Páginas

sábado, 31 de maio de 2014

QUANDO NÃO SE ESCUTA O UNIVERSO

«Vou ter vagar demais para escrever agora que me reformei. Bem sabem que escrever foi sempre a minha paixão, que a poesia me corre pelas veias».
   Justo depois de o Berto Lulas publicar aquele anúncio nas redes sociais, uma biblioteca da cidade derrubou-se de repente e uns vinte livros num rádio de três quilómetros arredor da casa do Berto sofreram ignição espontânea. Para os que não criam nas casualidades, aqueles factos inexplicáveis eram o resultado lógico do anúncio do Berto Lulas, quem não conseguia ver naqueles sucessos que o universo lhe gritava que parasse logo de ultrajar a poesia, porque os objetos mais sensíveis, os livros, continuariam a imolar-se...


Frantz Ferentz, 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

AS NOTAS ADESIVAS

   A padroa da casa onde tinha alugado um quarto durante a minha estadia naquela cidade era uma maniática das limpezas, mas não uma maniática qualquer, mas uma maniática metafísica, por chamá-la dalguma maneira. A senhora não só odiava que eu deixasse um salpicado no espelho da casa de banho, mas ainda colocava uma nota adesiva que o sinalava: "Atenção: pinga a luxar o espelho".
   Imaginem a minha perplexidade, porque até uma noite, enquanto dormia, espirrei e umas pingas de saliva saltaram até a parede de frente. Bom, quando cheguei a casa de volta e encontrei quatro notas ao redor das pingas quase microscópicas, a formarem uma pequena constelação. O escasso dinheiro que pagava pelo aluguer do quarto não me compensava por aquela chuva de notas adesivas amarelas que encontrava por toda a parte. A padroa não me falava nada, apenas deixava notas pela casa. Era obsessivo. Até comecei a crer que a senhora não existia, apenas as suas notas.
   Porém, um dia encontrei-a no corredor. Ela caminhava para mim na penumbra. Reconheço que senti algo de medo. Quando ela esteve à minha altura, não pude reprimir um espirro que me veio. E claro, larguei umas pinguinhas de cuspe que foram para os seus óculos. E então ele reagiu segundo a sua propria lógica. Quitou do bolso o bloco de notas adesivas e escreveu nelas: "Atenção, acaba de me luxar os óculos!". Mas como os óculos eram muito pequenos e as notas relativamente grandes, teve que colocar as notas em cima das lentes, e continuou a caminhar pelo corredor, mas já não via nada, até que tropeçou e caiu no chão. Os óculos estragaram. Eu pensei que, se calhar, assim terminaria o meu pesadelo, que ela já não poderia ver bem e não poderia ver as micropingas que eu deixava no espelho.
   E acertei. Quando no dia seguinte voltei a casa, no espelho não havia uma nota adesiva ao lado da pinga que eu deixara de manhã. No seu lugar, todo o espelho, pelos caixilhos, estavam rodeados de dúzias de notas adesivas, todas com a mesma mensagem: "Atenção, aqui, nalguma parte do espelho, você deixou uma pinga que luxa o espelho".


Frantz Ferentz, 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

ENCONTRO NUM BANCO

   O ancião, bem vestido, sentou no banco vazio. Ninguém o ocupava na aquela hora, cedo de manhã. Para ser um dia de inverno, a temperatura era boa. Encerrou os olhos e escutou o canto dos poucos pássaros que ficaram na cidade durante o inverno. Quando reabriu os olhos, uma mulher estava sentada ao seu lado, uma idosa mais ou menos como ele, humildemente vestida, com um carrinho das compras. Ele contemplou-a sem dissimular. Ela apercebeu-se dos olhares dele. No início não fez nada, apenas fitar para o chão, como se procurasse pombas a que aventar migalhas de pão. Mas a mulher acabou sentindo-se incómoda e finalmente perguntou ao home:
   — Á, senhor, mas porque olha para mim assim?
   Ele sorriu.
   — Desculpe, não era a minha intenção incomodá-la, mas acho que a conheço, que não é a primeira vez que nos vemos. Diga-me esteve a senhora em Niça no verão de 1967? Trabalhava numa discoteca chamada "La Vie en Rouge", a servir bebidas, mas às vezes também subia ao palco para cantar, cantava em italiano, muito bem, e na altura levava o cabelo de cor cenoura?
   Ela sorriu ao ouvir aquela bonita descrição.
   — Claro —prosseguiu ele—. Hei de reconhecer que eu estive apaixonado por si, mas nunca o confessei. Eu era um dos clientes que frequentavam aquele local durante o verão. Depois já perdi a sua pista, mas desde então, não parei de procurá-la.
   — Oh, que comovedor —respondeu a mulher emocionada com aquela bonita estória.
   — E agora que a encontro, não gostaria de perdê-la novamente. Eu sou um homem rico, mas acredite-me que teria dado todo o meu dinheiro por ter casado consigo. 
   Ela mordeu o lábio inferior e sorriu novamente. Aquela estória era muito mais romântica do que as que seguia nas telenovelas. A mulher, que nunca estivera em Niça e menos ainda tinha cantado nunca em italiano, disse ao homem impulsionada pela emoção do momento:
   — Sim, eu sou aquela mulher...
   Outra vez ela deixara-se levar pelas emoções. Outra vez deixara-se arrastar pelo seu romantismo instintivo, convicta de dar uns minutos de felicidade àquele velhote.
   — Catarina... quanto te tenho procurado! —disse ele cheio de paixão.
   — Ai, não, isso não. Eu chamo-me Antónia. E posso ser quem o senhor quiser, mas, por favor, nem me mude o nome, nem me peça para que tire o sutiã e nem queira ter sexo comigo com as meias postas.

Frantz Ferentz, 2014

quinta-feira, 8 de maio de 2014

SERVIR PARA ALGO

   O Santiago chegou à entrada da obra. O barulho de gente indo e vindo com o material de construção, de vozes a pedir uma saca de cimento ou o rugido rouco das betoneiras e dos guindastes, atraiu a sua atenção.
   Entrou e logo viu o chefe da obra. Tratava-se dum indivíduo de generoso bandulho, com um sobretudo azul e casco amarelo na cabeça, que dava ordens a todos os que passavam por diante dos seus focinhos. Gesticulava com as mãos, enquanto mordia na ponta dum charuto que já era impossível de saber se estava aceso ou apagado.
   Timidamente, o Santiago aproximou-se dele e cumprimentou-o o mais educadamente que foi capaz.
   — Bom dia, senhor.
   Mas o chefe da obra nem se apercebera da sua presença.
   — Bom dia, senhor —repetiu o rapaz, agora mais alto, duplicando o volume.
   Agora sim, o chefe de obra percebera a sua presencia. Virou-se e olhou para ele:
   — O que é que queres tu?
   — Venho a ver se há trabalho para mim.
   O homem examinou o rapaz com cuidado durante meio minuto e ao final perguntou-lhe:
   — Quantos anos tens?
   — Dezasseis.
   — E o que é que sabes fazer?
   O Santiago encolheu os ombros. Depois largou ao sujeito um envelope.
   — O que é isto?
   — É uma certificação que me escreveu o meu tutor na escola.
   O homem abriu-o. Pegou num papel que estava cuidadosamente pregado onde dizia:
CERTIFICO que o aluno Santiago Tobar Escobillas passou os três últimos anos a segurar paredes na nossa escola, pelo qual certifico a sua habilidade para esta tarefa. Portanto, certifico que a parede da sala de aulas não se derrubou.
O que faço constar para os efeitos oportunos.
   O chefe de obra ergueu os olhos do papel e dirigiu-os para o rapaz, que na altura sorria parvamente.
   — Já, isto é uma brincadeira...
   — Não, isto é a sério. Deu-me o meu tutor porque me disse que era a única coisa que podia fazer, o único para o que valho. Olhe, se até tem o carimbo da escola.
   O tom do Santiago era tremendamente sincero.
   O chefe da obra sentiu mágoa. Ele tinha um rapaz dessa idade cuja especialidade era manejar controlos remotos na procura das estações da televisão, durante todo o dia e sem pausa...
   — Volta amanhã —disse o homem—, se calhar, precisarei de ti como coluna...

Frantz Ferentz, 1998 (2014)

terça-feira, 6 de maio de 2014

QUANDO O DIABO SE RECICLA

Colegas, é preciso pôrem-se em dia. Já não se pode ir pela superfície do mundo a tentar enganar crédulos mortais para nos oferecerem a sua alma. Já ninguém vende a sua alma e é muito difícil enganar os humanos para que a percam sem mais. O que eventualmente poderiam pedir em troca pode ser inalcançável para um demo de segunda como eu ou como vocês. Não, se pensam que podem continuar a viver como há um século, enganam-se. As almas já não estão à venda, só as emoções. Provem a ficar com as emoções. O que é que dizem? Que não sabem? Olhem para mim. Eu reciclei-me e agora sou um mestre. Que como o fiz? Foi singelo, muito singelo. O primeiro que fiz foi parar de ir de diabo pela vida e transformar-me num tipo sensível que sabe escutar. Sim, escutar, e até abraçar. Sei abraçar melhor do que qualquer mestre espiritual humano. Ganho a confiança das pessoas até elas me abrirem os seus corações. Não é complicado, é só questão de tempo, de paciência, de escuta. E depois aturar que chorem. Têm muito que chorar. Porém, as lágrimas são uma delícia. Sei que vocês rim das lágrimas, mas isso é porque não as provaram antes. O seu sabor salgado condensa toda a essência da alma humana. Quanto mais choram, mais se confia a alma. Eu apreendi a beber bágoas, gosto delas e até as guardo no frigo para momentos de escasez. Mas como vos dizia, é bom que chorem. Choram e contam todas as suas mágoas. E eu escuto-os. Ficam vazios de sentimentos. Cada vez sentem-se melhor, assim que têm um problema, vêm às pressas para contar-me e aliviam a alma. Dia a dia. Até ficarem sem problemas, porque me confiaram todos. Porém, o que eles não sabem é que quando vaziam a sua alma, de facto viram seres insensíveis, ermos, sem sentimentos. Têm alma, sim, mas uma alma vazia, porque todos os conteúdos das suas almas os tenho eu e eles nem o sabem, nunca voltam a sofrer, porque não têm motivos por que padecerem. Eis a mudança dos tempos. Já não compro almas, simplesmente fico com o seu conteúdo, porque apreendi a sorver a sua essência.

Frantz Ferentz, 2014