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terça-feira, 20 de agosto de 2013

A DURA VIDA DO TRADUTOR



A Cristina Rio López

A gestora de projetos colheu o telemóvel e chamou a tradutora, que na altura estava a sair da ducha com um bolo na mão, porque ia almoçar rapidamente antes de sentar diante do computador

— Olá cara —cumprimentou a gestora com o tom arrogante que já tinha preparado—. Queria falar contigo da última tradução que me enviaches, a que fizeches para o Ministério da Defesa. O corretor de estilo dixo que o teu texto era muito fraco, que havia incertezas lexicais e que tem múltiplas dúvidas que as tuas escolhas lexicais sejam as corretas. Queres que che envie uma listagem com os seus comentários? —e antes de esperar uma resposta, ja premeu no botão de envio polo correio eletrónico.

A tradutora ia dizer alguma cousa, mas nem tevo vagar enquanto mexia no rato para o computador acordar.

— Se a cousa continuar assim, vamos ter que procurar outro tradutor, não sabes? —a gestora usava um tom falsamente cordial que já tinha praticado muitas vezes e de cuja efetividade não tinha dúvidas.

Porém aí sim a tradutora interrompeu o monólogo da gestora:

— Você viu o texto que me enviaram?

— Como não ia ver, eu sou a gestora de projetos, a project manager se quiseres que cho diga em inglês...

— Penso que nem o leu. Abra-o —o tom da tradutora era duro, amargo e não dava lugar a réplicas. 

Algo no interior da gestora de projetos obrigou-a a abrir o texto original. Ali encontrou um texto que ela interpretou que estava em russo.

— Que quer que veja neste texto?

— Reconhece a língua? —preguntou secamente a tradutora.

— É russo, alfabeto cirílico, não é? —a gestora começava a ser um mar de dúvidas.

— Não, minha senhora, se olhar atentamente verá que são ícones de toda caste: notas musicais, frechas, símbolos matemáticos, algumas letras... É uma mensagem extraterrestre cifrada que eu fui capaz de traduzir. E ainda se lamentam? E ainda me pedem mais por 0,04 céntimos palavra? Ainda? 

Frantz Ferentz, 2013

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