Páginas

domingo, 30 de junho de 2013

A MULHER QUE SABIA ABRAÇAR

Desde o mais profundo dos seus olhos verdes, Samira Mohamed sobrevivia a tudo na vida porque só sabia fazer uma cousa: abraçar. Sempre ia coberta com aquele pano escuro que lhe escondia a pele e luz dos olhos, mas nunca soubêrom entender como é que ela fazia para abraçar e ser abraçada.

Os olhos inquisitivos do sultão ignoravam que quando Samira Mohamed ia ao jardim do harém ao sol-por não abraçava nem homens nem mulheres (não os havia), mas abraçava árvores que a possuíam e levavam para a êxtase a misturar fluídos de seiva e de mulher.

Frantz Ferentz, 2013

sábado, 15 de junho de 2013

PAI DIVORCIADO


A filha adolescente ligou para o pai divorciado:

— Papá, nesta fim de semana tampouco vou visitar-te...

— Mas, filha, já vai um mês que não vens...

— Não te queixes, que depois ficarei um mês contigo nas férias.

— Sim, e onze meses com tua mãe.

— Oi, a rede vai mal aqui, não te escuto.

O pai mordeu os lábios de abaixo, com a impotência que lhe supunha ter que ficar só mais uma fim de semana, sem a filha. A sua ex, que era implacável com o dinheiro da pensão, dizia: «É o que diz o juíz», porém, quando se tratava de cumprir o estipulado polo juíz sobre as visitas, então usava outro argumento: «Não se pode obrigar a rapariga a fazer o que não quer».

O pai divorciado ficou a olhar para a janela, com os olhos húmidos. A filha, ainda do outro lado da linha dixo:

— Á, esquecia dizer-che que preciso douzentos euros para fazer um curso no verão...

O pai divorciado deixou esvarar a lágrima que desde havia minutos lutava por sair. E então decidiu que, se não podia ter sua filha, adoptaria um filho. E sabia onde o encontrar.

Quando finalmente a filha adolescente apareceu pola casa do pai, dous meses depois, topou algo inesperado no seu quarto.

— Papá, por que hai um caixeiro automático no meu quarto?

O pai, sorridente, explicou-lhe:

— Não é exatamente um caixeiro, é uma máquina de banca automática. Chama-se Paulina e é a tua nova meio-irmã. Acabo de adoptá-la. Fai o mesmo que tu, pedir-me dinheiro, mas polo menos fica aqui comigo todo o tempo.

Frantz Ferentz, 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A IMPORTÂNCIA DE SER ESCRITORA

Ela sentou diante do cinzento funcionário que devería tomar nota do seu pedido de inscrição:

— A senhora como se chama? —perguntou aquele tipo quase inaprezável.

Ela remexeu a sua cabeleira loira recém tingida e dixo:

— Rafaela Eleonora Micaela Picatti Dupont... escritora. Escreva-o assim, faga o favor, com a palavra escritora no início, diante do nome.

Ela não pudo comprovar se o triste e anodino funcionário tomava nota da sua observação, porque escrevia todo num computador, mas de repente o funcionário ergueu os olhos e acenou à escritora um teclado que havia diante dela, mentres lhe dizia:

— Poderia, por favor, a senhora teclear a sua profissão nesse teclado que tem frente a si?

— Já lho dixe: escritora.

— Eu sei, mas essa é uma caixa que debe cobrir o interessado, neste caso, a senhora. Por favor, escreva a sua profissão.

Ela hesitou um instante e, a seguir, entre sussurros, perguntou ao funcionário:

— Ouça, entre nós e em confiança, escritora escreve-se con "h" ou sem ela?

Frantz Ferentz, 2013

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A MULHER ETÉREA

Durante todo o tempo que passara a falar com ela, el tivo a impressão de que era a mulher máis etérea que nunca conhecera. Presentárom-lha como poeta romântica, o qual a ele fascinou ainda mais. Ela sorria ligeira, quase que falava sem voz. Ele estava entusiasmado. E quando chegou a hora de irem embora, ele quiso despedirse con dous beijos na façula. Ela não tivo tempo de reagir. Ele só dixo:

— Até a próxima —e beijou-a.

Ela, tal como era de esperar numa mulher tan etérea, depois do primeiro beijo diluíu-se, sem chegar mesmo a receber o segundo beijo. 

Frantz Ferentz, 2013

APRENDENDO DO MESTRE

O douto poeta olhava seriamente para o aprendiz de poeta, aquele mocinho com barba de três días que o escutava repousando na popa do moliceiro.

— A poesía tem que falar por si —dizia o douto poeta—. O poema fala para o leitor, só...bla, bla, bla... porque não é tanto o que diz, senão o que inspira... bla, bla, bla..., deixamos sair a palavra despida e senm ranhuras... bla, bla, bla... a gente deixa-se levar polo poema..., bla, bla, bla... de modo que essa é a clave. —concluíu o monólogo depois de dez minutos, justo quando o moliceiro tocava a ourela—. Aprendiches algo, não?

O poeta jovem, que não parara de olhar aos olhos do poeta douto só assentiu novamente com a cabeça. Graças ao douto poeta, fora capaz de aprender a desenvolver a capacidade mental mais incrível do ser humano: a de desligar o cérebro e assentir mecanicamente com a cabeça, sem inconsicentemente dizer: "aborreço..." E sim, nunca, nunca seria grato demais ao douto poeta por lhe ter aprendido aquela lição vital para o futuro.

Frantz Ferentz, 2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O NETO DE GREGOR SAMSA

Franz Kafka nunca chegou a refletir na sua novela d'A Metamorfose que o Gregor Samsa chegara a pôr uns ovos antes de morrer. Mas fizo-o realmente. Aqueles ovos, devidamente envolvidos em panos, fôrom levados para fora da cidade de Praga e abandonados à sua sorte a uma prudente distância da cidade, numa zona despovoada. Porém, aqueles ovos eclosionárom e deles nascêrom os filhos monstruosos do Gregor Samsa.

Um neto escaravelho —ou o que for— do Samsa voltou a Praga. Antes sofrera uma metamorfose inversa pola qual se convertera em humano. O neto do Samsa passou a viver como um vagabundo nas ruas de Praga, alimentando-se do que topava no lixo e vestido só com plásticos.

Aprendeu a viver como os humanos e acabou odiando-os. Chegou à conclusão que eram uma raça que merecia o extermínio. Daquela tentou criar um exército de cascudas e escaravelhos que acabassem com a humanidade. Inteirara-se de que os coleópteros eram imunes às armas nucleares..., mas não à comida lixo. Ele teria gostado de dirigir a guerra contra a humanidade, ele, que no fundo era um coleóptero atrapado no corpo dum humano...

— Senhor Samsa —dixo-lhe o psiquiatra da polícia depois de ser detido por estar a viver como um sem-teito—. Eu já sei qual é o seu problema, nem precisa dizer-mo.

— O senhor crê?

— Certo. É o seu corpo. Está atrapado num corpo que não lhe corresponde. E eu vou ajudá-lo.

O psiquiatra fizo internar o Samsa num psiquiátrico. E ao cabo duns meses, foi submetido a uma operação de mudança de sexo. 

Frantz Ferentz, 2013

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O HOME COM A CABEÇA BEM MOBILIADA


Ela casou sem hesitar con ele depois de ver um escáner do seu cérebro.

— Gosto de homens com a cabeça bem mobiliada —costumava explicar ela para justificar por que casara con aquele homem.

Do que ela nunca se decatara é que confundira o escáner cerebral dele com um plano do segundo andar dum armazém do Ikea. Porém, mesmo assim, sempre vivêrom muito felizes.

Frantz Ferentz, 2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

O DESAFÍO DE B. HOHLWEG

B. Hohlweg, célebre editor de poesía, gabábase de ter mantido relacións sexuais con case todas as mulleres poetas do país. Existía unha lenda urbana que afirmaba que B. Hohlweg conseguía todos os favores sexuais que quería, porque todas as poetas oficiais do país accedían a iso para conseguiren ser publicadas na súa editora.

Porén, unha resistíase, unha que sempre asinaba co alcume d'A Canceleira. Os seus poemarios eran moi aprezados nos círculos literarios, mais nunca se puxera en contacto co señor Hohlweg para ser publicada por el.

— Estás a perder pontos, sabíalo? Xa todos din que non estás en forma —comentou xocoso o seu parceiro, R. Truitas—. Aínda non conseguiches ir para a cama coa tal A Canceleira.

B. Hohlweg sentiuse profundamente ferido no seu orgullo.

— Apostas que antes de dous meses lle publiquei un libro à tipa e ademais follei con ela?

— Aposto, mais tes que o demostrar cunha foto.

— Aceito.

Un mes e medio despois, R. Truitas recibía no seu correo electrónico a capa do novo poemario d'A Canceleira e mais unha foto en que aparecía o seu parceiro B. Hohlweg na cama con dous homes, unha muller e un can, todos nus, despois de teren follado. Así chegou a saber que A Canceleira era, na realidade, un poeta colectivo: tres poetas, dous homes e unha muller que escribían a seis mans. E mais un can, porque sen o can, aos tres faltáballes sempre a inspiración. E se alguén quería follar coa Canceleira, tería que follar cos catro xuntos, tamén co can.

Frantz Ferentz, 2013

domingo, 2 de junho de 2013

O SEGREDO DO CARDEAL

Novamente, perante os olhos incrédulos de milhares de crentes, uma pomba pousou no ombreiro do cardeal.

— É um santo, é um santo, é um santo! —berrava a multidão.

As câmaras de fotos e as da televisão recolhiam como se repetia o fenómeno de uma pomba a pousar no ombreiro do cardeal. O cardeal era um home santo, sim sem dúvida. E o home da Igreja retirou-se para o interior da balconada, depois de ter saudado o rebanho de fiéis.

— A pombinha do caralho não me cagaria enriba como a última vez, não? —perguntou o cardeal quando já estevo só ao seu assistente.

— Não, eminência —dixo submisso o assistente.

— Hei reconhecer que tiveches uma boa ideia para limpares a minha imagem de escândalo —dixo o cardeal ao seu assistente mentres quitava os sapatos e punha os pés enriba dun coxim, e logo começava a se deleitar com um copo de vinho—. Foi molesto deixar que essas pombas mensageiras, ao nasceren, tivessem o seu ninho no meu ombreiro, mas é verdade que cada vez que as ceivam, vêm direitinhas para mim... Se até eu próprio quase acreditaria que é um milagre.

E deu outro grolinho ao vinho tinto de sabor afrutado e regusto penentrante.

Frantz Ferentz, 2013

IDENTIDADE SEXUAL E ENVEXAS

A Manuela e as súas dúas amigas sinceráronse. Durante a cea saíra o tema do lesbianismo. A Manuela insistira en que ela sempre tivera moi clara a súa sexualidade. A Xoana, unha das amigas, lesbiana recoñecida, insistía en que o 80% das mulleres levaban latente o lesbianismo.

— De verdade, non é o meu caso —insistía a Manuela—, mais hei confesarvos algo...

As dúas amigas prestaron aínda máis atención á espera de ouviren unha confesión.

— Cando cativa —proseguiu a Manuela—, quixen ser un neno para poder mexar de pé... Era só por envexa...

O home da Manuela, até daquela ausente da parolada, deu un grolo do vaso do viño e dixo:

— Agora entendo por que me obrigas a min a mexar sentado...

Frantz Ferentz, 2013