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domingo, 24 de fevereiro de 2013

PARANOIAS DO CORRETOR (5)

O condenado a morte estaba amarrado a um poste, coas mãos ligadas a ele e os olhos bendados. Chovia com força e o vento assubiava despiedademente. O condenado sentiu a voz que comandava:
   — Apuntem
   Retivo o alento.
   — Fogo!
   Soárom quatro disparos, mas nengum o atingiu. O tipo deixou escapar o alento. Sacudiu a cabeça com força e conseguiu desprender a benda dos olhos. Viu o pelotom de fusilamento e mais o oficial que o comandava:
   — Oficial, este tipo de situações som as que eu ponho nos meus exames para os meus estudantes saberem como disparar con lufadas de vento como estas. Venha, que lho explico.
   O oficial achegou-se e escuitou com atençom as explicações. Depois bisbou ao ouvido dos soldados do pelotom, explicando-lhes que haviam disparar ligeiramente cara à esquerda para compensarem o vento.
   Dispararon outra vez. Os quatro disparos fôrom mortais. O condenado a morte caiu com um sorriso nos lábios, o sorriso do profissional que morre graças aos seus conhecimentos e que os partilha até a morte.


Frantz Ferentz, 2013

PARANOIAS DO CORRETOR (4)


O corrector chegou ao exame dum estudante apelidado Rotoira. Aquele apelido ressoou na sua mente durante todo o tempo que passou a corrigir aquela prova. Estava justo no limite de aprovar, no mesmo limite. Rotoira, por que lhe soava tanto aquele apelido? De repente, o corretor meteu a mão na gaveta dos seus documentos e recolheu umha multa de trânsito. Ali estava o nome do agente que lha pusera: P. Rotoira. Agora já o entendia: aquele Rotoira, de nome S., era o filho do agente que o multara. Tinha a ocasiom de se vingar daquele maldito agente de trânsito que con toda a sua prepotência o multara.
   O corrector sorriu quando puso a nota: Apto. Pola mínima, mas apto, poderia tê-lo suspendido, mas nom. Cumprira a sua vingança. En aprovando aquele exame, o Rotoira filho poderia cursar estudos superiores e nom seguiría a tradiçom familiar de servir à pátria como agente de trânsito sem estudos.

Frantz Ferentz, 2013

PARANOIAS DO CORRETOR (3)

Eu passeava com Sócrates, o filósofo, por aquel jardim perfeitamente cuidado. Ia um día de sol esplêndido, a temperatura era deliciosa. De quando em vez, da que eu mantinha aquela conversa com Sócrates, outros filósofos da história da humanidade cruzavam-se connosco. Todos inclinavam a cabeça respeitosamente perante o mestre. Cruzámo-nos com Kant, Descartes e Marx em poucos minutos. Por fim alcançara o meu sonho, chegar ao paraíso dos filósofos. Trás a minha morte, aguardava-me gozar do conhecimento absoluto ao lado das mentes mais prodigiosas da história da humanidade...
   — Ah, Pedro, abre já os olhos, que nom podes passar a tarde a dormir com todos os exames de filosofía que tens pendentes... —berrou-me a minha dona desde a cozinha.
   Erguim a cabeça. Adormecera dentro dum exame que falava dos socráticos. Nom sei como acabara ali dentro, mai tal acontecera. Mesmo assim, o meu primeiro pensamento foi chumbar aquele exame que descrevia o Sócrates como un gordecho simpático e calvo. Si, chumbaria-o, se é que conseguía escapar dele.

Frantz Ferentz, 2013

PARANOIAS DO CORRETOR (2)

   Nom me entendia a mim mesmo. Umha semana nom fizem outro que calcular as medidas, o peso ou a eventual velocidade do que passava por diante da minha vista, outra semana nom fizem máis que procurar a rima a todas as palavras que ouvia ao meu redor e na terceira dediquei-me a classificar genotipicamente todo ser vivente que passava ao meu lado... Eu seguia sem entender por que, até que o meu velho mestre, o meu guia espiritual, mo explicou:
   — Somos o que corrigimos


Frantz Ferentz, 2013

PARANOIAS DO CORRETOR (1)


   Acudim ao doutor para lhe pedir a baixa por estresse depois dumha semana sem erguer o cu da cadeira a corrigir exames. O doutor tinha ar de ser cético de tudo o relativo às minhas doenças. Limitou-se a me tomar a tensom, escuitar o meu coraçom com o fonendoscópio e rotinas várias. Depois, começou a redigir un relatório, mas da que ia pola metade, ainda que eu o via do revés e ele tinha letra típica de médico, saltou o meu instinto e dixem-lhe:
   — Doutor, já lhe detectei quatro palavras mal escritas...
   O médico ergueu os olhos cara a mim de mau humor. Nom dixo umha palavra. Alçou-se da cadeira, colheu umha xiringa e começou a me extrair sangue do braço. Interpretei-no como umha espécie de vingança do galeno. Nesse momento, o sangue que ele esperava atopar resultou ser azul, azul escuro cor de tinta. Quedou como paralizado.
   — E se o analiza —expliquei—, verá como os meus glúbulos têm forma de letras... É-lhe grave, doutor?
   — Nom o sei ainda, mas com certeza é contagioso —respondeu ele, mentres na sua pele começavam a se formar linhas como orações completas, que parecían berrar-me: "corrige-nos, corrige-nos".


Frantz Ferentz, 2013