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domingo, 26 de junho de 2011

À sombra do sete.- Frantz Ferentz

O Tiago nasceu em 07.07.77. Talvez por isso o sete tornou-se o seu número da sorte. Já desde bem pequeno compreendeu que toda a sua vida viraria arredor desse número. Com sete anos começou a perceber a realidade ainda mais a partir desse número, foi capaz de tomar as suas decisões (era a idade que dizem que é do uso da razão). Não perdeu a sua virgindade até os catorze anos (portanto, sete e sete) e não começou a trabalhar até os vinte e um (é dizer, sete, sete e sete). Sempre tentou ter sete amigos e quando quis viver sozinho, procurou um apartamento que estivesse no portal sete e mesmo no sétimo andar, embora não tivesse elevador.

Ele sabia que a sua grande oportunidade na vida viria com o sete. Não é que fosse um homem de estudos nem tivesse uma formação que o permitisse desenvolver uma carreira espetacular. Apenas fizera estudos de secundário e depois buscou a vida como pôde, sem se preocupar demais, porque tinha a certeza de que o sete guiaria os seus passos, quando chegar o momento. O mais provável seria quando tiver vinte e oito anos, porque seria a união de quatro setes na sua vida.

E assim foi. Já com vinte e oito anos, foi com um amigo a um estranho bar da periferia da cidade onde preparavam um coquetel exclusivo da casa. Era verão, estava bom tempo, a gente gostava de se refrescar nas esplanadas depois dos dias tórridos de calor. O Tiago leu na carta de bebidas que o famoso coquetel se chamava Seven delights. Embora o seu inglês for muito fraco, entendia perfeitamente aquele seven. Era o sinal aguardado. Na sua mente surgiu a ideia de que aquele seven delights deveria ser tomado durante sete dias consecutivos, porque, além disso, faltavam sete dias para o seu dia de anos, quando já faria vinte e nove anos. Não, não era por acaso.

Precisamente aquele dia era segunda-feira. O projeto era tomar um seven delights a cada serão. Naquela segunda feira tomou o primeiro coquetel. Era forte, dum gosto intenso. O Tiago não estava afeito às bebidas alcoólicas daquela maneira. Após o quinto gole, estava bêbedo, totalmente bêbedo. Quando abriu os olhos na madrugada da terça feira acordou na cama duma conhecida modelo. Não lembrava nada, mas sim sentiu a humidade nos seus genitais. Ela, ao acordar, simplesmente sorriu.

Visto que aquele era o plano do destino, naquele serão voltou à esplanada e pediu novamente um seven delights. A história repetiu-se, embebedou-se e amanheceu na cama da sua própria chefa, quem, já desperta, olhava para ele com olhos ternos. Aquilo teria bons resultados lavorais, com certeza.

Na quarta-feira repetiu coquetel. Despertou na cama da mulher do primeiro-ministro (conhecia pelas fotos onde ela aparecia do braço do seu homem). Antes de ir embora —tinham dormido num hotel qualquer—, ela deu-lhe um maço de notas de quinhentos euros e despediu-o com lágrimas nos olhos.

Na quinta-feira, depois do coquetel, apareceu na cama da primeira mulher que se tinha namorado, uma companheira do liceu duma beleza indescritível que nunca reparara nele. Ela despediu-se dele dizendo: "Fui uma estúpida..."

Na sexta-feira, depois de se embebedar, amanheceu no trapézio dum circo, com uma acrobata nua que ainda suspirava pelo que se lembrava da noite anterior e que o pousou no chão como se fosse uma pluma.

No sábado bebeu de novo. Despertou na cama dum hotel de luxo com um rei árabe do sul que o abraçava ternamente ainda a roncar. Ele foi embora na ponta dos pés, querendo esquecer aquele triste evento. Seria um segredo.

No domingo chegou um bocadinho mais tarde do habitual à esplanada. Quando pediu o habitual seven delights, já duas esplêndidas mulatas gémeas olhavam para ele com paixão. O Tiago pensou que, talvez, seriam elas as encarregadas de amanhecer com ele. Seria uma experiência interessante, visto, aliás, que era a sétima noite e que na segunda-feira já a sua vida seria outra. No entanto, lamentava não lembrar nada do que acontecia desde que se embebedava até que acordava no dia seguinte, mas tinha a certeza de que deviam ser momentos de sexo sem controlo.

Quando já na segunda acordou, o Tiago não via nada. Tudo estava escuro. Bem logo descobriu que estava fechado em algo que parecia um ataúde. Estaria enterrado vivo? Apalpou-se por todo o corpo, se por acaso tivesse o telemóvel consigo. Felizmente tinha-o numa algibeira. E tinha bateria. Ótimo. Parecia que havia mesmo rede. Marcou o número das emergências. Uma voz tediosa respondeu no outro lado da linha.

— Oiça, estou enterrado vivo, não sei onde é que estou.

— Amigo —disse o outro—, são as três da madrugada. Não me venha com brincadeiras de mau gosto, eh?

— As três da madrugada? Mas em que dia é que estamos?

— Hoje já é segunda, mas vá dormir, quer?

E pendurou. O pobre Tiago não percebeu nunca o que tinha acontecido. Porém, aquilo era o resultado lógico de não ter respeitado a regra do sete. Se ele o tivesse sabido! Aquelas duas mulatas quiseram que ele tomasse um coquetel com cada uma delas. Coitado. Ele, entusiasmado com a ideia de fazer um trio nem pensou que não cumpria a regra e tomou dous coqueteis seguidos. Foram dois coqueteis num só dia, em total, oito coqueteis em sete dias. E o destino castigou-o por não ter sido sete coqueteis em sete dias.


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O responsável pela planta abriu uma caixa de madeira em que se efetuava um envio de telas. O fedor que saia dela fê-lo pensar que ali dentro não havia qualquer tela, mas algo orgánico. Quando abriu a caixa, encontrou o corpo ainda vivo do Tiago, esvaído, e também fezes por todo o espaço. Seguro que o tipo cagara de terror. O responsável não pôde evitar um sorriso. Aquilo levava o selo das duas mulatas viciosas e psicopatas que trabalhavam ali e que gostavam de montar orgias com desconhecidos para depois fechá-los em caixões para enviá-los ao outro extremo do mundo. Porém, este teve sorte. Estava metido numa caixa marcada 7777.


© Frantz Ferentz, 2011

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