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domingo, 31 de julho de 2011

Olhos que matam.- Frantz Ferentz

Dissera-lhe mil vezes que não tirasse fotos de desconhecidos, que essa mania que ela tinha de fotografar tudo, o que se mexia e o que não se mexia, ia dar-nos mais dum desgosto, mas ela não quis ouvir-me.

Foi naquela cidade do norte de Portugal, Braga, enquanto passeávamos pela rua pedonal que chegava até ao centro da povoação. Como sempre, ela ia por trás, a tirar fotos. Por uns instantes, perdi-a de vista, depois ela encontrou-me enquanto eu olhava para uma montra de pasteis, a minha debilidade.

— Nem imaginas a foto que acabo de tirar —anunciou-me com um sorriso imenso.

Antes de eu abrir a boca, ela já ma mostrava no visor da câmara. Tratava-se duma mulher preta, totalmente preta, ao lado duma montra, apoiada na parede, mas onde o seu olhar era fulminante, mesmo através da fotografia parecia ter força demais para matar.

Eu, que por norma não me interesso muito pelas fotos da minha dona, naquela ocasião fiquei assustado. Punha medo, confesso-o.

Mas o pior veio naquela mesma noite. Tanto eu quanto a minha dona tivemos pesadelos, os dois sonhámos com aqueles olhos que nos perseguiam por uma espécie de universo paralelo.

Quando pela manhã contei os pesadelos à minha dona, ela confessou-me também os seus. 

— Tens que apagar essa foto — disse-lhe.

Ela olhou novamente para aquela imagem que tanto nos tinha impressionado.

— É uma mágoa tão grande... Nunca consegui uma imagem duns olhos como estes — comentou ela.

Com certeza, a imagem era ótima, mas era também terrífica.

— Apaga a foto, força — insisti.

— Está bem.

Voltámos a Berlim depois duns dias. Porém, para nós tinha acabado a calma, pois desde o dia da foto, toda uma série de estranhos acontecimentos teve lugar nas nossas vidas. Sem entrar em pormenores, direi que a nossa existência se tornou um inferno.

Depois dum par de semanas, eu não pude evitar perguntar à minha dona:

— Apagaste mesmo a foto da preta de Braga?

E então ela reconheceu que não, que não a apagara e que a mantinha no cartão.

Visto que tudo na nossa vida estava a ser um desastre, decidi pedir um préstimo e comprar dois bilhetes de avião a Portugal. Não di explicações à minha dona, simplesmente levei-a para o aeroporto com a bagagem feita para um fim de semana. Ela, porém, sabia muito bem para onde é que íamos. Não disse nada.

Lá em Braga fomos direitamente para o lugar onde a preta fora fotografada. Durante horas procurámos a mulher por todo o centro da cidade sem qualquer resultado. 

De repente encontrámos os olhos e o resto da mulher refletidos numa montra. Mas quando nos virámos, lá não havia mulher nenhuma. A brincadeira — pode-se ao certo chamar brincadeira — repetiu-se por distintas montras de lojas do centro. Quando olhávamos para o vidro, lá estava a mulher com aqueles olhos que furavam o cérebro de quem a fitava. 

— Isto é magia? —perguntei à minha dona, mas ela apenas encolheu os ombros.

Decidi que tinha que encontrar aquela mulher fosse como for. Devia já parar de procurar aquele fantasma, era claro que ela tinha alguma magia. Pedi à minha mulher a câmara e procurei a maldita foto. A seguir mostrei-a a todas as pessoas que me pareciam ser nativos da cidade. 

A reação de todos eles era de terror ao verem aqueles olhos que pareciam arranhar o fundo do cérebro. Ninguém a conhecia. Ninguém.

Depois de muitas horas de procura infrutuosa, de termos caminhado por todo o centro histórico em todas as direções, passámos diante duma violinista cega que tocava o seu instrumento magistralmente. Não pude evitar deter-me perante ela, a sua música era envolvente, mas muito triste, imensamente triste. A violinista parou um momento. Eu deitei-lhe uma moeda de dois euros, não tinha mais.

Ela sorriu quando sentiu o som da moeda chocar com o resto, apenas um punhado delas que não alcançariam os dez euros. A mulher, mal teria os trinta anos, era muito magra e cobria a cabeça com boné. Os seus óculos escuros refletiam o meu rosto. Deu um gole de água e depois falou-me:

— O senhor está à procura duma imagem, não é?

— Como é que sabe?

Ela sorriu com a mesma tristeza da sua música. Depois exprimiu:

— Apague essa foto para sempre e esqueça, esqueça. Ela é mesmo uma imagem e vive como imagem, mas se ela puder olhar para si, ficará com o seu dom mais precioso, acredite...
E sem mais palavras, tornou a tocar o violino. De repente, na montra que havia ao lado dela, a imagem da mulher preta voltou a se refletir.

Eu olhei para a minha dona um instante. Ela seguia imóvel. Sem mais uma palavra, premei o botão e apaguei a foto. Então, a imagem desapareceu também da montra onde estava a se refletir.

Quis agradecer à violinista a sua ajuda, mas ela, de repente, já não estava. No seu lugar, a minha dona e eu, cegos, tocávamos o violino por umas míseras moedas naquela rua do centro de Braga. 

Ficávamos à espera de outros turistas conseguirem ver a mulher preta e nos substituírem nalgum remoto dia, para, talvez, voltarmos a casa. 




© Frantz Ferentz, 2011

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