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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

PAIXÃO NA SOMBRA

A sombra dela projetava-se sobre a fina cortina. Ela, a atriz, a mussa, a deusa dos homes de meio país, falava distendidamente com todos aqueles que se achegavam até ela para gabá-la, pois era o que se esperava naquela situação.

Ele achegou-se até ela polo outro lado da cortina. A sombra dela remexia suavamente na cortina com a leve brisa que entrava por uma janela próxima. Ele começou a falar à sombra. Falou-lhe palavras de amor, de paixão, palavras de ternura, palavras de home sucumbido à uma mulher que era tudo para ele.

Porém, ela, a mussa, ouviu aquelas palavras, embora fossem sussurros. A sua vaidade fezo com que sorrisse, estava afagada. Quiso saber quem era aquele home que não tinha a coragem de lhe falar à cara e sussurrava à sua sombra por trás duma cortina.

De repente ela correu a cortina, com uma taça de champanha na mão. Viu que se tratava de um pobre homem, um ninguém, um resíduo social que não pertencia à sua casta. Ela sorriu maliciosamente e dixo num tom que podia soar mesmo sádico:

— Fale, fale à minha sombra porque isso é tudo quanto obterá de mim. 

Ele espetou os seus olhos nos dela e dixo-lhe:

— Desculpe, mas eu não falava consigo, falava efetivamente com a sua sombra. Ela sim é sincera, não como a senhora.

Ela virou-se cheia de fúria e começou a estragar todas as luzes da sala com o taco do seu sapato esquerdo. Não, não queria concurrência.


Frantz Ferentz, 2013

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