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domingo, 12 de junho de 2011

Os pesadelos do corretor (3).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça. Porém, algum ser mágico, misterioso, místico e certamente invisível ouve os desejos do corretor. Não existe uma máquina corretora, mas sim uma inteligência corretora.

Quando o corretor está a lutar contra o sono porque já as suas pálpebras são de chumbo, soa a campainha da porta da casa. O corretor levanta-se automaticamente, é um mecanismo instintivo que o leva até a porta do apartamento com a caneta entre os lábios.

Quando abre, reage. É a sua colega Lídia. A Lídia vem com um cãozinho coberto de lãs, ao qual apenas se vê o focinho, uma bola preta a salientar entre as lãs. 

— Notícia bomba, meu. Este cãozinho sabe corrigir exames.

— Obrigado por tentar encorajar-me. Boa noite, vemo-nos amanhã na faculdade...

Mas a Lídia põe o pé entre a porta e o quadro. Evita que a porta feche. O corretor nem pode reagir. Está demasiado cansado. Ela entra. Vai até o estúdio dele. Apanha vários fólios. Escreve neles os números desde o 0 até ao 10. Coloca-os no chão. Depois coloca os exames numa coluna também no chão, ao lado do fólio com o número 0.

O cão não tem que ouvir qualquer mandado. Já sabe o que tem que fazer. Começa a ler o primeiro exame, faz um barulho muito engraçado, como se for uma engrenagem oxidada. Morde a esquina com cuidado e coloca o exame sob a folha que põe 6. E depois, sem pausa, vai para o seguinte exame. Lê nele. Decide e leva-o para a nota 8. E assim continua a fazer com o resto dos exames.

— Estás a ver? —pergunta a Lídia ao seu colega, que não pode acreditar o que lhe mostram os seus olhos.

— Estou...

— Bom, olha, aqui o amigo corrige isto numa hora. Convido-te a uma cerveja...

— Não deveria...

— Deixa-o estar, pá, vem.

O corretor deixa-se arrastar pela colega. Vão a um bar não muito longe onde a cerveja é boa. Cai uma, duas, três, quatro... O corretor nem lembra se nalgum momento beija a colega. Sempre desejou fazê-lo, mas nunca teve coragem. Porém com a cerveja... Aliás, por que ela é tão amável que vem na sua ajuda com o cão? Algo deve haver, pensa o corretor ainda que na sua mente as névoas etílicas ocupem todo o espaço.

Quando volta para a casa, o corretor pensa que talvez poderia sussurrar à colega que poderiam ter sexo. Sente-se satisfeito, tem a certeza de que o cão terá acabado a correção. Abre a porta da casa. Ela rodeia a cintura dele. Que bom panorama. No estúdio, o cão, com efeito, acabou as correções. O corretor, antes de se insinuar que tudo está correto, quer comprovar que os montões estão corrigidos. Verifica apenas dois exames. O cão pontua muito bem. É genial. Não olha muito já. Empurra a colega. Ela também quer loucura aquela noite, paixão para depois esquecer.

Quando na outra manhã o corretor desperta, vai ver se tudo está em ordem. O cão dorme no sofá. Ele mesmo fora capaz de abrir o frigorífico e lá apanhara umas salsichas. É muito inteligente esse cão. O corretor começa a recolher as pequenas colunas do chão. Três estudantes com 10, seis com 9, vinte e quatro com 8. Impressionante como corrige o cão.

Até que chega ao 4. A coluna está molhada. Como assim? O corretor apercebe-se então que o cão tem mijado na coluna do 4. E também na do 3, na do 2 e na do 1. Mas o pior é que na coluna do 0 (há por volta de cinco estudantes que deixaram o exame em branco) o cão cagou.

Alguém deveria ter explicado ao cão que julgar um exame é apenas pôr-lhe uma qualificação, não expressar as opiniões fisiológicas acima dele. O corretor percebe que tem um problema. E logo descobre outro. Por causa da bebedeira da noite anterior dá-se conta que confundira a sua colega com o vizinho homossexual da porta do lado, o qual  está a olhá-lo com olhos lascivos desde o limiar da porta do salão em tanga exigindo outra ração de sexo antes do amanhecer.

© Frantz Ferentz, 2011

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