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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

AQUELE GRANDE HOMEM

O grande Vassili Portell, homem de grande talento e imensa obra artística, foi sentado à direita do altar. Os grandes homenageados, como ele, requeriam de lugares importantes; na vila só tinham um lugar importante, grandioso, capaz de acolher um hóspede importante como aquele: a sua igreja românica com séculos de história.

Vassili Portell esquecera trazer os óculos. Não se importava. Os óculos, porém, davam-lhe uma imagem de homem idoso que ele não queria transmitir. Contudo, enquanto falava o presidente da câmara e vários vultos mais, o Vassili quis falar com a assistente de congressos que tinha ao seu lado. Desprendia um cheirinho muito agradável. Ia demostrar-lhe que ele, com mais de sessenta anos, nem só era um galã, mas também um amante incrível. Ela permanecia imóvel ao seu lado, enquanto ele largava todas as ocorrências próprias de um génio que saíam em murmúrios pela sua boca.

«Esta moça gosta de mim», pensou o Vassili. «Acho que lhe vou passar o meu número de telemóvel...»

Porém, quando estava para chegar o momento do seu discurso, veio o seu secretário para o avisar:

— Dom Vassili, prepare-se já... e deixe de falar entre sussurros, que parece que queira cortejar uma mulher.

E Vassili Portell, génio e figura, ainda replicou:

— Se tiver dez minutos mais, tenha certeza que cortejava esta mocinha aqui ao meu lado...

O secretário calou. Conhecia bem o fulano. Não ia arruinar a sua auto-estima num dia como aquele exlicando-lhe que aquela que estava ao seu lado não era uma assistente de congressos, mas uma estátua da virgem do Remédios.

Frantz Ferentz, 2014

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