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quarta-feira, 26 de março de 2014

QUESTÃO DE HERMENÊUTICA

   A estudante teve que ouvir durante quase uma hora que o problema do seu trabalho era uma questão de hermenêutica, nomeadamente de hermenêutica da tradução. Tudo acabava na hermenêutica, maldita hermenêutica que não se encontrava nas páginas daquele trabalho desenvolvido durante quase um ano. O velho doutor presidente do júri que julgava aquela tese de mestrado pronunciou a palavra hermenêutica por volta de trinta e sete vezes, mais de uma vez por cada meio minuto. Odiava a hermenêutica e odiaria-a para sempre, porque parecia um molho imprescindível para qualquer estudo que ela quisesse fazer...
   Quando chegou a casa, a mãe leu a desesperação nos seus olhos.
    — Não correu muito bem, não é?
    A filha apenas mexeu a cabeça à direita e à esquerda. Porém, a mãe já contava com aquela situação. Tinha preparado croquetas de queijo, as preferidas da filha. E tinha-as guardado num recipiente plástico que conservaria o seu aroma imutável durante horas. Ofereceu o recipiente à filha ainda fechado.
    — Toma, umas croquetas dessas que tanto gostas.
    — Obrigada, mãe.
   A estudante abriu o recipiente e saboreou com os olhos encerrados aquelas croquetas deliciosas, feitas pela mãe com todo o seu amor, ainda quentinhas.
    Porém, não conseguia abrir o recipiente. A mãe acudiu para ajudá-la:
    — É que está hermeticamente fechado.
    Mas a filha entendeu que estava hermeneuticamente fechado. Por isso nem gozou das croquetas. Coitada.


Frantz Ferentz, 2014

sexta-feira, 7 de março de 2014

QUANDO A MONA LISA VESTIU BURKA

    Quando o emir viu a versão islámica da Mona Lisa ficou muito satisfeito. Graças àquela imagem da célebre pintura do Leonardo da Vinci vestida segundo os bons usos islámicos, todas as pessoas poderiam gozar de peças de arte ocidental no museu que o bom emir tinha aberto para o seu povo. Arte sim, mas arte islámica. Já tinha previsto encarregar ao mesmo artista a versão islámica doutra obra de arte universal: A liberdade a conduzir o povo, mas a obscena imagem da mulher com os peitos ao ar e uma bandeira francesa na mão seria substituída por uma casta mulher muçulmana toda vestida em burka e um estandarte islámico com a lenda la iláhu illa Alláh, Muhammadu rasúl Allah.
    Porém, quem estava mais satisfeito era o próprio pintor, Ahmed al-Maqsury. Para a Mona Lisa tinha usado como modelo o seu próprio namorado pintado nu, o Abdul Qaddám, mas só quem o conhecer bem teria reconhecido aquele olhar vivo do Abdul e no futuro reconheceria nas mãos sob o burka também as do Abdul. Quanto bem fazia o emir quando obrigava a pôr os véus do islame para proteger a intimidade. Ele, o próprio emir, nem o imaginava...

Frantz Ferentz, 2014