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sábado, 18 de junho de 2011

Os pesadelos do corretor (5).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça.

O corretor de exames já não se tem em pé. Tem um sono impossível de quantificar, mas também tem fome. Pensa que pode deitar bolachas no leite e fazer-se uma espécie de puré. É uma fixação da infância que lhe permite resistir desperto ainda algum tempo. Porém, a percepção da realidade do corretor está muito diminuída, terrivelmente reduzida. Tanto é assim que apanha vários exames e os mete no caço onde já ferve o leite. Automaticamente começa a bater neles até despedaçá-los e convertê-los num puré de pasta de papel. Porém, também por hábito, deita cacau no leite. 

Come direitamente do caço. O seu subconsciente apercebe-se de que o sabor não é o habitual. O seu cérebro reativa-se. Aquilo sabe a... papel. Descobre com horror que não empregou bolachas, mas exames. Conta os exames que misturou com o leite. Não são muitos, cinco. Buf, mas é terrível, não pode permitir-se fazer estas cousas... E então, acontece aquilo.

É algo inexplicável, alheio a qualquer lógica. Trata-se dum processo que, se o corretor não fosse homem científico, qualificaria de magia. O que acontece —vamos desvelá-lo já— é que o corretor, através da ingestão dos exames, é capaz de corrigi-los. Aliás, sabe quem é o estudante que fez o exame, o seu estômago também lê o nome do aluno.

O corretor nem hesita. Apanha a montanha de exames e começa a preparar um puré de leite com papel de exames. Por sorte tem fome demais. Janta como um animal, arrota e arrota, mas tem que abrir espaço na sua barriga para tal carga de exames. Entementes, aponta os nomes dos estudantes e as suas notas.

Duas horas depois tem feito a digestão. O corretor não pode estar mais contente. Descobriu o modo de corrigir e fazer algo de que gosta imenso: comer. Aliás, também se apercebeu de que deitando um bocadinho de canela no leite a ferver com o papel, os exames têm mesmo bom sabor.

Pela manhã vai contente para a faculdade. Tivera mesmo tempo de dormir pela noite. Mas então apercebe-se dalgo. Como vai fazer para mostrar aos estudantes os seus exames quando queiram revê-lo?

O corretor começa a suar. Ainda não foi ao banho. Timidamente, no seu cérebro, surgem duas perguntas: haverá algum estudante que aceite fazer revisões na casa do banho? E por que todos os alunos têm essa mania de rever exames? Sabe que qualquer coisa é possível com a nova legislação universitária. Felizmente, do cheiro final dos exames não se diz nada.


© Frantz Ferentz, 2011

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