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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

PALAVRA DE MULHER

Quando a Ewa Schmidt abriu a plica do poemário ganhador e viu o nome real do autor, E-567_FX, pensou que era uma brincadeira. Mas quando continuou a ler o resto da informação do envelope selado, descobriu com surpresa que se tratava de um computador, um que tinha instalado um programa para criar poesia. Portanto, um computador tinha ganhado um prémio de poesia para mulheres! Como nas bases do prémio só dizia que não podiam participar homens, mas não dizia nada de computadores, a situação era inaudita. Ademais, aqueles poemas eram extraordinários, seria lástima deixá-los perder, principalmente por como descreviam a essência feminina. Por isso, a Ewa perguntou ao resto das mulheres membros do júri:

— E vós que pensais deste computador: é macho ou fêmia?
Frantz Ferentz, 2014

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

TUDO SE REDUZ À NATURA DOS BOMBONS


Encontras uma canção no Youtube e lembras-te de alguém que gosta do seu cantor. Pensas que depois de tanto tempo sem contato seria bonito teres um detalhe e enviares-lhe essa canção, porque a vossa amizade foi muito importante e ainda pensas na amiga com carinho. Então começas um curso intensivo de como transformar um vídeo para MP3. Dedicas três ou quatro horas a ler tutoriais e a fazer provas com programas que descarregas. Deixas de fazer muitas coisas nesse dia por converteres a canção em vídeo para formato de áudio, mas estás emocionado porque esperas que assim a amizade se reative. E finalmente, depois de quatro horas e meia, consegues converter a canção daquele cantor. E envias para a amiga da qual ainda conservas o seu número de telemóvel. E vês como ela recebe o presente, porque o diz o programa. E a amiga responde. Sentes-te emocionado. Lês a sua resposta:

«Obrigada, mas já conhecia esta canção».

E tu, que felizmente não consegues ver a tua própria cara de estúpido, ainda adicionas:

«Não faz mal, é apenas para a teres no telemóvel».

E pensas noutra coisa: «Oi, se parece que nevou...» E consolas-te a pensar que a vida, como dizia Forrest Gump, é como uma caixa de bombons, nunca sabes que sabor terá um bombom até não o provares. Mas tens que arriscar, e por vezes os bombons nem são mesmo bombons (e isso já não o dizia Forrest Gump).


Frantz Ferentz, 2014

UM CONTO (MAIS) DA MAGIA DO NATAL


A Agustín Sánchez Antequera
por me pedir cousas impossíveis

— Mamá, aqui onde estou, está a nevar —disse o pequeno Agostinho pelo telefone.

—  Então, traz-me um pouquinho de neve, num frasquinho  — pediu ela.

E o Agostinho, todo contente, saiu para a rua e meteu toda a neve que foi capaz num frasquinho. Encerrou-o bem e a seguir meteu-o na sua mala. Assim, quando oito horas mais tarde estava de volta em casa, depois de beijar a mãe, o primeiro que fez foi tirar o frasquinho de neve para fazer aquele presente à mãe.

— Toma, a tua neve  ofereceu.

Mas o frasquinho, como era de esperar, apenas continha água. O miúdo ainda era pequeno demais para entender qual o comportamento das leis da física quanto à mudança de estado

— Mamá, já não há neve disse decepcionado.

A mãe agitou o frasquinho, pronunciou umas palavras num velho idioma, tirou a rolha e deixou que a água do frasco saísse, e enquanto caia, já se tornara faloupos de neve.

— E isso que é? — perguntou o pequeno Agostinho fascinado.

— É magia, meu rei — explicou a mãe feliz de ver o sorriso do filho.

Mas nesse instante bateram na porta. Tratava-se de cinco funcionários do Governo vestidos de preto, com óculos de sol também pretos.   

—  Senhora, vamos arrestá-la por fabricar neve sem permisso e com artes mágicas.

Quando o Agostinho viu que punham umas algemas à sua mãe, reagiu como filho de bruxa que era e emitiu uma poderosa luz que inundou a sala uns segundos.


*  *  *

Agora, ninguém se explica como fazem para a neve cair sem interrupção em pequenos flocos sobre o presépio familiar, como fazem para que seja neve real, que procede de uma nuvem com um frasquinho dentro e que flutua por cima do presépio. Mas o que os visitantes da casa entendem ainda menos é por que os cinco soldados romanos vestem fatos pretos e levam óculos de sol também pretos. 

Frantz Ferentz, 2014

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

AQUELE GRANDE HOMEM

O grande Vassili Portell, homem de grande talento e imensa obra artística, foi sentado à direita do altar. Os grandes homenageados, como ele, requeriam de lugares importantes; na vila só tinham um lugar importante, grandioso, capaz de acolher um hóspede importante como aquele: a sua igreja românica com séculos de história.

Vassili Portell esquecera trazer os óculos. Não se importava. Os óculos, porém, davam-lhe uma imagem de homem idoso que ele não queria transmitir. Contudo, enquanto falava o presidente da câmara e vários vultos mais, o Vassili quis falar com a assistente de congressos que tinha ao seu lado. Desprendia um cheirinho muito agradável. Ia demostrar-lhe que ele, com mais de sessenta anos, nem só era um galã, mas também um amante incrível. Ela permanecia imóvel ao seu lado, enquanto ele largava todas as ocorrências próprias de um génio que saíam em murmúrios pela sua boca.

«Esta moça gosta de mim», pensou o Vassili. «Acho que lhe vou passar o meu número de telemóvel...»

Porém, quando estava para chegar o momento do seu discurso, veio o seu secretário para o avisar:

— Dom Vassili, prepare-se já... e deixe de falar entre sussurros, que parece que queira cortejar uma mulher.

E Vassili Portell, génio e figura, ainda replicou:

— Se tiver dez minutos mais, tenha certeza que cortejava esta mocinha aqui ao meu lado...

O secretário calou. Conhecia bem o fulano. Não ia arruinar a sua auto-estima num dia como aquele exlicando-lhe que aquela que estava ao seu lado não era uma assistente de congressos, mas uma estátua da virgem do Remédios.

Frantz Ferentz, 2014

CASO DESESPERADO



Na rua, no trabalho, no lazer, todos diziam que era preciso desprezar aqueles que usavam o galego, que aquele idioma era um câncer para a sociedade galega. Ele mesmo, durante meses e meses, tentou passar a língua do seu pensamento para o castelhano, mas foi-lhe inútil, não dava mudado a língua. Por isso, já desesperado, ligou para o oncólogo, talvez ele lhe encontrasse aquele câncer algures e o facto de se expressar em galego fosse algo extirpável cirurgicamente.


Frantz Ferentz, 2014

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

DE FARRA COM O KAFKA


   — O tal Kafka e eu somos bons amigos. Temos ido muitas noites de farra juntos, ali perto do castelo, nas tavernas de Hradčanska onde não chegam os turistas... Passamo-la à grande juntos, ele conhece sítios de Praga que ninguém mais conhece.
   — Mas o Kafka morreu há por volta de 90 anos. Você não pôde conhecer o Kafka!
   — O Kafka não é esse tipo que escrevia estórias muito esquisitas?
   — É, mas ele morreu em 1924.
   — Com certeza é ele com quem eu tenho saído de farra. E com aquele seu amigo estranho, aquela barata gigante que só bebe mosto e nunca se embebeda... Que grande tipo o Franz, que grande tipo, embora nunca diga nada e pareça todo ele feito de bronze...

Frantz Ferentz, 2014