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domingo, 12 de junho de 2011

Os pesadelos do corretor (4).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça.

O corretor, no meio da desesperação que lhe supõe tudo aquilo, lembra aquele conto infantil onde um sapateiro é ajudado por uma legião de seres mágicos, não lembra se gnomos, anões ou aranhas, mas a questão é que enquanto ele dorme, os seres mágicos fazem os seus sapatos no seu atelier. Quando se ergue de manhã, encontra que o trabalho está tudo feito.

O corretor pensa que, por vezes, os sonhos tornam-se reais. Enquanto se concentra nesse pensamento, cai dormido sobre a mesa dos exames. Mas o seu sonho se torna real. Não é que venham gnomos ou anões, mas vêm as personagens das suas bandas desenhadas, todos os herois que têm nos seus álbuns ilustrados. Saem ali Superman, Batman, Tarzan, o Capitão América e todos os clássicos. Enquanto o corretor dorme como um anjinho, roncando sonoramente, os herois põem-se de acordo para corrigir tudo o que há acima da mesa. São de papel, por isso tratam o papel com especial cuidado.

Trabalham toda a noite na correção dos exames, a procurar não fazer qualquer ruído para não acordarem o corretor. Coitado, vê-se que já não pode com a sua alma.

E quando o sol começa a aparecer pelo terraço, desaparecem, voltam para os álbuns ilustrados sem serem escutados por ninguém. E então finalmente desperta o corretor. O seu primeiro pensamento é: «Ó, meu Deus, adormeci e não corrigi os exames». Mas a sua surpresa é gigante quando vê que todos os exames estão perfeitamente alfabetizados e corrigidos diante dos seus olhos. Lembra a fábula dos gnomos e do sapateiro. Terá algo a ver? Toma o café depressa e acende a rádio para ouvir as notícias. Dão uma notícia incrível: quarenta estudantes —que casualidade, são estudantes do corretor— apareceram na cadeia de modo inexplicável com uma nota da Liga da Justiça que dizia: «Que fiquem aqui fechados até apreenderem o valor do estudo; outramente, serão futuros criminosos». 

O corretor prefere não acreditar no que a sua fantasia lhe indica. Mas, por acaso, leva os seus livros de banda desenhada a um alfarrabista e troca-os por livros de fábulas infantis onde saiam gnomos e anões trabalhadores.

© Frantz Ferentz, 2011

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