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sábado, 11 de junho de 2011

Tacto.- Frantz Ferentz


Quando o Alberto se casou em segundas núpcias com a Aurora sabia que no pacote vinha aquele pequeno ser odioso chamado Avelino, mais conhecido como Ave. Ele estava muito apaixonado pela Aurora, portanto pensou que seria fácil aguentar aquela criança de cinco anos que olhava tudo com olhos imensos.

 O Alberto e a Aurora casaram-se quando a criança fez oito anos. Foram viver a um apartamento qualquer, num bairro qualquer, duma cidade qualquer. Moravam no andar do rás-do-chão. O Ave gostava de passar as horas no pátio, pelo qual as suas vozes subiam por ele e eram ouvidas por todos os vizinhos. Após duas semanas de a família viver ali, aquele garoto era o ser mais odiado da habitação, até extremos insuperáveis, sempre a jogar com o seu amigo invisível, ao qual dava conselhos, ordens e até benções.

Mas o pior para o Alberto não era isso. O pior é que amiúde a criatura entrava em casa e espiava o que o Alberto fazia. Depois ia para a mãe e dizia-lhe: "O Alberto está a jogar ao computador... o Alberto está a ver uma partida de futebol na televisão... o Alberto está a ler no banho..." E tudo isso vinha acompanhado do "quem te quer mais do que eu, mámi? Eu quero-te tanto, mamãezinha... Vou querer-te ainda mais...".

O Alberto percebeu que o seu matrimónio com a Aurora perigava. Aquele pequeno terrorista emocional podia acabar com tudo. Era preciso pôr fim àquele pesadelo. O Alberto já sabia o que ia fazer. Esperou que o Ave chegasse da escola. O Alberto já estava à sua espera no quarto. Tinha deixado uma caixa de cartão na cama.

— O que é que andas a fazer aí? —perguntou o menino já a suspeitar.

O Alberto apenas sorriu.

— O que é que andas a fazer? —repetiu o menino a pergunta.

— Cá dentro está o teu amigo invisível —disse o Alberto—. Acabo de lhe pôr um dispositivo por baixo da pele que é impossível de tirar. Apenas tenho que premer um botão e o teu amigo invisível sairá a voar pelos ares. Estás a perceber?

O Ave engoliu saliva. Percebia, claro que percebia.

— Bom, se queres que o teu amigo invisível siga a ser o teu amigo invisível, tens que fazer duas cousas: uma jogar com ele em silêncio. Ele sabe o que queres. E duas: não digas mais vezes à mamãe o que estou a fazer. Fica calado. Combinado?

 O Ave assentiu com a cabeça. O Alberto saiu do quarto satisfeito.

Porém, dois dias mais tarde, a Aurora comentou preocupada com o Alberto justo antes de irem dormir:

 — Estou preocupada pelo miúdo.

— Como assim?

— Fez uma coisa impossível de entender: abriu o teu armário e arrancou todos, mas absolutamente todos, os botões das tuas camisas e das jaquetas. Sinceramente, não sei por quê lhe veio agora essa mania...


© Frantz Ferentz, 2011

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