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sábado, 28 de dezembro de 2013

O BOM BISPO E OS POBRES, AMÉM

O senhor bispo não gostava da injustiça, e menos ainda se procedia de médios hostis com a Igreja. Acusavam-no de não se preocupar com os pobres, com os miles de probres, cujo número aumentava a cada dia com a crise e as nefastas políticas do governo conservador.

—A igreja é a instituição que mais se preocupa por eles —dixo o bispo. Rezamos por eles todos os dias.

E um jornalista, provavelmente influenciado polo diabo, retrucou ao senhor bispo desde o seu jornal, também suspeitosamente sob a influência dos infernos:

"Não sejam hipócritas, saiam às ruas para ajudar os pobres!"

Mas o bispo viu naquilo uma palavra divina, embora vinhesse através dum filho de Satão e convocou uma jornada de pregária polas famílias pobres. Trezentos mil euros investidos em infraestruturas para acolher a pregária no centro da capital. Dúzias de milhares de fiéis a orarem polas famílias pobres, mas nenhum pobre lá perto.

Porém, aquele jornalista cujo coração estava possuído polo ódio do diabo não ficou contente perante aquela manifestação de fé e ainda perguntou através do seu jornal ao bom bispo:

"Porque investirem trezentos mil euros para orarem polos pobres no meio da rua? Deiam o dinheiro diretamente aos pobres!"

Mas aí já o bispo sim viu a mão de Satão em estado puro e respondeu-lhe numa carta pastoral:

"Não daremos o dinheiro diretamente aos pobres, porque o malgastariam..., por isso rezamos por eles, que é o verdadeiramente útil. Ou demostrem que as nossas orações não evitam que a cada dia haja mais pobres, demostrem-no!"

Frantz Ferentz, 2013
(baseado em factos reais)


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O PREÇO DA CIÊNCIA


O seu diretor da tese explicou-lhe que não conseguiria cobrir uma folha da sua dissertação sobre os motivos que conduzem um suicida a se quitar a vida sem se meter na cabeça de um deles.

O doutorando, diligente, seguiu aquele sábio conselho e conseguiu meter-se na cabeça dum suicida. E entendeu por que se quitava a vida, mas já não puido evitar lançar-se ele próprio desde um oitavo andar para a rua. A tese ficou inacabada.



Frantz Ferentz, 2013

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O SEGREDO DOS CABELOS LOUROS


Cada noite que vinha totalmente bêbado, quando voltava à casa, agarrava a mulher e botava-a na cama para ter sexo com ela, brutal, implacavelmente. Depois de ejacular, caía adormecido e de manhã já não lembrava nada, até a seguinte bebedeira, em que voltaria a ser uma besta. De nada servia a ela tentar afastar aquele fedor a álcool e aquela força de animal que lhe esmagava as entranhas, enquanto ele lhe dizia com aquela voz etílica insofrível:

"Quanto gosto do teu cabelo louro, minha puta..."

Porém, surpreendentemente, um dia cessou toda luta dela. Já não houve oposição, já não houve umas mãos que detivessem aquela violência. Já o esperava passivamente o sexo na cama.

Ele morreu uma madrugada na cama depois de copular, exausto. Ao seu lado havia uma vassoira de pelos amarelos, envolvida em farrapos que tentavam reproduzir torpemente um corpo humano, com uma bola de goma na parte de embaixo que tinha um burato, dentro do qual se armazenava o sémen do homem. No rosto do homem havia um amplo sorriso. Morrera bêbedo, mas via-se que morrera satisfeito.


Frantz Ferentz, 2013




sábado, 21 de dezembro de 2013

TARDE DEMAIS


Afinal reconheceu que o dele era pura preguiça, uma preguiça que alcançava quase o infinito, e assim, depois de tantos meses, tomou medidas. Então descobriu que o seu mundo mudara muito mais do que ele nunca teria imaginado. De facto, fora viver com outras pessoas para outra cidade noutro país, mas descobrira-o demasiado tarde, comprendeu então que deveria ter limpado muito antes os óculos. Maldita preguiça...

Frantz Ferentz, 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

APARÊNCIAS


"Tem que ser aqui", pensou. O tipo entrou hesitante na sala. Não petou na porta porque não fazia falha. Dentro, um grupo de pessoas estavam reunidas em círculo.

Tomou ar e falou decidido:

"Olá, chamo-me Quim e sou imbécil".

Todos os presentes erguêrom a vista. Havia desagrado nos seus olhos. Havia inimizade, desprezo e até chacota nalgum dos presentes por aquela triste entrada. Fôrom uns segundos de tensão, até quando o que parecía o responsável pola sala se ergueu e acenou para a esquerda mentres dizia:

"Imbéceis anónimos é por ali, duas portas mais alô polo corredor. Aqui somos cretinos anónimos, ou é que não o nota?"

Frantz Ferentz, 2013

sábado, 14 de dezembro de 2013

PRECIPÍCIO



Caio ao baleiro. A cada vez vou mais depressa. Não vejo o chão, mas o meu coração já bate de terror a pensar no golpe contra a terra. Quero berrar mas da minha boca não sai berro nenhum. Quero chorar mas tenho esquecido como é que se fai. De repente, soa o despertador. Acordo. Inconscientemente bato com a mão no despertador e este cai ao chão e estraga. Fico aliviado. Tudo fora um pesadelo.

O despertador, desde o chão, espeta-me com voz queixosa:

— É assim como me pagas por te ter quitado desse pesadelo?Agora vais ver...

De repente volto a me topar em queda livre, mas agora já vejo o chão e intuo que o golpe vai ser mortal...

Frantz Ferentz, 2013

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

PAIXÃO NA SOMBRA

A sombra dela projetava-se sobre a fina cortina. Ela, a atriz, a mussa, a deusa dos homes de meio país, falava distendidamente com todos aqueles que se achegavam até ela para gabá-la, pois era o que se esperava naquela situação.

Ele achegou-se até ela polo outro lado da cortina. A sombra dela remexia suavamente na cortina com a leve brisa que entrava por uma janela próxima. Ele começou a falar à sombra. Falou-lhe palavras de amor, de paixão, palavras de ternura, palavras de home sucumbido à uma mulher que era tudo para ele.

Porém, ela, a mussa, ouviu aquelas palavras, embora fossem sussurros. A sua vaidade fezo com que sorrisse, estava afagada. Quiso saber quem era aquele home que não tinha a coragem de lhe falar à cara e sussurrava à sua sombra por trás duma cortina.

De repente ela correu a cortina, com uma taça de champanha na mão. Viu que se tratava de um pobre homem, um ninguém, um resíduo social que não pertencia à sua casta. Ela sorriu maliciosamente e dixo num tom que podia soar mesmo sádico:

— Fale, fale à minha sombra porque isso é tudo quanto obterá de mim. 

Ele espetou os seus olhos nos dela e dixo-lhe:

— Desculpe, mas eu não falava consigo, falava efetivamente com a sua sombra. Ela sim é sincera, não como a senhora.

Ela virou-se cheia de fúria e começou a estragar todas as luzes da sala com o taco do seu sapato esquerdo. Não, não queria concurrência.


Frantz Ferentz, 2013

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O PERCURSO DE UMA LÁGRIMA



"...e uma lágrima..." cantava Dulce Pontes. Casualidade? Talvez. A lágrima começava a descer pela cara, sim. E na mão, o telefone. No telefone uma pergunta: "confirm deletion?". Dulce Pontes continuava aquele fado tantas vezes ouvido, mas ao mesmo tempo tão real. No telefone, depois de um século contido em dez segundos, o dedo confirmou. O número ficava definitivamente apagado. Apagado para sempre. Aquele dedo sentiu que pertencia a um criminoso. O cérebro do homem largou uma porção de adrenalina. Para quê? Talvez para nada. Os lábios do homem tremeram. Não houve voz. A lágrima seguiu o seu percurso na procura de um hipotético mar ao final da boca. 

"Não te atormentes mais", disse-lhe a irmã". Não assassinaste o Mandela. Só enviamos o pai e a mãe a uma residência, já não moram lá, já não têm aquele número de telefone". 

O homem acompanhou a Dulce Pontes no Fado, no percurso da lágrima. Não havia fozes onde acabar. Tudo era pranto. Talvez não se sentiria tão mal se tivesse assassinado Mandela em vez de ter enviado os pais a uma residência. Talvez. Porém, só podia seguir o imprevisível percurso da lágrima que seguia a cair polo seu rosto.

Frantz Ferentz, 2013