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sexta-feira, 25 de abril de 2014

O FADO NASCEU UM DIA...

   Depois de tantos anos à procura de uma cura para a sua doença "incurável", de repente um dia o Carlos sentiu-se são. Toda a sua fé antiga não lhe tinha servido para nada, tanta pregária na igreja às frias imagens de madeira não lhe trouxeram a saúde de volta e assim o dixo ao padre:
   ━ Sei que foi um milagre. 
   ━ Foi um milagre de Deus! ━insistia o padre, que não ia deixar que aquele infeliz acreditasse que ninguém mais que Deus fora a sua salvação━. Quem, senão o Altíssimo, pôde trazer-te a fe de volta?
   ━ O fado, padre.
   ━ Mas que estupidez estás a dizer? Perdeste a cabeça?
   ━ Não perdi nada. Foi o fado. Foram muitas horas a ouvir fados em casa, de ver vídeos de fadistas vestidas de preto como sacerdotissas. Foi essa música que me fez retornar a saúde e agora o fado é a minha religião. O fado é místico, padre. O fado é a minha fé.
   O padre estava convencido de que se tratava de uma doença mental. Se calhar, recuperara a saúde física, mas o preço a pagar fora imenso: virara demente, totalmente demente. Porém, para sua surpresa e a surpresa de toda a vila, o Carlos usou as suas poupanças e alçou um templo ao fado numa antiga casa fidalga da sua propriedade. Nela organizou concertos e deu aulas de fado aos jovens do seu povo manchego que gostassem de provar, embora primeiro houvessem de apreender português, porque, para ele, cantar fados noutra língua que não fosse o português era uma blasfémia. Conseguiu facilmente alunos e público entusiasta, porque naquela vila havia poucas diversões, de maneira que o fado se converteu numa espécie de modo de protesto. Logo algumas fadistas, todas vestidas de preto, com saias até aos pés ━porque assim deviam vestir as fadistas segundo ele considerava━, começaram a dar concertos enquanto eram apresentadas como sacerdotissas pelo Carlos.
   Tudo decorreu mais ou menos tranquilo durante os primeiros meses. As complicações surgíram no início da Páscoa. Os jovens já não saiam em procissão com as estátuas, mas preferiam festejar festas de fado no templo do Carlos. Após o insucesso da primeira procissão, o padre reuniu-se com a presidenta da câmara para acabarem com aquela loucura pagã que ia contra todos os bons costumes daquele planalto manchego. A autarca, mulher reja e amante da tradição, convencida da autenticidade das suas crenças seculares, concordou com a proposta do padre. Assim, naquela mesma noite, o templo do fado ardia com as fadistas dentro. Para agravar a situação, a presidenta da câmara até retardou os bombeiros, os quais, quando chegaram, encontraram apenas cinzas fumegantes. Houve mortos, sim, mas quem se importava? Era tudo no nome da verdadeira fé. 
   Além disso, o concelho negou-se a suspender a procissão do dia seguinte. Naquele dia, a virgem dos Remédios sairia coberta com um manto de veludo e uma coroa de diamantes, como correspondia à sua realeza, transportada por uma pequena legião de encapuzados com túnica. O silêncio era sepulcral pela Rua Maior, apenas interrupto pelas trompetas. A presidenta da câmara sorria sorria, o padre sorria, as forças do bem sorriam, enquanto alguns fora da vila choravam.
   E então, de repente, durante uma mínima paragem dos encapuzados que carregavam a imagem da virgem, a estátua abriu a boca e começou a cantar, e cantou em português ecoando nas paredes daquela rua manchega:
   ━ O Fado nasceu um dia 
quando o vento mal bulia 
e o céu o mar prolongava
na amurada dum veleiro
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava*.

Frantz Ferentz, 2014

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* Início de um fado muito conhecido da Amália Rodrigues

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O SUSTENTO ESPIRITUAL

   A Marisa aproveitou a pausa do almoço para escapar do andar do seu escritório pela porta de incêndios, sem ser vista. Ela, a grande corretora de bolsa, tinha que procurar energias noutra parte, ter forças demais para resistir os ataques constantes naquele espaço de feras em que vivia durante o dia, pois para isso luitara durante anos, para ter um espaço de seu e ser respeitada apesar de ser umha mulher naquele mundo eminentemente masculino. Por norma, procurava o seu «sustento espiritual», como ela lhe chamava, à noite, quando terminava o trabalho, discretamente, mas naquela altura precisava dele imediatamente, sentia que sem a sua dose, antes de uma reunião em que o futuro da sua empresa estava em jogo, não saberia ser ela mesma. Por isso, decidiu montar no seu carro e lançar-se desesperadamente para as ruas colapsadas da cidade, apesar do engarrafamento.
   Chegou a um bairro marginal onde apenas havia favelas. Os miúdos corriam descalços pola terra nua. Era um desses bairros que nom figuram nos mapas onde a droga corre por entre os dedos e onde os miseráveis deixam a pele por umhas pingas de qualquer substância que os enganche por uns segundos à vida. 
    A Marisa desceu do seu auto 4X4 e encaminhou-se para umha das favelas que ela conhecia muito bem. Correu a cortina que cobria a entrada sem chamar. No mínimo espaço do interior, se calhar dez metros quadrados onde se acumulavam um colchão, um forno elétrico ligado à rede ilegalmente, uma mesa e duas cadeiras, havia um velho guedelhudo e magro sentado que mal alçou o olhar quando notou a chegada da Marisa.
   — Já sabe para que venho —disse ela.
   O homem ergueu-se em silêncio, deu dois passos até ela e abraçou-a. Abraçou-a intensamente. O homem sentiu os temores dela entre os seus braços e ela o alento dele trás a sua orelha, mas encerrou os olhos e deixou-se abraçar.
   Impossível saber quanto durou o abraço. Quando ao final a Marisa abandonou a favela, ao seu carro lhe faltava um espelho lateral, mas felizmente tinha todas as rodas. Tirou a chave eletrónica do bolso, soou un "bipe", arrancou o motor e dirigiu-se de volta ao seu escritório, depois de ter conseguido a sua dose.

Frantz Ferentz, 2014

domingo, 13 de abril de 2014

A ÚNICA VEZ QUE ME APAIXONEI POR UMA MULHER


— A única vez que me apaixonei por uma mulher, afinal ela não era real.

— E então? Era irreal? Era falsa? Era virtual?

— Não, não era nada disso.

— E o que é que ela era?

— Ela era uma metáfora.


Frantz Ferentz, 2014