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sábado, 21 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (9)


   O corretor entre na consulta do doutor. Tem todo o rosto cheio de pequenas feridas, como se com pequenas lâminas de barbear lhe tivessem feito incisões por toda a cara.
   — Foi torturado? —pergunta o doutor.
   — Mais ou menos —diz o corretor.
   — Sim ou não? Explique-se. Se o foi, tenho que avisar a polícia.
  — Não vale a pena —explica o corretor—. Estas feridas são parte do meu trabalho. Verá, doutor, cada vez que encontro uma vírgula entre o sujeito e o verbo enquanto corrijo exames, eu sinalo-a com o marcador vermelho e ela salta-me para o rosto. E como encontro tantas mal colocadas, todas me saltam para os olhos, mas por sorte não são muito precisas nos seus saltos... É que não há coisa mais daninha do que uma vígula mal colocada, doutor, acredite-me...

Frantz Ferentz, 2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (8)


   O corretor senta na sua cadeira e toma a pia de exames pendentes de correção. Apenas colhe o primeiro e descobre que está em branco. Segue com o seguinte e o seguinte e o seguinte... Todos os exames estão em branco. Como assim?
   Um dos exames deixa aparecer uma mensagem no meio da página, como por mágia: «Estamos em greve de tinta».
   O corretor não entende porque os exames estão em greve, mas ele respeita os direitos lavorais de todos, também dos exames, solidariza-se com eles; entende que eles não podem entrar em greve de fame, portanto fazem greve de tinta, é lógico. Sem dizer uma palavra, ergue-se da sua cadeira e sai do estúdio sentindo-se solidário.

Frantz Ferentz, 2014

quinta-feira, 12 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (7)


   O corretor é um homem com um imenso sentido da justiça, tem mais do que a grande maioria dos seres humanos. Por isso, cada vez que corrige um exame, monta um pequeno juízo, com ele como juiz, mas também com dois colegas, um é o advogado do exame e outro é o procurador que mostra os erros.





Frantz Ferentz, 2014

segunda-feira, 9 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (6)

   A Filipa vai conhecer o Artur. No seu perfil nas redes sociais diz que é um homem que viu o que a grande maioria dos seres humanos não tem visto nunca, e nunca verão. A Filipa tem-se formado uma imagem dele como um aventureiro tipo Indiana Jones.
   A Filipa senta na mesa indicada no bar do centro. Perante ela senta um home miúdo, com casaco típico de professor universitário, óculos redondo e aspecto de intelectual.
   — Desculpa —diz a Filipa—, o de que tu tinhas visto o que a maioria dos seres humanos não têm visto era apenas uma escusa para teres um encontro comigo, certo?
   — Não —diz o Artur—. Eu nunca minto. Quando disse que tenho visto coisas que quase nenhum outro ser humano tinha visto não mentia, queria dizer isso, porque eu corrijo exames de acesso à universidade, e o que lá vejo, não há mente humana que possa imaginar nem descrever...

Frantz Ferentz, 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (5)

   O corretor, com o olhar perdido, debruça-se à porta do seu estúdio. Desde ali diz em voz alta para ser ouvido claramente:
   — Vou pôr agora uma denúncia por mau-trato à polícia por ter sido obrigado a fazer coisas contra a minha vontade.
   No interior do estúdio, às escuras, ouve-se um riso suave. A seguir, uma voz como de papel diz:
   — Não houve violência física...
   — Será uma denúncia por mau-trato psicológico!
   Novamente o riso e novamente a mesma voz de papel:
   — Está bem, vai, vai e tenta explicar-lhe que sofreste mau-trato por parte de uma pia de exames para os aprovares todos eles. Conta-o e veremos quem acredita na tua palavra...


Frantz Ferentz, 2014


sábado, 7 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (4)

   O corretor tem duzentos exames de complicadas fórmulas matemáticas para corrigir. Não tem vontade nenhuma de passar duas noites sem dormir. Por isso, envia uma mensagem anónima aos serviços secretos dizendo que na sua mesa de trabalho há duzentos exames sozinhos, entre os quais há um ou dois com informações sensíveis para a segurança do país.
   Quando volta ao trabalho de manhã, o corretor descobre que na sua mesa já há só 197 exames, todos corrigidos. Porém, faltam três. Afinal sim era certo que através dos exames se passavam informações perigosas para o país...

Frantz Ferentz, 2014

sexta-feira, 6 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (3)


   Depois de ter corrigido duzentos vinte e três exames, o corretor encontra um exame onde só há uma frase: Introduza o seu número de telemóvel, prema (#) e escolha um número entre 1, 2 e 3. O corretor está curioso. Parece uma brincadeira de um estudante. Introduz o seu próprio número de telemóvel e marca #3. Depois de uns segundos recebe um SMS. Começa a ler. Justo lá encontra a terceira resposta do exame, escrita, como é lógico, em linguagem SMS: xq os rmns xgarm a pninsla p/ cnqista & trxram latim & pvs aprndrm ltim xq era bm. Toda a resposta em 160 carateres, pois é.


Frantz Ferentz, 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (2)



  O psiquiatra entrou no apartamento. Foi recebido pela esposa, que falava tudo em sussurros.
   "Onde está o seu marido?", perguntou o psiquiatra, também entre sussurros, com as mãos por diante porque o apartamento estava na penumbra. Ela fez um aceno com a mão, indicando ao doutor que a seguisse.
   O doutor obedeceu e ela levou-o até o quarto do matrimónio. Depois ela acenou para o armário, a indicar que o marido estava lá dentro.
   "Por que está aí dentro?", perguntou o doutor.
   "Porque diz que foi ameaçado de morte", exprimiu a esposa.
    "E não deveriam avisar a polícia?"
    Lá a mulher hesitou uns instantes, depois disse:
   "É que ele afirma que as ameaças não as recebeu de qualquer mafioso ou criminoso, mas dos exames que está a corrigir. Vê aquele monte de exames aí na mesa? Ele diz que recebeu ameaças deles e que por isso não quer sair do armário..."

Frantz Ferentz, 2014

segunda-feira, 2 de junho de 2014

OS PESADELOS DO CORRETOR (1)


   O corretor deixa o filho na cama. Dá-lhe um beijinho de boa noite. O miúdo, antes de adormecer, ainda pergunta:
   "Papá, existem os monstros dos pesadelos?"
   O pai corretor fica ainda no limiar, a sorrir, com os exames à vista, mas ainda tem uns segundos para dizer ao filho:
   "Não, filho. Não existem. Os monstros não existem".
   O pequeno adormece tranquilo. O pai vai para o estúdio e começa a remexer no monte de exames pendentes de correção. E justo nessa altura, sai dentre os papeis uma sombra que salta para o pescoço do corretor e a seguir começa a sugar os líquidos vitais do homem. É tarde demais, mas o corretor, antes de cair, ainda está ciente que se trata do monstro dos exames e já não poderá avisar da sua existência...



Frantz Ferentz, 2014