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sábado, 18 de junho de 2011

O que a vassoura esconde.- Frantz Ferentz

Quando o Paulo chegou a casa eram as oito e um quarto do serão. Não vinha do trabalho, vinha do bar. Se alguém nesse momento tivesse estado a vinte centímetros dele teria detectado que no seu alento se misturavam duas partes de cerveja com quatro de conhaque e três de batatas picantes. Ter beijado o Paulo nesse momento poderia ter sido uma experiência de alto risco, mas não é que o Paulo fosse um homem estranho, mais bem o contrário, era um homem absolutamente normal, de vida normal, num bairro obreiro duma cidade capital, cujos gostos básicos se reduziam ao futebol e a falar de mulheres espetaculares com que nunca teriam sexo.

Quando o Paulo chegou à casa vinha com fome. Queria jantar. Estranhou-se de que o seu fino olfato não recebesse o cheiro de algo cozer na cozinha. Tampouco sentiu a dona. Onde caralho andava a Teresa? Demorou vinte minutos até ficar convencido, mas afinal houve de admitir que em casa não havia ninguém, que a Teresa não estava. O único que encontrou estranho foi a vassoura apoiada na mesa da sala das comidas E apegada à vassoura uma nota amarela, bem visível. O Paulo arrancou a nota e começou a ler nela. Dizia assim:
«Não quero mais ser a tua escrava. Apresento-te a tua nova dona, a vassoura. Se ao certo te importo, demostra-mo, varre pelo menos a casa. Teresa».
O Paulo ficou paralisado. Não se esperava aquilo. Varrer? Ele nunca tinha varrido na sua vida. Nem sabia como se fazia. Tinha observado descuidadamente a Teresa fazê-lo alguma vez, mas com certeza duvidava que fosse capaz de fazê-lo; de facto, achava que aquilo seria mais complicado do que  jogar uma partida de futebol com um só pé.

O Paulo observou que o sol caía por trás as casas em frente. Tinha fome, mas também curiosidade, uma curiosidade inexplicável que o impulsionava a varrer. E varreu. Começou a o fazer dum modo instintivo, mas compreendeu que a técnica consistia em passar o cabelo da vassoura pelo chão para recolher a porcaria que havia. Ele, entretanto, sujeitava o corpo dela, da vassoura. Varreu o comedor e ficou satisfeito.

Depois contemplou a vassoura. Por alguma estranha razão, gostava dela, da vassoura. A Teresa tinha razão quando lhe dizia: «apresento-te a tua nova dona». Teve uma ideia disparatada. Recolheu um vestido da Teresa e vestiu a vassoura com ele, mas com um cabide por baixo para o vestido se sujeitar.

No dia seguinte, o Paulo tirou o vestido à vassoura e varreu o corredor. E foi então que descobriu que a vassoura o fazia feliz. Depois de varrer, olhava para ela. Os cabelos da vassoira, cobertos de pó, excitavam-no como um louco. E o melhor era que a vassoura nunca se queixava. Depois varreu já o resto da casa. Varreu com paixão, deixando escapar gemidos de prazer mentres passava a vassoura pelos recantos mais recônditos onde a merda lutava por sobreviver. Havia compenetração entre eles. E então notou que ejaculava. A vassoira causava-lhe um prazer imenso.

Mudou a fechadura da porta para a Teresa não voltar. O Paulo era feliz com a vassoura, a sua nova namorada. Começou a chamá-la Espigas, pela cor dos seus cabelos. Nunca na sua vida o Paulo tinha sido tão feliz. Nunca, até que se apercebeu de que na casa também tinha um esfregão, cujos cabelos, quando estavam molhados, o excitavam ainda mais.

© Frantz Ferentz, 2011

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