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sábado, 21 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (9)


   O corretor entre na consulta do doutor. Tem todo o rosto cheio de pequenas feridas, como se com pequenas lâminas de barbear lhe tivessem feito incisões por toda a cara.
   — Foi torturado? —pergunta o doutor.
   — Mais ou menos —diz o corretor.
   — Sim ou não? Explique-se. Se o foi, tenho que avisar a polícia.
  — Não vale a pena —explica o corretor—. Estas feridas são parte do meu trabalho. Verá, doutor, cada vez que encontro uma vírgula entre o sujeito e o verbo enquanto corrijo exames, eu sinalo-a com o marcador vermelho e ela salta-me para o rosto. E como encontro tantas mal colocadas, todas me saltam para os olhos, mas por sorte não são muito precisas nos seus saltos... É que não há coisa mais daninha do que uma vígula mal colocada, doutor, acredite-me...

Frantz Ferentz, 2014

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