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domingo, 24 de fevereiro de 2013

PARANOIAS DO CORRETOR (1)


   Acudim ao doutor para lhe pedir a baixa por estresse depois dumha semana sem erguer o cu da cadeira a corrigir exames. O doutor tinha ar de ser cético de tudo o relativo às minhas doenças. Limitou-se a me tomar a tensom, escuitar o meu coraçom com o fonendoscópio e rotinas várias. Depois, começou a redigir un relatório, mas da que ia pola metade, ainda que eu o via do revés e ele tinha letra típica de médico, saltou o meu instinto e dixem-lhe:
   — Doutor, já lhe detectei quatro palavras mal escritas...
   O médico ergueu os olhos cara a mim de mau humor. Nom dixo umha palavra. Alçou-se da cadeira, colheu umha xiringa e começou a me extrair sangue do braço. Interpretei-no como umha espécie de vingança do galeno. Nesse momento, o sangue que ele esperava atopar resultou ser azul, azul escuro cor de tinta. Quedou como paralizado.
   — E se o analiza —expliquei—, verá como os meus glúbulos têm forma de letras... É-lhe grave, doutor?
   — Nom o sei ainda, mas com certeza é contagioso —respondeu ele, mentres na sua pele começavam a se formar linhas como orações completas, que parecían berrar-me: "corrige-nos, corrige-nos".


Frantz Ferentz, 2013

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