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sábado, 30 de julho de 2011

A tola.- Frantz Ferentz

A primeira vez que fui visitar a minha mãe em sua nova casa fiquei muito surpreendido com a vizinha do prédio que estava em frente. A janela da sala de jantar da casa da minha mãe dava, precisamente, para a da sala do jantar dela, separadas por uma espécie de pátio que não era tal, porque num dos laterais não havia parede, mas a rua, de tal maneira que os portais de acesso estavam no pátio.

É assim que amiúde, quando eu olhava pela janela da sala de jantar encontrava aquela mulher a olhar ela também para fora, envolvida em ares de imensa tristeza. Deveria ter cerca de setenta anos, mas para mim era muito complicado saber calcular a sua idade exata.

 A coitada está maluca  contou-me a minha mãe sobre ela. Vieram mais duma vez os serviços sociais para ver o que ela fazia, mas nunca a levaram embora.

Foi por isso que eu sempre me referi a ela como a tolinha, dito com pena. Aliás, a ideia da sua toleima vinha reforçada pelo facto de ela colecionar cartões de leite vazios, como se for uma Diógenes moderna. Era engraçado comprovar como na segunda feira, a mesa do salão, perfeitamente visível desde a nossa janela, estava vazia, mas no domingo já havia armazenado ali uma montanha de cartões de leite vazios.

Durante as múltiples estadias em casa da minha mãe  visitava-a a cada dois fins de semana, sempre gostava de olhar para aquela infeliz. A sua toleima era tal que mesmo por vezes se debruçava na janela sem camisa nem sutiã, deixando os seus peitos caídos à vista.

Porém, tanta indecência deveu já chatear de mais alguns vizinhos que quiseram acabar com aquela infeliz que só queria ser livre. Aconteceu precisamente durante uma das minhas visitas à casa da minha mãe. Apareceu lá uma assistente social acompanhada de dois agentes da polícia. Possivelmente a tolinha conhecia muito bem a assistente, porque já a viu chegar desde a janela da sua sala de jantar e desde ali começou a gritar-lhe – a velhota sempre se tinha mostrado pacífica, eu nem sequer sabia como soava a sua voz.

A assistente bateu na porta. A velha não quis abrir, mas dalguma maneira  eu não sei como, porque não tinha vistas do que acontecia para além da sala de jantar os visitantes entraram na casa. A cena deslocou-se para a sala. Lá já eu tinha vista completa e também som, porque a janela ficou aberta.

A briga limitava-se a ser entre a assistente social, cujas maneiras eram muito desagradáveis e a vizinha. Por um instante senti vontade de eu também ir lá e apoiar aquela infeliz que não se metia com ninguém, mas não tinha valor para isso. Aliás, percebi que a cena estava a ser também observada pela maioria dos vizinhos do pátio, que seguiam a discussão sem perder qualquer detalhe.

De repente, a tolinha pegou num dos cartões de leite que tinha acima da mesa e ameaçou com ele à assistente:

 Sabes o que é isto? perguntou.

A assistente ainda deu um passo para ela.

 Olha lá continuou a tola, hás de saber que nestes cartões guardo as almas que arrebato. E aqui vou meter também o teu espírito!

Ouvi alguma gargalhada entre os vizinhos que freqüentavam o espetáculo, porque aquilo estava a se converter num espetáculo. Provavelmente alguém até já teria trazido pipocas.

A assistente ainda deu um passo, quase podia pôr a sua mão no ombro da tola. Mas a tola, em vez de dar um passo para trás, tirou a rolha do cartão do leite vazio.

Nesse instante, a assistente caiu ao chão. Houve uns segundos de silêncio. Ninguém reagia. Finalmente, um dos polícias agachou-se e pôs os seus dedos no pescoço da assistente, ainda imóvel no chão.

 Está morta  anunciou.

Nesse instante, todos os vizinhos curiosos desapareceram das janelas à velocidade da luz.

Sei que durante um par de dias a tola esteve fora de casa, dissera-mo a minha mãe, mas quando eu voltei a visitá-la, encontrei a vizinha tola de novo debruçada na janela, com o seu olhar triste, sem falar, mas pelo menos sem ninguém a incomodá-la, rodeada de cartões vazios de leite que na altura cobriam quase todo o chão da sala de jantar.

© Frantz Ferentz, 2011

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