHAR A TELEVISÃO PROATIVAMENTE


A minha mãe

   — Não aturo tanta publicidade a interromper os filmes — comentou ele quando depois de dez minutos de passarem filme, houve outra pausa de sete minutos.
   — Então, olha a televisão proativamente — disse a mãe anciã sem deixar de tricotar
   — Proativamente? — perguntou ele.
   — Embora sejas meu filho e por cima catedrático de universidade, és bem fato, meu. Quero dizer: «Baixa o volume do aparelho durante os anúncios...»

Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

DESTRADUZINDO


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A tradutora aceitou a tradução daquele livro porque sabia que seria o trabalho da sua vida. Desde havia anos, esperava por uma oportunidade assim, pois sabia que a tradução daquele livro tão importante, o romance dum ganhador do prémio Nobel, faria dela a tradutora mais procurada do país.


Começou o seu trabalho com entusiasmo, mas quando chegou ao capítulo 3, descobriu que o capítulo 1 voltou a aparecer na língua original no seu computador. Achou que talvez fosse uma falha informática. Deixou estar a coisa e prosseguiu. Quando chegou ao capítulo 6, descobriu que o capítulo 2 também se tinha destraduzido. Voltou para trás. Se fosse um problema informático, ela não sabia como resolver. Voltou a traduzir os capítulos 1 e 2, mas então descobriu com horror que o 4 e o 5 também se destraduziram.

Desde então, por cada dois capítulos que traduzia, outros dois se destraduziam. A tradução do romance não avançava, a tradutora chorava desesperada. Aquele era o trabalho mais importante que ia receber em toda a sua carreira e não avançava. Chorando, ligou para um colega e contou-lhe:

— Oi, a cada dois capítulos que traduzo, outros dois destraduzem-se. O que achas?

— Acho que é normal —respondeu ele—. És tu mesma que os destraduzes, porque de facto não queres que essa tradução acabe, queres que dure para sempre.

— Mas que estás a dizer, Ulisses?

— Estou a dizer a verdade, Penélope...

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O ANÚNCIO NAS REDES SOCIAIS



O Teddy carregou a foto do velhote no seu perfil e escreveu: «Este é o Carlos, um ancião perdido no bairro de São Felício. Se alguém o vir, contate comigo: teddy_9065@gmail.com. Ele tem demência senil. Obrigado». Imediatamente, sob a foto começaram a aparecer comentários desejando sorte ao Teddy para encontrar o Carlos, cujos olhos tenros chamavam a atenção.

"Oxalá houvesse mais pessoas como você"

"Que exemplo de amor a uma pessoa"

"Se eu fosse esse velhote, gostaria de ter alguém como você para se ocupar comigo"

Eram algumas das postagens que recebia o Teddy, o qual, ao cabo, na solidão do seu escritório, remexeu o rabo e largou um guau que ninguém conseguiu ouvir, mas que significava: "se vocês soubessem como é dura a vida do animal de estimação hodierno".

Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O BEIJO DE BOA NOITE

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— Vê esse miúdo que vai lá? — comentou uma mãe que acabava de deixar o filho na cancela de entrada à escola—, dá-me muita pena.
— Por quê? — perguntou outra mãe que estava ao seu lado.
— Porque diz que sua mãe lhe dá um beijo todas as noites antes de ele adormecer.
— E tem isso algo de especial?
— Tem, porque a mãe morreu há já três anos.
A segunda mulher sorriu e apenas disse:
— Mas ele bem sabe que eu estou morta.

Frantz Ferentz, 2015

FRASES BONITAS


A Andrea L.B.

«Fica com aquele
que te olhe quando voas
que te deixe voar
que te encoraje a voar
que te alcance no voo»

Ele sentiu que lhe caía uma lágrima de emoção ao ler o texto no ecrã dela. Disse então passando a mão com sangue pelo queixo:

— Puseste tu isto no teu muro da rede social, certo? É que eu sou mesmo assim.

Ela, deitada no chão, cheia de hematomas, com um lábio roto, ainda murmurou um triste sim.

Frantz Ferentz, 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

POEMAS DE AMOR VIAJANDO NUMA GARRAFA

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O Carlos conheceu a Micaela em Madrid. Ele era apenas um camareiro, ela... ela podia ser qualquer coisa, talvez um astro do céu aos olhos dele. Bastaram uns sorrisos e umas ligeiras gargalhadas, bem como uma roçadura leve da mão dela na dele ao deixar uma gorjeta.

Quando ela saiu pela porta, o Carlos decidiu que ganharia o coração daquela mulher para sempre. Embora ela morasse em Lisboa e ele em Madrid, enviar-lhe-ia poemas de amor dentro de uma garrafa pelo Tejo abaixo. Ele pediu aos santos, ao seu deus, ou a quem for, que aquela garrafa chegasse até a Micaela. E assim, lançou a garrafa ao Tejo em Aranjuez, com o nome e os apelidos dela bem à vista na garrafa. Antes de a lançar ao rio, beijou-a e disse-lhe: "Chega".

O Carlos deixou a garrafa na água e sentiu que chegaria, apesar de todos os obstáculos, até o Estuário do Tejo, que nem as barragens nem qualquer outro bançado impediriam que alcançasse Lisboa. Acertou, a garrafa com os poemas salvou todas as barreiras, todas, porque o destino tinha decidido conseguir que ela alcançasse Lisboa, Assim, três meses depois, a garrafa flutuava no beira do Mar da Palha, ao pé do cais da Praça do Comércio.

E porque o destino assim o quis, naquela tarde de sábado, a Carolina viu a garrafa flutuar. Logo pôde ler o seu nome nela. Tirou o calçado e meteu-se na água até as canelas para recolhê-la. O destino satisfizera os desejos do Carlos até o final. Ela retirou a rolha. Os poemas, dentro, estavam intactos. Ficou a contemplar aquela garrafa onde ia o seu nome escrito por dentro. Era um milagre. Sim, era um milagre. Recolheu os poemas, fez uma bola com eles e atirou-os para o mar, onde afundiram lentamente. Depois, com um sorriso nos olhos, regressou com a garrafa na mão para a ribeira. Sentia-se feliz, acabava de encontrar por acaso uma garrafa de um raro vinho cujo preço para um colecionista podia ascender a vários milhares de euros. Por algum capricho do destino, aquela garrafa chegara até às suas mãos, até às suas mãos de diretora de uma casa de leilões.

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

AÇÃO POÉTICA ALTERNATIVA


O Mingo era um idealista que cria que a poesia podia mudar o mundo, nele ressoava aquele verso que dizia que "a poesia é uma arma carregada de futuro", embora não soubesse exatamente quem a pronunciara. Por isso, naquela manhã entrou no banco ateigado de pessoas. Levava o casaco na mão e em baixo escondia uma pistola. Quando esteve no centro do local tirou a arma e disparou duas vezes para o ar. As trinta e tal pessoas que lá havia ficaram paralisadas, a maioria deitaram-se para o chão. E então o Mingo sentou-se tranquilamente numa cadeira que lá estava, sem soltar a arma e tirou uns papeis que levava no bolso. A seguir leu um longuíssimo texto em que intencionava declarar o seu amor à lua. Era um texto muito chato, do qual mal se entendiam algumas palavras, pois o Mingo não vocalizava. E continuou a ler, entusiasmado, a vibrar com cada sílaba mal pronunciada que emergia dos seus lábios, enquanto o resto das pessoas presas naquela sala não entendiam nada e oscilavam entre o terror, o tédio e o furor. Quando afim concluiu a sua leitura, vinte minutos depois, com uma declaração de amor para a lua, o Mingo disparou novamente duas vezes para ar e gritou:

— Obrigado pela vossa atenção. Isto é cortesia da Poética Universal para Tempos Alternativos

E foi embora. Perderam a pista do Mingo, até dois meses depois, quando apareceu toda um cargamento de bacalhau num contentor, onde cinco mil peças de peixe tinham cada uma um frasquinho no estômago e, dentro de cada recipiente, um poema diferente do Mingo perfeitamente enrolado, mas todos os poemas iam escritos para a lua, a sua paixão incomensurável. Como sinatura, para além do seu nome, novamente aparecia Poética Universal  para Tempos Alternativos.

Porém, apesar de tanta atividade poética, o Mingo nunca percebeu porque o seu partido Poética Universal para Tempos Alternativos nunca conseguiu mais de dois votos nas eleições para a autarquia. Um era sempre o seu, o outro... o outro talvez fosse da lua, mas isso ele nunca saberia. Contudo, o facto de as siglas do partido serem PUTA, também não ajudava muito.

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

OS FALSOS AMIGOS

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Depois de muito tempo sem se encontrar, os dois colegas tradutores, o Jan e o Hans, tomavam juntos um café ao pé dum canal de Amsterdame.

— E como te vai a vida, Jan?

— Poderia ir melhor, mas não tenho mais que problemas com os falsos amigos.

— Faz favor, usa a expressão correta: diz-se 'cognado'. Mas conta, talvez eu te possa ajudar.

— Está bem, há um certo cognado, como tu dizes, que abusou da minha confiança e fez-me acreditar que era um verdadeiro amigo, mas afinal... oi, existe alguma outra palavra para "verdadeiro amigo"?

Frantz Ferentz, 2015

sábado, 17 de outubro de 2015

O HOMEM SENSÍVEL

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Ele sempre afirmava que sob aquela pele de sábio, de catedrático, de intelectual, havia um homem imensamente sensível, mas ninguém lhe dava ouvidos. Para todos, ele era só conhecimento, aquele que demonstrava nos seus livros, palestras, intervenções, até aquele dia, quando já farto, diante do público despiu-se, tirou a pele toda como se fosse uma banana e deixou à vista o homem sensível que ele realmente era. Porém, todos fugiram, porque apenas viam nele músculos, tendões e sangue, mas não aquela sua imensa sensibilidade.
Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A MALDIÇÃO DO SIGNO DE ESCORPIÃO

Resultado de imagen de scorpioO Fitz nasceu marcado por uma maldição. Todas as mulheres por que se apaixonasse tinham de ter nascido sob o signo de escorpião.

A primeira vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Ivana, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Ivana Ruz disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ela tinha medo.

A segunda vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Johanna, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Johanna Fallen disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ele ainda não fizera bastante por ela.

A terceira vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Katařina, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Katařina Nováková disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ele a amava demais.

A última vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Christina, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Mas como a Christina Rossetti era uma poeta morta em 1894, o Fritz foi feliz até o fim dos seus dias lendo os poemas dela em voz alta à lua. E nunca lhe ouviu dizer que o seu amor não tivesse futuro.

Frantz Ferentz, 2015

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O DIA EM QUE ELE CORTOU AS UNHAS


   Ela encontrou-o como sempre em frente do televisor, comodamente sentado no sofá e com os pés apoiados na banqueta, como sempre, com a cerveja ao lado. Porém, ao observá-lo, ela detetou algo diferente, algo que a encheu de alegria.
    — Por fim cortaste as unhas dos pés!
   Sim, depois de tantos meses, ele só chegara à conclusão que tinha de cortar as unhas sem ela lho repetir mil vezes. E é que as unhas deles eram quilométricas.
    Ele, sem se imutar, disse:
    —  Claro, como não estou cómodo sem poder ver a televisão com os pés em alto e não posso ter uma banqueta mais baixa, as unhas eram longas demais e me ocultavam ver o ecrã. Por isso cortei-as... Foi um trabalhão, que o saibas...

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

AS RAZÕES DA NATUREZA



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   — Então, padre, acha que a virgem nos castiga quando nos comportamos mal?
   — Castiga.
   — E as pessoas que fazem mal como recebem o castigo?
   — Bom, a santa virgem, que é muito sábia, faz de muitas maneiras. Pode enviar chuva e inundar uma cidade, pode fazer inclusivamente o contrário: impedir que chova durante meses; e até pode fazer que as pessoas iniciem uma guerra entre elas para se matarem e se castigarem assim.
   — Então a representação do teatro na praça que ficou suspendida ontem por causa da  chuva  foi porque a virgem estava zangada connosco?
   — Não, filha, isso foi a natureza. Choveu porque tinha que chover, nós somos pessoas muito crentes e a virgem não nos castiga... 
   — Mas a chuva ontem derrubou árvores...
   — Sim, mas não foi para nos castigar. Foi a natureza, que por causa da mudança climática anda muito alterada... Mas o que estás a fazer? Por que te pões de joelhos?
   — Estou a rezar à natureza. É tão vingativa como a virgem. Decerto algo fizemos mal e estou a pedir que nos perdoe.
   — Filha, tu não entendes nada!
   — É você que não entende, padre, porque a natureza se comporta como a virgem e também castiga. Portanto, eu peço perdão à natureza, porque decerto algo fizemos mal.
   — És uma pagã! Não entendeste nada! A santa virgem não é vingativa, mas é justa.
   — Exato, como a natureza, mas a natureza não é tão caprichosa como a virgem, acho eu...
   

Frantz Ferentz, 2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A PRÉDICA DO PASTOR

   O pastor Josué defendeu veementemente que os videojogos eram produto do diabo, que todos os miúdos que jogavam com eles perdiam a alma para sempre e iam todos direito para o inferno.
   O público facilmente influenciável, assim que saiu da sala, lançou-se para as ruas para entrar nos negócios e destruir todos os cartuchos, discos e aparelhos de videojogos, e queimarem as lojas e até aforcarem alguns comerciantes no nome do deus.
   Enquanto o pastor contemplava satisfeito as colunas de fumo e os gritos por toda a cidade desde a porta da sua igreja, um desconhecido achegou-se dele e disse-lhe:
   — Parabéns, pastor, nunca esta cidade foi submetida a um caos assim.
   — É para afastar o diabo —disse o pastor.
  — Acredite-me. Eu sou o próprio Satão e nunca consegui infiltrar-me nas mentes de criadores de videojogos, já gostaria eu... E menos ainda tenho conseguido destruir uma cidade em menos de uma hora como você. Com mais pessoas como você, eu ficaria decerto sem trabalho.


Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

POR FALAR DE SOGRAS



━ A minha sogra tem um talento único.
━ Qual?
━ Ela é capaz de falar durante quatro horas seguidas sem qualquer tema.
━ Ha, ha, ha, que engraçado. E o que faz quando acaba se não pode mudar de tema?
━ Muito simples: volta a começar...

Frantz Ferentz, 2015