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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

SEXTA FEIRA E MAIS

Ergues-te uma hora mais cedo do habitual. Esperas que hoje seja um dia grande. Sim, estás convocado para fazer parte de um júri literário. Tinhas esperado essa oportunidade desde há anos, deseja-lo quase tanto como respirar. Achas que depois dessa reunião a tua carreira será diferente, será melhor, terás mais acesso ao mundo literário. Achas que, finalmente, serás alguém. Por isso, desde há semanas não fazes mais do que recriar na tua cabeça como será a reunião. Preferes manter um perfil baixo, só responderes quando fores perguntado, se não for assim, melhor calares-te. Estás cheio de sono, mas mesmo assim excitado. Procuras no armário uma roupa decente, mais do habitual. Quando conduzes o carro fora da garagem, vês que chove a mares. Na rádio dizem que a entrada à capital é um colapso. Começas a duvidar se te ergueste cedo demais. Que se importa. Decides ir pela autoestrada de portagem. De todos os modos pagarão os organizadores do prémio. Mas quando a autoestrada de portagem termina, o colapso para entrar à capital continua. Olhas nervoso para o relógio. Tens ainda uma hora até o início da reunião do júri. Sabes que é sexta-feira, portanto o trânsito é sempre um desastre nas sextas, mas é ainda pior hoje com esta chuva horrível. Pela rádio dão notícias de mais acidentes. Tentas manter a calma, seres positivo. Por sorte, tens ligado o navegador. Propõe-te rotas incríveis, algumas aceitas, outras não. Alguns engarrafamentos são inevitáveis, outros não. Tens muito estresse, mas já estás no centro da cidade. Conseguiste chegar. És um tipo formidável, estás até orgulhoso de ti mesmo por como te mexes pela cidade. Alcanças o estacionamento ao pé do prédio onde se reune o júri. Olhas o tarifário. Buf, pode custar até 31 euros o estacionamento. Bem, bem, esses 31 euros junto com os 12 da portagem da autoestada te serão rembolsados depois, sabe-lo. Guardas o cartão do estacionamento. Sais para a rua, sem parachuva. Não te importas nada da chuva. Vais direto para o portão. Perguntas ao porteiro. Ele diz-te que lá não se celebra qualquer reunião. Toda a tua adrenalina cai para o chão. Repetes mentalmente a informação que te deram no mail. Fias-te da tua memória como da tua capacidade de conduzir. O porteiro assegura que lá nos seus papeis não há constância de qualquer reunião. Tu sabes que é no dia 10 às 12 horas. Contudo, engoles o teu orgulho e voltas a ler, semanas depois, a mensagem do secretário do prémio no telemóvel. Com efeito, ali está a data do 12 às 10 horas. Tem que haver um mal-entendido. Falas novamente com o porteiro e até lhe mostras a mensagem no teu telemóvel. Ele tenta não te ofender e diz-che: «O senhor não deu conta que lá diz o dia 10 às 12 horas?». Tu ficas imóvel. Claro que leste isso. O porteiro fica a olhar para ti uns segundos em silêncio. Depois volta a falar: «O senhor confundiu as cifras, explica, a reunião foi há dois dias, no dia 10, às 12». Então tu já percebes. Procuras uma explicação que queres oferecer ao porteiro. É por culpa dos óculos. Sim, os óculos, que estão mal graduados. Mas sabes que essa explicação não serve para o secretário do prémio. Sabes que perdeste a tua mais grande oportunidade. Sais para a rua sem te despedir. Deixas cair a chuva pela tua cabeça derrotado. Mas ainda encontras consolo no pensamento de que não pagarás 31 euros pelo estacionamento, achas que com 1 euro estará pago. E, aliás, sabes que o trânsito estará já melhor a estas horas... A cidade torna-se para ti uma grande mãe consoladora nessa tua hora final dalguma coisa. Sim, e decides pelo menos fazer da tua desgraça literatura e contas esta história, queres que alguém ria da tua desgraça. E talvez consigas.



Frantz Ferentz, 2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

NA POLTRONA DO PSIQUIATRA

— Meu filho diz que ouve vozes na sua cabeça, doutor. Isso é grave?
— Depende. Deixe-me falar com ele. Poderia ser síntoma de esquizofrenia. Isso sim seria grave. Já sabe que há muitos casos de assassinos em série que dizem que só obedeciam ao que lhes diziam as vozes dentro da sua cabeça... Traga o filho para cá.

*  *  *

— E então, doutor, como correu tudo com o meu filho?
— Pode ficar descansada.
— Então, não ouve vozes dentro da sua cabeça.
— Ouve, ouve.
— Mas não lhe dizem cousas perigosas?
— Provavelmente sim, mas não é grave.
— Não entendo, doutor.
— Verá, o seu filho disse que as vozes que ouve na sua cabeça falam numa língua estrangeira que ele não percebe, portanto não dá ouvidos ao que dizem. Isso é muito bom, não acha?
— Mas o que se pode fazer, doutor?
— De certo, pode continuar a ignorá-las ou fazer um curso de grego clássico, que é o que eu acho que falam essas vozes, para assim entendê-las, mas eu não aconselharia a segunda hipótese. São quinhentos euros pela consulta...

Frantz Ferentz, 2014