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terça-feira, 6 de maio de 2014

QUANDO O DIABO SE RECICLA

Colegas, é preciso pôrem-se em dia. Já não se pode ir pela superfície do mundo a tentar enganar crédulos mortais para nos oferecerem a sua alma. Já ninguém vende a sua alma e é muito difícil enganar os humanos para que a percam sem mais. O que eventualmente poderiam pedir em troca pode ser inalcançável para um demo de segunda como eu ou como vocês. Não, se pensam que podem continuar a viver como há um século, enganam-se. As almas já não estão à venda, só as emoções. Provem a ficar com as emoções. O que é que dizem? Que não sabem? Olhem para mim. Eu reciclei-me e agora sou um mestre. Que como o fiz? Foi singelo, muito singelo. O primeiro que fiz foi parar de ir de diabo pela vida e transformar-me num tipo sensível que sabe escutar. Sim, escutar, e até abraçar. Sei abraçar melhor do que qualquer mestre espiritual humano. Ganho a confiança das pessoas até elas me abrirem os seus corações. Não é complicado, é só questão de tempo, de paciência, de escuta. E depois aturar que chorem. Têm muito que chorar. Porém, as lágrimas são uma delícia. Sei que vocês rim das lágrimas, mas isso é porque não as provaram antes. O seu sabor salgado condensa toda a essência da alma humana. Quanto mais choram, mais se confia a alma. Eu apreendi a beber bágoas, gosto delas e até as guardo no frigo para momentos de escasez. Mas como vos dizia, é bom que chorem. Choram e contam todas as suas mágoas. E eu escuto-os. Ficam vazios de sentimentos. Cada vez sentem-se melhor, assim que têm um problema, vêm às pressas para contar-me e aliviam a alma. Dia a dia. Até ficarem sem problemas, porque me confiaram todos. Porém, o que eles não sabem é que quando vaziam a sua alma, de facto viram seres insensíveis, ermos, sem sentimentos. Têm alma, sim, mas uma alma vazia, porque todos os conteúdos das suas almas os tenho eu e eles nem o sabem, nunca voltam a sofrer, porque não têm motivos por que padecerem. Eis a mudança dos tempos. Já não compro almas, simplesmente fico com o seu conteúdo, porque apreendi a sorver a sua essência.

Frantz Ferentz, 2014

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