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domingo, 12 de junho de 2011

Os pesadelos do corretor (1).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça.

Sabe que tem que ir dormir. Se calhar, por pouco tempo, mas é preciso fazer uma pausa e recuperar umas mínimas energias. Com muito esforço —já nem tem forças físicas— vai para a cama devagarzinho, muito devagarzinho. Deixa-se cair nela. Se calhar, alguma mola soa por baixo. Talvez algum quebrou. Não faz mal. Tem quatro horas para dormir, mais nada.

Porém, dormir não é sinónimo de descansar. Enquanto dorme, sonha. Sonha que está ainda sentado na mesa de estudo e que segue a corrigir. Corrige sem descanso. Corrige como um possesso. A coluna desce devagar, mas ele sente que o seu espírito está a cair de cansaço, sente-se como se a alma lhe escoasse pela cloaca. É impossível exprimir aquelas sensações que deixam o indivíduo sem energias. 

De repente soa o despertador. As malditas quatro horas pareceram dez minutos. Arrastando os pés, o corretor, sem ainda ter mesmo tomado o café, vai para a mesa de trabalho. Descobre com surpresa que a coluna dos exames pendentes para corrigir desapareceu. Todos os exames estão já na coluna dos corrigidos. Incrível. Começa a suspeitar que a sua obsessão por acabar a correção obrigou-o a não dormir de noite, que na realidade é sonâmbulo e que, em vez de dormir, passou as quatro horas a corrigir dormindo. 

Vai para a cozinha. Incrível, o café também está já preparado. Mas há duas bicas prontas. Não entende como é que fez aquilo. Mas é assim. Se calhar, quando é sonâmbulo nem controla o café que faz. Porém está contente. Vai depois para a casa do banho, toca fazer chichi.

Mas é ali que descobre o vizinho. Está sentado na retrete. Dorme. Mesmo ronca. Não percebe. Sabe que o vizinho tem chaves de casa. Na mão tem um marcador vermelho. Então o corretor percebe tudo. Não foi ele o sonâmbulo que corrigiu tudo de noite. Foi o vizinho. É um vizinho sonâmbulo. Por que o faria? Estará apaixonado por ele?

De repente o corretor acorda. Tudo foi um sonho dentro dum sonho. Os exames estão lá acima da mesa, sem corrigir. Não há café feito, não há vizinho no banho. O corretor larga um cagamento. Lembra-se de Calderón de la Barca e do seu «los sueños sueños son». E o pior é que o corretor adormeceu, não sentiu o despertador e já vai com demora...

© Frantz Ferentz, 2011

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