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sábado, 22 de fevereiro de 2014

A MUSSA

Quando bateram na sua porta, a Edelina não esperava por ninguém. Tinha medo que um vendedor a domicílio ou uma testemunha de Jeová se tivesse entrado de penetra pelo portão e viesse incomodá-la, mas em vez disso, ao outro lado do limiar topou-se um tipo vestido com um casaco de bombazina e cotoveleiras.
— Dona Edelina Elizondo?
 Sou eu...
A Edelina pensou então que talvez se tratasse dum representante do Concelho com intenções de obrigá-la a pagar algo imprevisto, uma denúncia, uma multa, algo do que fora avisada e ela nem ficara a saber.
 Permita-me que me apresente disse o desconhecido. Chamo-me Avílio Diz e sou professor de teoria literária na Universidade...
Aquele assombroso inicial deu lugar a uma conversa na qual o Avílio explicou que afinal descobrira que ela, a Edelina, era a mussa do grande poeta Fernando Portas, o poeta mudo que nunca se mostrava em público. Tinha pesquisado a quem pertenciam as siglas E.E. de todos os poemários do grande poeta, até descobrir que se tratava dela. Portanto, ele, o estudioso literário, queria conhecer quem era aquela mulher que tinha inspirado tão formosos poemas ao melhor poeta vivo do país. Inclusive mostrou à Edelina vários dos poemários do grande escritor, mas ela não os conhecia e, o que era ainda pior, nom sabia quem era o tal Fernando Portas. Insistia que não o vira na sua vida.
 Como assim? perguntou o Avílio. Tem que o conhecer. Não é possível que ele escrevesse poemas para uma mulher que não conhecia. Leia algumas das descrições físicas que ele faz de si. Reconhece-se nelas?
Havia um poema em que falava das suas sardas e dos seus olhos quase violetas. A Edelina teve que reconhecer que ela era assim. Parecia que sim, que ele a conhecia. Como era possível?
 Desculpe, tem alguma foto do poeta em questão? Se o vir, talvez possa reconhecê-lo pediu a Edelina.
 Claro, tenho cá várias fotos na pasta. Vou-lhe mostrar.
O Avílio tirou várias fotos da pasta e mostrou-as à mulher. Existiam bem poucas fotos do genial poeta, todas elas autofotos, provavelmente feitas com o computador. Ela, assim que as viu, mudou a expressão do seu rosto e pediu ao estudioso que abandonasse o seu lar imediatamente e que já o chamaria. Reconhecera o poeta, sim. Bastardo, como a tinha enganado.
Quando o Avílio Diz já não estava em casa, a Edelina saiu para o jardim e assobiou. Logo apresentou-se perante ela um carlino. Fitou para ele seriamente. Depois pegou  nuns grossos óculos de sol, improvisou umha barba com lã, pôs-lhe um gorro também de lã que cobriu a metade da sua cabeça e meteu-lhe um cachimbo na boca. Sim, era ele, o Fernando Portas. Maldito cão, que bem se sabia disfarçar. Depois disse ao animal:
 Cão ruim, ficas castigado duas semanas sem computador e sem internet... Outra vez tiveste que enviar os teus poemas a uma editora e ganhar três prémios... E não me ponhas essa cara, embora me dediques os teus poemas, não te comportas como se comportaria um bom cão, entendes?
O cão gemeu, deixou-se cair na erva e suspirou babejando, mas se calhar já com alguns versos na cabeça por causa da sensação de um amor não correspondido.

Frantz Ferentz, 2014