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sábado, 26 de outubro de 2013

DILEMA DE MULHER


Ela estava provocativa naquela noite:

— Gostas de mim? —perguntou ela mimosa.

— Muito —disse ele beijando o seu pescoço de veludo.

— Gostas mais de mim do que da cerveja?

Lá ele detevo-se. Era uma pergunta com trampa. Não ia cair nela. Só estirou uma mão e apanhou a garrafa de cerveja que tinha ao lado. Depois verteu a cerveja toda por cima da cabeça dela até enchoupá-la. Meio litro. A seguir, ele voltou a beijá-la, agora nos lábios molhados de cerveja, enquando dizia:

— Para que vou ter que escolher, se podo ter tudo quanto gosto junto: tu com sabor a cerveja...


Frantz Ferentz, 2013

O BERRO

O Libório saíu à balconada do seu apartamento assim que se ergueu cedo pola manhã. Encheu os pulmões de ar e depois berrou com todas as suas energias:

— Merdaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa a Felíciaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

Aquele jorro de voz assolagou toda a cidade. Não era comum que um ser humano tivesse tal potência de voz, mas o Libório estava farto da sua vida de escravo e a única opção de rebeldia que lhe ficava era berrar aos ares da cidade a sua impotência, aquela que não podia berrar àquele chefe remoto, aquele que dirigia os destinos de dúzias, centenares de trabalhadores desde um gabinete na planta vigéssimo-quinta duma empresa chamada Felícia.

Depois do berro de desafogo, o Libório tomou o almoço, vestiu-se e foi trabalhar, seguindo a rotina infernal que marcava os seus dias úteis. Porém, naquele dia ia ter uma surpresa. Uma nota do chefe supremo esperava-o na sua mesa. Era convocado por ele. O coração do Libório latejava depressa. Por um instante começou a pensar que aquele berro chegara aos ouvidos do seu chefe. Era impensável, absurdo, mas o temor estava ali.

O chefe recebeu-o com um sorriso nos lábios. Parecia mesmo humano. O gabinete fedia a fumo de charutos, charutos caros, mas o Libório odiava aquele cheiro.

— Não darei rodeios —dixo o chefe—, chamei-o polo seu berro desta manhã, que parece ser que o sentiu toda a cidade...

Aí o coração do Libório entrou em taquicárdia.

— Verá, eu queria que você registre com a sua voz um grito parecido com o que deu esta manhã... Porém, tem que berrar «Viva a Felícia», alongando o primeiro "i". O que diz?

— Se o senhor o encontra interessante...

— Encontro. Verá, por isso, imos pagar-lhe dous mil euros. E usaremos o seu grito para a sirena das nossas fábricas. É muito mais agradável ouvir um grito humano potente do que um rugido artificial. E ademais, você tem voz de barítono, não sabia?

O Libório aceitou. Como não ia aceitar. E registrou a sua voz. Por uma vez, o Libório conseguira ganhar algo no trabalho. Por uma vez, a sua coragem dera resultado, embora fosse berrando aos ares. Por uma vez aquele empresário ia usar a cabeça para ganhar dinheiro e não foder mais a vida dos trabalhadores. E assim, depois de registrar a sua voz, voltou para o trabalho. E então, acima da sua mesa encontrou um envelope com uma carta de despedido. O motivo: ter caluniado publicamente a empresa.

Frantz Ferentz, 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

POR AMIZADE

A sua era a solidão era imensa e, portanto, era a solidão mais triste. Não o visitava ninguém. Não o cumprimentava ninguém. Ninguém queria ter tratos com ele, com o Nel. A solidão era, já que logo, a sua única companheira. 

Até aquele dia.

Foi na fim do verão. Na sua casa entrou um mosquito. Já estava muito débil, porque o seu tempo vital estava para acabar. Voava pouco, apenas zumbava perto do ouvido do Nel. Durante duas noites, o homem sentiu como o inseto dava voltas no ar perto da sua orelha. Aquele zumbido que enerva as pessoas, soava, porém, a música celestial ao Nel.

O homem decidiu sacar-se ele próprio o seu sangue. O mosquito devia estar tão débil que nem força tinha para chupar-lhe o sangue. Com todo o amor depositava umas pingas de sangue de seu num vidro na mesa de noite. Até adicionou um pó vigorizante ao sangue para o mosquito prolongar a sua vida, para o seu zumbido ser um sinal de companhia na vida do Nel.

Aquel mosquito foi o único amigo do Nel. Alongou a sua vida tudo quanto lhe permitiu a sua natureza com alegres zumbidos noiturnos. O Nel foi feliz durante aquelas semanas. Sentiu-se querido, respeitado; sentiu-se mesmo humano. Até que, com os primeiros frios, o Nel descobriu uma manhã o corpo do mosquito inerte sobre a sua almofada. Estava morto. O Nel até deixou cair umas bágoas em memória daquele seu único amigo. Sentiu-se ainda mais miserável.

Porém, o Nel estava daquela longe de imaginar que a sua sorte mudaria com a volta da calor do verão. O bom amigo mosquito, num último esforço, deixara-lhe o melhor presente que pode deixar um amigo a outro: ser responsável pola sua própria descendência. E sim, as larvas do mosquito iriam eclosionar no líquido sanguíneo do Nel assim que chegar o momento e, talvez, quando chegasse a hora, elas berrariam ao homem na linguagem inaudível dos mosquitos: «olá, mamá». E o Nel voltaria a ter companhia, já não na casa, mas no seu próprio corpo.

Frantz Ferentz, 2013

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A PERNA DE UMA DEUSA


O engarrafamento era um engarrafamento padrão, dos habituais em Madrid. O problema é que eu já estava desacostumado aos engarrafamentos padrão desde que vivia fora da cidade.

Naquele dia, fixara um encontro com uma velha amiga no bairro de Salamanca e tinha que ir de carro. Estúpido de mim. Encontrei-me totalmente mergulhado no engarrafamento da tarde, de maneira que, a cada vez que metia a primeira, avançava um metro e depois retirava a velocidade para deixar o auto sem movimento, sentia a minha parte humana diluir-se. A cada vez mais sentia que fazia parte do auto, do engarrafamento e da hora ponta. E então os meus olhos fôrom para ela. Sim, ela, vestida com um vestido singelo, mas que ao mover-se me permitiu ver aquela perna esplêndida, a mais formosa que nunca vira. Ela era uma deusa, não lembro o seu rosto, só a sua perna direita, perna de deusa. Ficou registrada na minha retina. Adorei-a, apaixonei-me dela.

Porém, de repente a buzina de atrás soou. Os autos avançavam mais uns metros. Meti a primeira, avancei. Já não pude vê-la, mas continuei pola rua José Abascal avante. Enseguida notei que aquela perna me arrebatara a alma. Ao ter avançado, deixara ao lado dela a minha alma, aquela perna levara-a consigo. Mas o engarrafamento continuava e eu já quedara condenado a circular por ele sem fim por mor de ter perdido a alma.

Sim, fora para sempre condenado a vagar em engarrafamentos de Madrid por uma perna direita tão celestial, na rua José Abascal, como nunca, nunca na minha vida teria sonhado. Só quis pensar que talvez a minha condena não seria eterna, que talvez a única possibilidade de me salvar era que voltasse a encontrar aquela perna nalguma rua remota de Madrid. E aqui sigo, castigado a vagar num infindo engarrafamento por Madrid, dentro do meu auto, ao qual já não lhe fai falta gasolina porque o empurra a corrente de autos do engarrafamento, e passo a diário pola rua José Abascal, assim até que encontre de novo aquela perna e me roubou a alma...


Frantz Ferentz, 2013