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quinta-feira, 8 de maio de 2014

SERVIR PARA ALGO

   O Santiago chegou à entrada da obra. O barulho de gente indo e vindo com o material de construção, de vozes a pedir uma saca de cimento ou o rugido rouco das betoneiras e dos guindastes, atraiu a sua atenção.
   Entrou e logo viu o chefe da obra. Tratava-se dum indivíduo de generoso bandulho, com um sobretudo azul e casco amarelo na cabeça, que dava ordens a todos os que passavam por diante dos seus focinhos. Gesticulava com as mãos, enquanto mordia na ponta dum charuto que já era impossível de saber se estava aceso ou apagado.
   Timidamente, o Santiago aproximou-se dele e cumprimentou-o o mais educadamente que foi capaz.
   — Bom dia, senhor.
   Mas o chefe da obra nem se apercebera da sua presença.
   — Bom dia, senhor —repetiu o rapaz, agora mais alto, duplicando o volume.
   Agora sim, o chefe de obra percebera a sua presencia. Virou-se e olhou para ele:
   — O que é que queres tu?
   — Venho a ver se há trabalho para mim.
   O homem examinou o rapaz com cuidado durante meio minuto e ao final perguntou-lhe:
   — Quantos anos tens?
   — Dezasseis.
   — E o que é que sabes fazer?
   O Santiago encolheu os ombros. Depois largou ao sujeito um envelope.
   — O que é isto?
   — É uma certificação que me escreveu o meu tutor na escola.
   O homem abriu-o. Pegou num papel que estava cuidadosamente pregado onde dizia:
CERTIFICO que o aluno Santiago Tobar Escobillas passou os três últimos anos a segurar paredes na nossa escola, pelo qual certifico a sua habilidade para esta tarefa. Portanto, certifico que a parede da sala de aulas não se derrubou.
O que faço constar para os efeitos oportunos.
   O chefe de obra ergueu os olhos do papel e dirigiu-os para o rapaz, que na altura sorria parvamente.
   — Já, isto é uma brincadeira...
   — Não, isto é a sério. Deu-me o meu tutor porque me disse que era a única coisa que podia fazer, o único para o que valho. Olhe, se até tem o carimbo da escola.
   O tom do Santiago era tremendamente sincero.
   O chefe da obra sentiu mágoa. Ele tinha um rapaz dessa idade cuja especialidade era manejar controlos remotos na procura das estações da televisão, durante todo o dia e sem pausa...
   — Volta amanhã —disse o homem—, se calhar, precisarei de ti como coluna...

Frantz Ferentz, 1998 (2014)

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