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sexta-feira, 9 de maio de 2014

ENCONTRO NUM BANCO

   O ancião, bem vestido, sentou no banco vazio. Ninguém o ocupava na aquela hora, cedo de manhã. Para ser um dia de inverno, a temperatura era boa. Encerrou os olhos e escutou o canto dos poucos pássaros que ficaram na cidade durante o inverno. Quando reabriu os olhos, uma mulher estava sentada ao seu lado, uma idosa mais ou menos como ele, humildemente vestida, com um carrinho das compras. Ele contemplou-a sem dissimular. Ela apercebeu-se dos olhares dele. No início não fez nada, apenas fitar para o chão, como se procurasse pombas a que aventar migalhas de pão. Mas a mulher acabou sentindo-se incómoda e finalmente perguntou ao home:
   — Á, senhor, mas porque olha para mim assim?
   Ele sorriu.
   — Desculpe, não era a minha intenção incomodá-la, mas acho que a conheço, que não é a primeira vez que nos vemos. Diga-me esteve a senhora em Niça no verão de 1967? Trabalhava numa discoteca chamada "La Vie en Rouge", a servir bebidas, mas às vezes também subia ao palco para cantar, cantava em italiano, muito bem, e na altura levava o cabelo de cor cenoura?
   Ela sorriu ao ouvir aquela bonita descrição.
   — Claro —prosseguiu ele—. Hei de reconhecer que eu estive apaixonado por si, mas nunca o confessei. Eu era um dos clientes que frequentavam aquele local durante o verão. Depois já perdi a sua pista, mas desde então, não parei de procurá-la.
   — Oh, que comovedor —respondeu a mulher emocionada com aquela bonita estória.
   — E agora que a encontro, não gostaria de perdê-la novamente. Eu sou um homem rico, mas acredite-me que teria dado todo o meu dinheiro por ter casado consigo. 
   Ela mordeu o lábio inferior e sorriu novamente. Aquela estória era muito mais romântica do que as que seguia nas telenovelas. A mulher, que nunca estivera em Niça e menos ainda tinha cantado nunca em italiano, disse ao homem impulsionada pela emoção do momento:
   — Sim, eu sou aquela mulher...
   Outra vez ela deixara-se levar pelas emoções. Outra vez deixara-se arrastar pelo seu romantismo instintivo, convicta de dar uns minutos de felicidade àquele velhote.
   — Catarina... quanto te tenho procurado! —disse ele cheio de paixão.
   — Ai, não, isso não. Eu chamo-me Antónia. E posso ser quem o senhor quiser, mas, por favor, nem me mude o nome, nem me peça para que tire o sutiã e nem queira ter sexo comigo com as meias postas.

Frantz Ferentz, 2014

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