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terça-feira, 23 de agosto de 2011

As distâncias são relativas.- Frantz Ferentz

Quando me apaixonei da Maria, pensei que poderia aceitar qualquer coisa dela, mesmo o seu país. A Maria era italiana, como a Torre de Pisa, os canais de Veneza ou o queijo de mozarela. Adorava os seus cabelos pretos a ondear com a brisa, o seu acento intenso acompanhado daquela gesticulação exagerada, o seu olhar por vezes melancólico em direção ao mar, estiver ou não perante ela.

Maria. Sempre Maria. Apenas uma semana depois de termos começado a relação, ela disse-me:

 Quero que conheças o meu país. Virás a minha casa, o meu lar...  propus-me ela toda contente.

Com efeito, eu não conhecia a Itália. Apanhámos o carro desde o norte e fomos para lá, atravessando os Alpes impressionantes, por aquelas autoestradas que, por vezes, penduravam das montanhas. E foi precisamente naqueles primeiros momentos quando comecei a ver que os italianos eram um grande desastre para os sinais das estradas. Para além de marcar os percursos duma maneira, digamos, aleatória, a medição das distâncias era mesmo engraçada. Tínhamos que chegar a Bolonha, para o qual a distância do primeiro cartaz marcava 85 km; porém, um bocadinho mais para a frente, já marcava 89. Como era possível? Comentei -o com a Maria, quem me disse:

  Pois é, estes operários das estradas só fazem o que lhes ordenam...

Não percebi aquelas palavras. Porém, no seguinte cartaz, já Vicenza marcava 52 km. Às vezes, porém, a distância percorria-se muito célere. O seguinte já marcava 33 e depois 42.

  Olha  disse eu um bocadinho chateado, não sei se com os operários das estradas, os italianos em geral ou com a minha percepção da realidade , como é possível que passássemos de 33 km para 42?

Ela não respondeu. Porém, nessa altura uns operários da estrada obrigaram-nos a deter o nosso carro.

 Bom dia cumprimentou um operário bem bronzeado, há um pequeno terremoto. É pouca coisa. Esperem cinco minutos, façam favor.

Esperamos. A terra, com efeito, tremeu. Imediatamente, um outro operário mudou o sinal que indicava Bolonha 34 por outro que dizia Bolonha 29. E, a seguir, o seu colega, o que nos explicara a situação, fez-nos um gesto para continuarmos a viagem.

Eu só olhei para a Maria, como se quisesse saber se aquilo era possível. Ela apenas sorriu, deu-me um beijo nos lábios e disse-me:

 No meu país, as distâncias são sempre relativas... já o dizia o Einstein do tempo, mas acho que também serve para as distâncias.

© Frantz Ferentz, 2011

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