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sábado, 7 de setembro de 2013

O ALFARRÁBIO DAS TRÊS VIDAS


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Encontrei a livraria por acaso. Estava escrito que a toparia, mas é capaz que ela me topasse a mim, como me acontece amiúde com as livrarias. Estava na Domplatz, a praça da catedral, de Passau. Num primeiro momento fixei a minha atenção na sé, mas bem logo reparei na livraria. De facto era um alfarrábio.

Fui atraído como por um íman para ela. Hesitei muito até que entrei. Não sei por quê, mas estava tímido. Finalmente entrei. E logo fiquei prisioneiro daquelas prateleiras cheias de livros, desde o chão até o teito. Maravilhas em papel. Precisaria duas vidas, quiçá três, para ler tudo quanto lá havia. Havia cinco salas, todas comunicadas. A entrada desde a rua estava na segunda. Os livros estavam perfeitamente arrumados. O ar cheirava a papel velho mas limpo. Senti o meu espírito crescer. E então lembrei umas palavras que lera numa bitácula digital: «Se o paraíso existir, o meu será uma biblioteca». Bom, pensei que me serviria um alfarrábio como aquele. 

Na seção de filologia encontrei um manual de introdução à filologia românica. Colhi-o. Caminhei polo resto das salas na procura do alfarrabista. Antes de entrar na quinta sala, ouvi uns passos que vinham ao meu encontro. Topei um homem de uns sessenta anos que transmitia elevação espiritual. Caminhava mas parecia flutuar.

Guten Tag —dixe eu—. Ich finde den Preis von diesem Buch nicht [=Bom dia, não encontro o preço deste livro].

Ele tomou-o suavemente das minhas mãos, quase que nem pareceu tocá-lo e mostrou-mo num recanto que me passara totalmente desapercebido. Notei o cheiro que emanava do homem. Tinha também aroma de papel, papel centenário mesmo.

Zehn Euro [= Dez euros].

Ich nehme es [=levo-o]

Tirei uma nota de vinte e ele devolveu-me dez. E quando estava para saír com o livro na mão, perguntou-me:

Wollen Sie eine Tütte? [= Quer um saquinho?]

Nein, danke. Auf Wiedersehen.

— Wiedersehen...

Encaminhei-me para a saída. E justo quando puse o pé no degrau, no limiar, mudei de ideia. Pensei que sim queria um saquinho, teria que levar o livro na mão. Virei-me e voltei ao interior da loja. Cheguei à quinta sala, mas estava vazia. Chamei:

Hallo!

E então ouvi aquel murmúrio suave às minhas costas. Vi com os meus olhos como um livro antiquíssimo saía de uma prateleira e ia tomando forma humana, até se converter no alfarrabista. Pensei que estava a ter uma alucinação. Eu ficara sem palavras, mas aquele homem de aspeto espiritual avançado parecia ler-me a mente:

Ihre Tütte [= O seu saquinho] —e estendeu-mo, sem eu nem sequera saber donde saía.

D... d... danke...

E voltei a me virar para ir embora, mas antes de sair pola porta, ouvi a voz do homem às minhas costas, que na altura já me falava na minha língua:

— O que tem visto é real. Se quiser, quando você morrer, pode vir aqui connosco. Sei que gosta da ideia de a sua alma ficar a viver entre livros. Ficam-lhe ainda três vidas até cumprir o seu ciclo espiritual. Mas por enquanto, leia, leia, leia... para a sua alma ser também leitura. Não achava que precisaria de três vidas para ler tudo quanto há aqui? Então, passe-as aqui e evite reencarnações...

Virei-me. Mas o alfarrabista já lá não estava, apenas tive vagar de ver como acabava de se transformar em livro e se colocava entre outros muitos livros. Só senti umas vozes que murmuravam, vozes que saiam dos livros, dúzias de vozes de dúzias de livros, vozes de brisa com letras. Saí dali. Fora, a minha esposa já esperava por mim.

— Tudo bem? —perguntou-me ela ao ver a minha cara de surpresa.

Eu apenas lhe mostrei o livro que acabava de comprar e disse-lhe:

— Encontrei a entrada ao Paraíso.

— Mas de que estás a falar? —estranhou-se ela—. Isso que acabas de comprar não é um manual de filologia românica?

— Não tudo é quanto parece —dixe em tom enigmático, mas ela não tinha vontade de discutir comigo, apenas queria uma cerveja e encontrar uma casa de banho pública onde urinar, porque já tinha urgência.

Frantz Ferentz, 2013

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