Páginas

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O SUSTENTO ESPIRITUAL

   A Marisa aproveitou a pausa do almoço para escapar do andar do seu escritório pela porta de incêndios, sem ser vista. Ela, a grande corretora de bolsa, tinha que procurar energias noutra parte, ter forças demais para resistir os ataques constantes naquele espaço de feras em que vivia durante o dia, pois para isso luitara durante anos, para ter um espaço de seu e ser respeitada apesar de ser umha mulher naquele mundo eminentemente masculino. Por norma, procurava o seu «sustento espiritual», como ela lhe chamava, à noite, quando terminava o trabalho, discretamente, mas naquela altura precisava dele imediatamente, sentia que sem a sua dose, antes de uma reunião em que o futuro da sua empresa estava em jogo, não saberia ser ela mesma. Por isso, decidiu montar no seu carro e lançar-se desesperadamente para as ruas colapsadas da cidade, apesar do engarrafamento.
   Chegou a um bairro marginal onde apenas havia favelas. Os miúdos corriam descalços pola terra nua. Era um desses bairros que nom figuram nos mapas onde a droga corre por entre os dedos e onde os miseráveis deixam a pele por umhas pingas de qualquer substância que os enganche por uns segundos à vida. 
    A Marisa desceu do seu auto 4X4 e encaminhou-se para umha das favelas que ela conhecia muito bem. Correu a cortina que cobria a entrada sem chamar. No mínimo espaço do interior, se calhar dez metros quadrados onde se acumulavam um colchão, um forno elétrico ligado à rede ilegalmente, uma mesa e duas cadeiras, havia um velho guedelhudo e magro sentado que mal alçou o olhar quando notou a chegada da Marisa.
   — Já sabe para que venho —disse ela.
   O homem ergueu-se em silêncio, deu dois passos até ela e abraçou-a. Abraçou-a intensamente. O homem sentiu os temores dela entre os seus braços e ela o alento dele trás a sua orelha, mas encerrou os olhos e deixou-se abraçar.
   Impossível saber quanto durou o abraço. Quando ao final a Marisa abandonou a favela, ao seu carro lhe faltava um espelho lateral, mas felizmente tinha todas as rodas. Tirou a chave eletrónica do bolso, soou un "bipe", arrancou o motor e dirigiu-se de volta ao seu escritório, depois de ter conseguido a sua dose.

Frantz Ferentz, 2014

Sem comentários: