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domingo, 12 de junho de 2011

Os pesadelos do corretor (2).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça.

O corretor fica toda a noite em branco. Não dorme. Trabalha como um gnomo da floresta. E finalmente, pela manhã, acaba a correção. Mete todos os exames na caixa de cartão. Se calhar, não é digno para os exames irem dentro de uma caixa de cartão, mas para ele, para o corretor, é a única forma de transportá-los. Na sua mente há apenas dois desejos: entregar os exames e depois dormir, dormir muitas horas, dormir com o telemóvel desligado para se evitar surpresas.

O corretor é um asceta. Como sabe que não está em condições de guiar o auto, viaja de metro. Tem que ir em pé, com a caixa dos exames nas mãos. Pesa, pelo menos, oito quilos. Da boca do corretor não sai uma simples queixa, embora o pisem, lhe metam o cóvado entre as costelas, lhe redesenhem um olho... Sofre em silêncio, como um valente, porque é um profissional e a dor vai incluída no seu salário.

Quando chega à faculdade, vai direito para o escritório do decano. O decano capitaliza todos os exames, quer vê-los antes de irem para os informáticos, os quais passam as notas para os computadores. O decano não gosta do corretor, espreita-o como o lobo espreita o borrego, porque quer deitá-lo para a rua, porque se trata duma faculdade privada, de capital privado, com estudantes que são clientes e onde o proprietário do negócio, isto é, a faculdade, pretende ganhar muito dinheiro. E nestas circunstâncias, o corretor não é rendível, embora cobre uma merda, e, aliás, pensa sozinho. Perigoso.

— Bom dia, trouxe os exames —diz o corretor fazendo um esforço sobre-humano para a sua voz soar normal.

O decano grunhe. É a sua forma de cumprimentar. O grunhido pode significar tanto «bom dia» quanto «que te deem pelo cú». Abre a caixa de cartão. Começa a extrair os exames. Surpresa. Os exames estão sem corrigir. Estão igual que quando o corretor os recolheu. Não há nada escrito neles.

O decano sorri. Já tem motivo para expulsar o corretor. O corretor, pelo seu lado, percebe o que tem acontecido. Olha para a caneta que ainda tem no seu bolso. É uma caneta trucada. Tem uma tinta especial que primeiro se vê, mas depois desaparece. Precisamente insistiram-lhe que empregasse aquela caneta, oficial na universidade. O corretor sabe que está atrapado. O decano sorri mais e mais. O corretor já nem ouve as asneiras que o outro larga sobre a sua incapacidade profissional e intelectual.

Sem dizer uma palavra, o corretor sai do escritório do decano. Ninguém nota, nem o próprio decano, que a porta do seu escritório fica trancada. Impossível abri-la. Tampouco se dá conta de que o fio de gasolina que deixou o corretor cair da sua algibeira vai direita para a alcatifa persa. Quando o corretor esteja a poucos metros do gabinete do decano, o quarto começará a arder mercê a um quase invisível fósforo. Pode ser que o decano se salve ou não, ele não se importa. Mas uma cousa é segura: os exames de toda a faculdade queimarão lá dentro.

Será responsabilidade do decano, que fuma no seu gabinete, pensará a polícia e até mesmo a secretária do decano. Mas ele, o corretor, ficará livre de toda culpa. Porém, quando as chamas começam a surgir, ele, o corretor, já vai caminho da cama. E na altura, até se permite ir de táxi.

© Frantz Ferentz, 2011

1 comentário:

María N. Pérez Sánchez-Patón disse...

Hola, Xavier, me encanta, me encanta, me encanta.
Gracias, por ser un cielo. Muacccccccsssssssss

María