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sábado, 31 de agosto de 2013

A DURA VIDA DO TRADUTOR (2)


Liga para mim a gestora:

— Precisamos a tradução que che enviei há uma hora para hoje à tarde, fica combinado? 

Mas eu antes tenho que dar uma vista de olhos ao texto. O "texto" é um arquivo de folha de dados onde há entradas em alemão, entradas em inglês, entradas mistas e entradas nalguma linguagem que pode responder à ressaca de quem escreveu aquilo ou bem de postagens em aramaico bíblico tomadas do Facebook que, por alguma razão inexplicável, acabaram naquele arquivo. O panorama é complicado. Explico à gestora: 

  Olha, cá tenho só palavras e frases. Eu preciso contexto. 

A gestora cala um bocadinho e depois diz: 

 Bom, se juntares todo num arquivo de Word, já o terás com texto. Poderás tê-lo para a segunda? —insiste ela

Sinto mais lástima dela do que de mim, porque não consigo fazer-lhe ver a diferença entre com texto e contexto na pronúncia, como em espanhol ela não poderia distinguir entre sintaxis e sin taxis, embora aí o con-texto ajudaria, porque analisar uma oração sin taxis não é igual do que analisá-la sin autobuses. Afinal digo-lhe que sim, que lhe envio a tradução para a segunda e ela fica contente. Porém, eu não, e fico preocupado porque parece que só eu me ocupo de cousas assim...

Frantz Ferentz, 2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O HOMEM PIEDOSO



O Kh. ama os animais porque é um bom crente e encontra que o criador colocou os animais na Terra por alguma razão. Isso explica por que o Kh. recolhe um gatinho abandonado na rua entre os restos de prédios derrubados rodeado de cadáveres. Sabe que sem a sua ajuda, o gatinho morrerá, talvez a mãe dele morreu ou abadonou-o, isso nem se sabe. Com todo o seu amor, alimenta o gatinho com um biberão. É tão lindo. O Kh. sai todos os dias de manhã para fazer a guerra aos inimigos do seu deus, mas quando volta pola noite encontra o seu gatinho à sua espera. O Kh. adora o seu gatinho, quase que diria que é seu filho. O animal gosta de adormecer entre as imensas barbas do Kh. É tudo ternura. Porém, o gatinho é de facto uma gatinha. É uma fêmea. Não se importa. Crê que o seu deus poso os sexos na Terra para se complementarem. Kh. recebe muito amor da sua gatinha e a gatinha do Kh. Até o dia em que o Kh. pensa que a gatinha já é madura. Tem que tomar uma decisão. Ama imenso esse animal, acha que é uma prenda do seu deus para aliviar a sua solidão de combatente. O Kh. toma então uma decisão segundo os princípios da sua fé: a gatinha ficará a viver com ele, mas terá que pôr um hidjab, porque é quase humana. Com todo o seu amor, ele próprio confeciona um hidjab adaptado para a sua gatinha e sabe que será do agrado do seu deus.

Frantz Ferentz, 2013

CASO IMPREVISTO




O avião de peregrinos que voava para A Meca atravessando o Círculo Polar Ártico tevo que fazer uma aterragem de emergência sobre o geio, numa zona remota e de dificil acesso, com ventiscas. Quando chegárom as esquipas de rescate dez dias mais tarde, topárom todos os peregrinos mortos, mas não a tripulação, que estava à espera das equipas de rescate.

— Havia comida para todos —explicou o comandante do avião, canadense anglo-saxão, ao chefe da expedição de salvamento—, mas como os peregrinos estavam de Ramadão, não quisêrom comer nem beber nada. 

— E logo?

— Acontece que durante o Ramadão não se pode comer nem beber durante as horas de sol, mas como aqui o dia dura seis meses e a noite outros seis, estes coitados tivêrom a desgraça de cair nos seis meses de dia e, portanto, não pudêrom nem comer nem beber, pois faltam ainda dous meses até a noite... E diga-me quem resiste tanto tempo sem comer nem beber...

Frantz Ferentz, 2013

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

CONSELHOS DA MÃE



O pobre infeliz foi internado num hospital psiquiátrico para toda a vida pola mania estranha que tinha de lamber todas as pessoas. Sempre que conhecia alguém, antes de dizer olá, lambia-a, normalmente na façula [bochecha], mas se não ficava convencido, lambia por outras partes do corpo. Por aquela sua mania, acabou na comissaria [estação] da polícia dúzias de vezes.

Até então. Então os psiquiatras declarárom que o tipo estava louco e o juíz determinou que representava um perigo para a sociedade. Porém, a ele não o deixárom explicar-se. Nunca. Outramente teria exprimido que não fazia mais do que seguir o conselho da sua sábia mãe, quando lhe dizia que todas as pessoas são, no fundo, doces, que o importante é saber encontrar-lhes o ponto de doçura.

Frantz Ferentz, 2013

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A DURA VIDA DO TRADUTOR



A Cristina Rio López

A gestora de projetos colheu o telemóvel e chamou a tradutora, que na altura estava a sair da ducha com um bolo na mão, porque ia almoçar rapidamente antes de sentar diante do computador

— Olá cara —cumprimentou a gestora com o tom arrogante que já tinha preparado—. Queria falar contigo da última tradução que me enviaches, a que fizeches para o Ministério da Defesa. O corretor de estilo dixo que o teu texto era muito fraco, que havia incertezas lexicais e que tem múltiplas dúvidas que as tuas escolhas lexicais sejam as corretas. Queres que che envie uma listagem com os seus comentários? —e antes de esperar uma resposta, ja premeu no botão de envio polo correio eletrónico.

A tradutora ia dizer alguma cousa, mas nem tevo vagar enquanto mexia no rato para o computador acordar.

— Se a cousa continuar assim, vamos ter que procurar outro tradutor, não sabes? —a gestora usava um tom falsamente cordial que já tinha praticado muitas vezes e de cuja efetividade não tinha dúvidas.

Porém aí sim a tradutora interrompeu o monólogo da gestora:

— Você viu o texto que me enviaram?

— Como não ia ver, eu sou a gestora de projetos, a project manager se quiseres que cho diga em inglês...

— Penso que nem o leu. Abra-o —o tom da tradutora era duro, amargo e não dava lugar a réplicas. 

Algo no interior da gestora de projetos obrigou-a a abrir o texto original. Ali encontrou um texto que ela interpretou que estava em russo.

— Que quer que veja neste texto?

— Reconhece a língua? —preguntou secamente a tradutora.

— É russo, alfabeto cirílico, não é? —a gestora começava a ser um mar de dúvidas.

— Não, minha senhora, se olhar atentamente verá que são ícones de toda caste: notas musicais, frechas, símbolos matemáticos, algumas letras... É uma mensagem extraterrestre cifrada que eu fui capaz de traduzir. E ainda se lamentam? E ainda me pedem mais por 0,04 céntimos palavra? Ainda? 

Frantz Ferentz, 2013

LÓGICA PARLAMENTAR



O ministro de Agricultura, Pesca e Ambiente comparece perante o parlamento no mês de setembro para anunciar solenemente:

— Neste ano, sob o mandato deste governo do Partido do Povo, é quando menos superfície de bosques se tem queimado durante os últimos vinte verãos...

Ouvem-se múrmurios nas bancas da oposição, mas ninguém lhe berra "mentiroso", como noutras ocasiões os deputados adversários fizeram a alguns dos seus colegas do governo. O ministro contempla sorridente o panorama. Com os datos na mão, ninguém pode negar que as suas palavras são verdadeiras. São verdadeiras e exatas. E no seu interior, sente-se muito satisfeito de ter desenvolvido uma política ativa de acabar com os poucos bosques que quedavam no país, porque, se não há bosques, não há incêndios. Brilhante, simplesmente brilhante.

Frantz Ferentz, 2013

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

CARPE VERBUM


— Serei breve", começou a dizer o quinto palestrante, repetindo as mesmas palavras dos seus predecessores.

Já sem razões para viver, o último relogio sobrevivente à sessão declarou-se apóstata do tempo.

Frantz Ferentz, 2013

O MAIS ESTRANHO PAUTO COM O DEMO

— Tem certeza que quer assinar este contrato? —perguntou o diabo, quem ainda não podia acreditar que aquele tipo lhe quiger dar a sua alma.

Não havia dúvida para o diabo que a humanidade está a virar a cada vez mais estúpida. As pessoas antes vendiam a sua alma por riquezas, por amor, por poder, mas pola razão daquele tipo, era a primeira vez que o diabo tal cousa vira. Tanto foi assim, que cheio de dúvidas ainda lhe insistiu, porque, embora fosse o diabo, sentia mesmo lástima daquele infeliz que estava para lhe vender a sua alma:

— É a derradeira oportunidade: tem certeza que quer assinar um pauto comigo polo que me dá a sua alma para conseguir o que quer?

— Tenho absoluta certeza —dixo o tipo sem hesitar.

O diabo viu como o tipo assinava o documento. A seguir fezo-o desaparecer da mesa para ir ocupar um espaço no arquivo dos infernos. Despois olhou para aquele infeliz que acabava de perder a sua alma e dixo-lhe:

— Senhor Rodrigues, desde este momento já pode satisfazer o seu desejo. Já pode fazer trampas nos solitários do computador e ganhar sempre que quiser...

Frantz Ferentz, 2013