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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

TECLEADOR COMPULSIVO

Ele reconhecia que era adicto à escrita. «Preciso de escrever — dizia — pelo menos dez horas por dia, premir nas teclas do computador a toda a velocidade». Tecleava como um obsesso, tecleava compulsivamente, tecleava prosa, poesia, ensaio e até panegíricos e epitáfios. Não se importava que os seus escritos não chegassem a nenhures, ele escrevia, escrevia com tanta veemência que cada teclado lhe durava um promédio de cinco semanas, depois ficava inútil e tinha que comprar um novo. Era adicto à escrita, ou pelo menos isso cria ele e criam todos, até que teve que escrever a mão por um apagão de três dias que deixou a cidade sem eletricidade; então começou a sofrer síndrome de abstinência. Foi nessa altura quando a sua nova namorada, psiquiatra e bioquímica, descobriu que na realidade ele era adicto à laca das teclas que absorvia pela pele dos dedos... 

Frantz Ferentz, 2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

OS LIVROS QUE ESCREVIAM HOMENS

O Lui deixou um último pensamento nas reades sociais antes de ir dormir: «Eu não escrevo os meus livros, eles escrevem-me a mim». Aquela frase foi logo aplaudida como uma genialidade do Lui pela sua enorme legião de seguidores, o qual fez com que trasbordasse o ego do Lui, por ter colocado com sucesso mais uma nova frase grandiloquente no seu muro. E então desligou o computador, bocejou, esticou, levantou-se da cadeira, pegou num livro que havia trás ele na prateleira, um grosso demais, e meteu-se dentro do livro, entre as páginas 234 e 235, à espera de crescer mais um capítulo.


Frantz Ferentz, 2014

sábado, 9 de agosto de 2014

AS MÃES DO SANDRO

   O facto de ter duas mães e nenhum pai não era um problema para o Sandro. Sim, ele era um desses casos de filho de duas mães, porque ambas as suas mães estavam casadas entre elas. Pouco lhe importava a ele que uma fosse a mãe biológica e a outra não, mas parecia que ao resto da vila onde vivia desde havia alguns meses sim lhe interessava muito aquele facto.
   O Sandro maldizia o dia em que se deslocaram para aquela vila do interior do país, longe da capital, por mor do trabalho de uma das suas mães. Toda a sua vida transcorrera felizmente na capital, aquele universo de pessoas, luzes e histórias onde ninguém lhe perguntava por que é que tinha duas mães, talvez porque nem o sabiam, talvez porque havia coisas mais interessantes em que pensar. Sabia que os lugares pequenos tinham outra maneira de ver as coisas, mas não até o ponto de o marginalizarem assim por ter a família que tinha. Tampouco lhe servia de consolação aquela frase, para ele vazia, que um antigo mestre lhe dissera na escola: «Um não escolhe a família, mas sim os amigos». Porém, ele estava feliz com a sua família, não queria qualquer outra.
    Por isso, desde havia cerca de seis meses, justo desde que na escola souberam que ele tinha duas mães e nenhum pai, ele era o ser mais estranho do mundo para aquela gente, que não queria tê-lo perto por medo a se contagiarem dalgo, não se sabia muito bem de quê, mas sim dalgo. O Sandro não queria falar disso na casa. Bem sabia ele que as suas mães já tinham problemas demais, que também elas eram vistas como seres estranhos, onde uma delas tinha que ser o "pai", porque era inimaginável que naquela família não houvesse um pai, tinha que havê-lo à força. Das duas mães, a Aurora tinha os cabelos curtos, portanto no imaginário da vila ela era o pai, embora fosse um pai castrado. Aliás, coincidia com que ela não era a mãe biológica, era a Lurdes.
   As coisas para o Sandro pioraram quando a Carminha quis ganhar pontos entre a rapaziada. Ela era precisamente uma rapariga de aspecto masculino, que até gostava de lidar com os rapazes da vila com os punhos. Vira no Sandro uma vítima ideal para ela poder ganhar prestígio naquela espécie de malta de rapazes que pretendia liderar. Sabia que a crueldade e a violência lhe fariam ganhar pontos entre aqueles rapazes adoradores da violência gravada em telemóvel. Ela soa bateu no rapaz cheia de raiva num recanto da vila, surda aos berros dele pedindo piedade, enquanto o resto riam às gargalhadas e gravavam a cena nos telemóveis. Tudo ia acompanhado de berros de "prateleiro de merda" ou "família de prateleiros", como se a Carminha quisesse que o Sandro pagasse nas suas carnes que existissem famílias como a sua.
   Quando o Sandro chegou à casa, já não pôde esconder por mais tempo a sua situação. A Aurora e a Lurdes sanaram as feridas na casa, não quiseram que aquele incidente ainda tivesse mais eco na vila. Porém, no silêncio de ambas as mulheres ecoava a ideia de irem-se dali e voltarem à cidade, embora ali ficasse o trabalho. Temiam inclusive que com aquela agressão se tivesse levantado a veda da caça e que a homofobia pudesse ser expressada por toda a vila.
   E assim foi, com efeito. Desde aquele dia, as pessoas já nem se cortavam em chamar «blasfemos» a todos os membros da família. O Sandro ficou ainda mais isolado, se isso já era possível. Até alguns dos mestres na escola, até então mais tépidos, passaram a agir contra o rapaz. A discriminação era evidente, o ambiente irrespirável. Se aquilo tivesse acontecido trezentos anos atrás, toda a família estaria já arder no picoto nas mãos da Inquisição, mas a Inquisição, no fundo, continuava a existir, de uma outra maneira, adaptada ao século XXI, mas bem aferrada às mentes daqueles homens e mulheres.
    "Sandro", disseram ao rapaz as suas mães, "daqui a uma semana já vamos embora desta vila. Isto é um inferno e tu és quem mais está a sofrê-lo, filho".
   O rapaz apenas mexeu a cabeça em sinal de assentimento.Também ele concordava com aquela decisão.
   Porém, vários dias antes da partida prevista, a Carminha entrou na sala de aula com sinais de ter recebido umha losqueada brutal. A sua meixela ainda deixava entrever a marca dos dedos da mão que executara o castigo. A primeira reação dos companheiros da turma foi olharem para o Sandro.
   "Não foi ele", explicou a Carminha, o qual resultava crível, porque ninguém achava que o Sandro tivesse nem o valor nem a força de bater na Carminha. Porém, a rapariga não disse o que acontecera, guardou-o para ela. Aliás, a partir desse momento, a pressão sobre o Sandro e a sua família reduziu consideravelmente. Passaram de ser observados hostilmente a simplesmente ser ignorados. Era algo melhor, mas mesmo assim não era agradável viver num lugar como aquele.
   A noite antes da partida, petaram na porta da casa da família do Sandro. Levaram uma surpresa enorme quando comprovaram que quem acudia ali era a Carminha e uma mulher idosa que se apresentou como a sua avó materna.
  "Perdoem esta visita intempestiva," disse a mulher, "mas sei que amanhã vão embora deste povo. E eu lamento-o muito. Quereria pedir-lhes escusas no meu nome e no dos meus vizinhos pelo mal causado". 
   Enquato a avoa falava, a Carminha não deixava de olhar para o chão, como envergonhada. A Lurdes pediu à mulher que passasse. Ofereceram-lhe um copo de vinho branco. Notava-se que a mulher queria falar, precisava de falar, desabafar por toda a tensão gerada na vila e de que ela também se sentia responsável, talvez por omissão.
  "Eu admiro-as," reconheceu finalmente a anciã. "Vocês mostrárão o seu amor sem escondê-lo. Eu não tive tanta coragem".
  A Lurdes e a Aurora espetaram os olhos nela, abraiadas. Ficaram à espera que a mulher lhes contasse mais. A neta continuava a olhar para o chão, mas escutava as palavras da avó.
    "Antes da guerra, eu casei com um homem. Ele morreu durante a guerra, mas eu já estava encinta. Tivemm ummha filha, a mãe desta minha neta, a Carola. Porém, eu estava muito sozinha e precisava ajuda. A minha cunhada, a Elvira, veio a viver comigo. Ela também estava sozinha e perdera tudo na vida. A questão é que temos vivido juntas desde há sessenta anos. Ela agora está em casa. Tem alzhéimer, não conhece ninguém. Só sorri quando eu lhe acarinho o rostro, só então..."
   A avó teve que fazer um esforço para não romper a chorar.
  "A Elvira é o amor da minha vida. Naqueles tempos, que duas mulheres vivessem juntas e criassem os filhos de uma delas não era estranho se uma era viúva, porém, houve muitos mais casos como o nosso, de amores de mulheres às escondidas, também nesta vila. Hipócritas. Nós nunca declarámos o nosso amor, guardámo-lo para nós, por medo, ainda hoje. E criámos juntas a minha filha Carola e quando ela morreu, também esta minha neta. Por isso, quando soube o que a Carminha fizera com o seu filho, não pude evitar dar-lhe umha bofetada e depois contar-lhe a nossa história. Estúpida!"
   A Carminha seguia a olhar para o chão. Queria passar desapercebida, talvez até uma bágoa se debruçava pelo canto dum olho. A avó finalmente não pôde aguentar as bágoas e chorou por toda uma vida na casa daquelas duas estranhas perante as quais se sentia obrigada a dar explicações que ninguém lhe pedira.
   Ao amanhecer do outro dia, o carro familiar da Lurdes, a Aurora e o Sandro abandonava aquela vila que ainda não acordara, muito devagar, como se não quisesse fazer barulho nenhum e que ninguém notasse aquela partida longamente anunciada.

Frantz Ferentz, 2014

MENSAGENS QUE DEIXAM PEGADA


   Depois de se erguer, ele encontrou uma mensagem eletrónica procedente dela, onde expressava a deceção que ela sofria pela falta de atenção dele, a sua falta de interesse, a sua carência de empatia durante os últimos meses, quando, segundo ela, não tinha notado a sua tristeza; concluía com uma frase lapidária: «já não confio em ti». 
   Ele recuperou a memória dos últimos meses. Lembrou o último período em que estiveram juntos, como se tinha comportado com ela. Estava ciente que tinha feito por ela mais do que qualquer homem teria feito nunca, para além mesmo das suas possibilidades, sem pedir nada em troca. Ela era uma egoísta que, por cima, queria deixar-se as portas abertas para voltar quando quiser. Era ruim até para manipular.
   Ele sabia que ela queria uma resposta, uma resposta onde ele se humilhasse. Não quis responder. Simplesmente, ele apagou a mensagem, a qual parecia que ainda se resistia a ser cancelada. Porém, depois duns segundos a mensagem foi só uma recordação. No entanto, no quarto ficou ainda um cheiro penetrante e desagradável. Ele então compreendeu que aquele fedor emanara da mensagem recém apagada. Também compreendeu que era o rancor que ficara da mensagem e que o rancor conseguia deixar no ar uma pegada olfativa muito penentrante que não se podia eliminar com a tecla Delete.

Frantz Ferentz, 2014