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sábado, 25 de janeiro de 2014

SUBLIMANDO O AMOR


Esta história está inspirada
em factos reais, embora o seu
desenvolvimento seja fictício

A Lena assumira só parcialmente o ser lésbica. Educada e crescida no seio duma família católica numa povoação afastada da urbe, no planalto mais católico do sul da Europa. Porém, ela sabia que não gostava de homens, sentia-se atraída por mulheres. Além disso, gostava de levar os cabelos curtos e gastar um aspeto masculino, até no vestir.
O padre, dom António, conhecia-a desde o berce. Conhecia os seus pecados e as suas deviações. Porém, o padre era um homem de bom caráter que não queria fazer escândalos com a questão sexual da sua paróquia. Mas quando a Lena chegou aos trinta anos de idade e a sua “doença” era notória para a povoação, dom António considerou que tinha que falar com ela sobre a procura de ajuda.
— Tenho ouvido que há terapias para sanar o lesbianismo... No bispado podem dar-te informação acerca disso comentou-lhe numa ocasião no confissionário.
Ela estava ciente do que lhe vinha em cima. Não podia ir-se da vila porque tinha que se ocupar dos negócios da família. Se alguma vez uma mulher se cruzar no seu caminho, não seria decerto ali. Haveria de aceitar que o seu destino era ficar sozinha, sem companhia doutra mulher com que passar o resto dos seus dias, porque naquela vila nunca poderia viver a sua sexualidade com normalidade.
E entretanto, entrou na política. Para justificá-lo, tinha explicado ao padre:
— Se não posso ter o amor duma mulher, terei o amor da pátria.
Ao padre pareceu bem aquela opção. Amar a pátria era um valor. Precisamente as pessoas amavam cada vez menos a pátria e por isso o país piorava sem remédio. A Lena sempre tinha sido uma patriota, mas nunca o manifestara dum jeito demasiado evidente. Porém, a partir de se converter em presidenta da câmara, o seu patriotismo multiplicou-se por dez. Uma bandeira nacional ondeava sempre na varanda de sua casa, gostava de levar camisolas com a bandeira nacional e até se uniu a um grupo que defendia a espanholidade de Gibraltar nas redes sociais, ainda que, ao mesmo tempo, também participasse noutro pela defesa dos direitos dos homossexuais, porque ela tinha bem clara a sua identidade sexual. Porém, se não havia mulher que a amasse, sim estava a pátria. Provavelmente noutros tempos teria entrado num convento, mas ela não se via com energias para isso, aliás era mulher de ação, não de contemplação, que como máximo passaria as horas a fazer doces numa cozinha diante dum claustro com colunas românicas. Não, isso não era o seu. Porém, a pátria era um ideal, incarnava uma série de valores universais que existiam na sua família, era fiel, eterna, imensurável...
O patriotismo da Lena levou-a a favorecer atos patrióticos na vila. Mas aquilo alcançou um grau de fervor patriótico inaturável para os bons cidadãos que nem entendiam por que a povoação estava cheia de bandeiras nacionais, porque todos tinham que demostrar o seu amor à pátria dalguma maneira, porque se faziam concursos de poemas de louva à pátria quase todas as semanas, porque havia dinheiro para organizar visitas a monumentos históricos da pátria, mas não o havia para fazer obras na escola. Ninguém entendia como a Lena podia, desde o Câmara Municipal, impor-lhes aquele patriotismo feroz, extemporâneo mesmo, mas era assim.
Tanto descontento chegou logo aos ouvidos de dom António. O bom padre tinha que ouvir lamentações constantes, dentro e fora do confissionário, sobre o comportamento da Lena. Pediu iluminação ao espírito santo para lhe inspirar uma solução. E na pregária encontrou-a, embora não fosse o que ele teria esperado. Porém, os caminhos do Senhor dizem que são infinitos e inescrutáveis. Portanto, dom António ia seguir os mandados do Senhor e assim saíu da povoação naquela madrugada sem ninguém na vila notar a sua desaparição.
Dois dias depois, a Lena ia confessar-se com o padre.
— Padre, estou contente. Sublimei a minha sexualidade graças à pátria...
— Olha que bom. Mas na vila não estão muito contentes com o teu patriotismo exacerbado.
— É que eles não entendem...
— Se até parece uma religião o teu modo de viver o patriotismo.
— Nom exagere, padre.
— Queres vir tomar o café hoje à reitoral? Tenho uma assistenta nova em casa. Eu já vou velho e houve de trazer alguém que se ocupe de mim em casa... Assim conhece-la.
A Lena aceitou o convite do padre. Muito devia àquele homem.
Acudiu pontual ao encontro. Levava mesmo uns bombons na mão. Abriu-lhe a porta da reitoral uma mulher algo mais nova do que ela. Tinha uns lindíssimos olhos cor de avelã. E o sorriso, o sorriso era já umha provocação ao sexo mais implacável...
— Como te chamas? —perguntou a Lena.
— Inma...
Naquela mesma noite, a Lena e a Inma tiveram a sua primeira noite de paixão, a primeira de muitas. Pouco a pouco, o fervor patriótico da Lena desinflou e os seus concidadãos começaram a respirar mais tranquilos, voltando para as suas rotinas.
Uma semana depois, a Lena foi confessar-se:
— Padre, afinal pequei com outra mulher...
Dom António apreendera a aprezar os aparelhos de MP3. Eram ótimos para as confissões como aquela, nomeadamente quando a Lena lhe contava os pormenores do sexo com a Inma, porque ele escutava música música sacra, é claro, enquanto ela contava o que ele não queria ouvir, e o que não se ouve, não é pecado. E assim, quando ela acabava de contar os pecados, dom António lhe impunha uma pequena penitência, dizia-lhe “não peques mais” e ficava à espera dela até a próxima semana, mas ele bem sabia que aquela mulher, depois de um tempo, deixaria de ir confessar o que era inconfessável.

Frantz Ferentz, 2014